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  <title>José da Xã</title>
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  <description>José da Xã - SAPO Blogs</description>
  <lastBuildDate>Fri, 10 May 2013 23:19:54 GMT</lastBuildDate>
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  <pubDate>Fri, 10 May 2013 23:17:45 GMT</pubDate>
  <title>Rosa de Maio</title>
  <author>José da Xã</author>
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  <description>&lt;p&gt;&lt;em&gt;Para a Fátima Soares com um beijo de muitos parabéns&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Colhi-te numa Primavera.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eras simplesmente um botão de rosa,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Fechado, temeroso e ingénuo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O mundo era ainda uma aventura,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mais que um desejo ou fronteira.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com o tempo foste abrindo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E logo o perfume começou a exalar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Inebriante, doce, belo e sedutor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Polvilhei-te então com pequenas gotas&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De amizade fresca e sorriso jovial.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um dia uma veluda pétala,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;no dia seguinte um estame.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Uma noite um perfume,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;na outra noite uma alegria.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a rosa a florir feliz.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um espinho deixou então marca.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pois uma brisa levara-lhe a coberta&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Balançando ao vento da tarde.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do sangue quente e vermelho,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Veio o sopro que a desfolhou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Já rasa de aveludadas pétalas&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Olho-a ainda com doçura&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pois perdura o seu perfume.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Deixou assim de ser a flor singela&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para ser a Roseira Brava do meu jardim.&lt;/p&gt;</description>
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  <category>aniversário</category>
  <category>poesia</category>
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  <pubDate>Sun, 05 May 2013 21:33:55 GMT</pubDate>
  <title>Provavelmente</title>
  <author>José da Xã</author>
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  <description>&lt;p&gt;&lt;em&gt;Para a minha mãe Violeta&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Provavelmente nunca lerás estas palavras&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Porque nunca te ensinaram a aprender.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nem me preocupa que não leias.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aqui ficam apenas e só como testemunho&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Provavelmente nunca lerás as minhas palavras,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Porque nunca aprendeste a ler-me.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não me aflige esta tua ausência,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Porque sei que estás sempre presente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Provavelmente nunca saberás que as escrevi,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Porque nunca te ensinaram a folhear a vida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não me entristece a tua distância,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Porque sei que serás sempre a minha mãe.&lt;/p&gt;</description>
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  <category>dia da mãe</category>
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  <pubDate>Sat, 09 Mar 2013 22:53:30 GMT</pubDate>
  <title>Poema para um dia cinzento</title>
  <author>José da Xã</author>
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  <description>&lt;p&gt;Chove.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nas ruas lamacentas caí tanta vez.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A terra negra ou clara invade-me&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como vírus peçonhento.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Chove.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nas margens duma ribeira&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Morrem afogadas as ervas&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Verdes de tanta raiva.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Chove.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O som da bátega de água&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Enche-me o coração de melancolia&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Torpe de quem sofre de amor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Chove.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um vento singelo e apurado&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vai-se recortando por penedos&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Trazendo-me o cheiro a terra.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Chove.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ouvi-la só, bastava-me.&lt;/p&gt;</description>
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  <category>chuva</category>
  <category>poesia</category>
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  <pubDate>Sat, 16 Feb 2013 21:10:57 GMT</pubDate>
  <title>Para Sempre…</title>
  <author>José da Xã</author>
  <link>http://josedaxa.blogs.sapo.pt/38977.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Nota: este texto foi escrito para um trabalho de mestrado. A Isabel Carvalho, mentora da história, pediu-me ajuda. E acabámos por escrever este conto. Tem alguma terminologia técnica, essencial ao trabalho, mas tem outrossim muito de real. Curiosamente convivi muito de perto com um colega, entretanto falecido, que tinha esta doença. E é realmente tenebroso a forma como o ser humano pode cair ao mais fundo da incapacidade e degradação física&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Aproveito para desta forma homenagear quem ajuda estes doentes e os seus familiares. Quem nunca viu estes enfermos, não imagina o que um ser humano pode sofrer.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Levar as mãos a cabeça era a única coisa que conseguia. Entretanto não se lembrava de mais nenhuma palavra de conforto. Estava tudo tão confuso e vê-la chorar de desespero era insuportável…&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eduardo e Sara eram um casal haviam-se conhecido na adolescência. Foi empatia à primeira vista e a amizade que os unia foi criando laços cada vez mais fortes até que o inevitável aconteceu: apaixonaram-se um pelo outro. Passaram a andar quase sempre juntos na escola que ambos frequentavam. Todavia quando chegaram à Faculdade cada um seguiu o seu próprio caminho.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ele formara-se em Gestão e encontrava-se presentemente numa multinacional de renome internacional e que facturava números com diversos zeros… Exibia de uma aparência jovem mas já com algumas brancas a mostrarem a sua rebeldia, um ar sério e responsável em qualquer decisão, ideia ou ordem que implementava. Quase sempre bem-sucedido nas suas opções ganhara por isso o respeito e admiração de chefias e colegas. Outra das suas características era a sua permanente disponibilidade de ajudar de quem dele necessitasse.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sara era uma profissional e competente médica no Serviço de Urgência, sempre com uma palavra amiga para oferecer aos doentes e familiares nos momentos mais complicados. A humanidade e o carinho que oferecia aos outros, era claramente difícil de encontrar em outro médico do mesmo Serviço. Raramente saía exactamente no final do seu turno, pois, sentia que tinha de ver se os pacientes, que tinha atendido antes de sair, estavam bem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Porém nessa noite era diferente e tinha de se despachar… ia jantar com o namorado no seu restaurante preferido. Eduardo gostava de mimá-la com aqueles singelos gestos mas que a deixavam feliz.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O jovem gestor, que até à data tinha sido um jovem bastante calmo, estava naquela noite particularmente nervoso e agitado. Tinha tomado a maior decisão de todas… pedir Sara para ser sua mulher para o resto da sua vida. Vestiu assim o melhor fato e pediu a Sara que saísse a horas para puderem aproveitar a noite. Tinha tudo planeado ao pormenor: as flores, o jantar, o anel e surpresa da vida dela. Escolhera também a sobremesa favorita de Sara, um fantástico bolo de chocolate, em que a cereja iria ser substituída por um anel que ele próprio escolhera e comprara. A princípio pareceu-lhe essa ideia um tanto pirosa mas com o tempo aceitou que aquela noite teria de ser especial… muito especial&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sara conseguiu sair a horas do serviço e correu para casa para se preparar. Vestiu o seu melhor vestido e à hora combinada desceu para se encontrar com Eduardo. Ele estava a sua espera à porta de entrada e assim que a viu ficou deslumbrado. Nunca tinha visto uma mulher tão bonita como aquela e naquele momento apercebeu-se que tinha tomado a decisão correcta de a escolher para passar o resto da sua vida ao seu lado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Já no restaurante o ambiente era acolhedor, com música ambiente e cada mesa preparada ao pormenor. Eduardo estava nervoso mas tentava não transparecer, enquanto Sara por sua vez contava as suas aventuras nas urgências e como salvara uma senhora da morte certa. Adorava partilhar o seu dia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A noite desenvolvia-se serena e animada e o jantar tinha sido bastante agradável, a conversa fluía e tinha chegado o momento. Eduardo pediu em surdina ao empregado que trouxesse o bolo e que colocasse a música que tocava no dia em que começaram a namorar, enquanto Sara fora à casa de banho.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tinha chegado o momento que Eduardo tanto tinha esperado. Quando Sara se sentou à mesa apercebeu-se que estava a dar a música que lhe trazia uma recordação especial e a sua sobremesa tinha um brilho especial. Eduardo ajoelhou-se ao lado de Sara e depois de lhe disser que ela era a mulher da vida dele, pediu se ela queria dividir a sua vida com ele para sempre.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sara emocionou-se e tudo o que tinha imaginado estava a acontecer. Só faltava dar a resposta mas algo estava errado. Começou a sentir os braços dormentes, a querer articular as palavras e a ver Eduardo coberto por uma névoa. Desmaiou nesse instante.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não deixaram Eduardo entrar para acompanhar Sara quando esta deu entrada nas urgências. O rapaz sentia-se perdido, ninguém lhe dava notícias e a espera era desesperante.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sara acordara deitada numa maca no SO que conhecia tão bem. Fazia parte do seu dia-a-dia, onde salvara vidas e perdera outras e por alguma razão que lhe estava a passar ao lado era a vez dela estar ali. Sentou-se na marquesa e viu o colega João chegar junto dela.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Que se passa João? Porque estou aqui?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A mão robusta mas tranquilizadora do colega empurra-a para a marquesa, com a voz calma foi dizendo:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Foi o Eduardo que te trouxe de ambulância. Pelo que parece desmaiaste em pleno restaurante.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Desmaiei? Acreditas que não me lembro de nada…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Acredito mas agora descansa… Uma bateria de análises já foram pedidas e só estamos à espera do Fitas, sabes quem é, não sabes?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se sabia… Fitas era a alcunha de um maqueiro a quem ela muitas vezes pedia favores para os seus doentes. Agora era a sua vez de &quot;cair&quot; nas mãos dele.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Era quase madrugada quando finalmente João veio em busca de Eduardo comunicar-lhe os resultados dos exames entretanto feitos por Sara.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- É melhor sentar-se que as notícias não são boas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eduardo sabia pelas histórias que Sara contava, que aquela frase não podia significar boa coisa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- A Sara teve um surto de esclerose múltipla. Diagnosticámos uma esclerose múltipla secundária progressiva. Tivemos confirmação do diagnóstico através da Ressonância Magnética, Punção Lombar e pelos potenciais evocados. Não existe qualquer dúvida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O mundo de Eduardo desmoronou. Já ouvira falar da doença, até na boca da própria namorada… e apercebera-se que era uma enfermidade degenerativa muito dada a surtos cada vez mais frequentes e obviamente mais limitativos… Apeteceu-lhe chorar. Mas se gostava de Sara - e como gostava! - não podia dar parte fraco. Respirou fundo, olhou o colega da mulher e perguntou:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Posso vê-la?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Agora não… Desculpe, mas a Sara está a descansar. Mas amanhã pela manhã já pode vê-la e até levá-la para casa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Já amanhã?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Sim… Isto foi só um surto…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eduardo estendeu a mão ao médico e abandonou as urgências em passo rápido. João por seu lado tremia só de pensar no futuro daquele casal. Mentira no que respeitava a Sara, que acordada na maca aguardava impacientemente pelo colega João.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando o viu já próximo de si respirou fundo. Sem mais demoras, atirou:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- E…?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- E o quê?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- João por favor…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O médico deu-lhe então a notícia da forma mais suave que sabia. A cara de incredulidade da médica foi algo que o marcou durante muito tempo. Porém naquele instante não existia nada, que ele ou alguém pudessem fazer.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na manhã seguinte Eduardo levou Sara para sua casa. Fizeram a meia dúzia de quilómetros em profundo silêncio como se ainda não tivessem consciencializado do que estava a acontecer. Sara continuava com a sensação de falta de força no corpo e só queria dormir para que o pesadelo acabasse. Não poderia ter esclerose múltipla, era impossível. Lidou com tanta gente doente na sua carreira que nem nela própria reconhecia os sintomas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Sentado na borda da cama onde Sara passara a maior parte dos últimos dez anos, Eduardo chorava com uma criança. Pairava no quarto um cheiro a medicamentos que ele já não suportava. Cadeira de rodas, canadianas e outros apetrechos espalhavam-se pelo resto da casa. Entretanto tinha a perfeita consciência que Sara jamais regressaria aquela casa… E isso era o que mais lhe doía.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eduardo fazia tudo o que podia por Sara. Primeiro, e logo a seguir ao primeiro surto arranjou de tratar dos papéis para se casarem. E numa tarde de sábado Sara e Eduardo casaram-se numa cerimónia civil, breve e pouco concorrida. Depois levou-a numa viagem até Barcelona, cidade que Sara sempre falara que gostaria de conhecer. Quando regressaram da lua-de-mel, Sara parecia ter renascido e a doença parecia ter sido debelada. Todavia os surtos que haviam atacado anteriormente Sara começaram a surgir com mais frequência, dois meses após o casamento. Primeiro o cansaço permanente, depois a dificuldade cada vez mais evidente em se deslocar. Perdera ao longo do tempo a capacidade de cuidar dela própria. Cada pequeno esforço era como se toda a sua energia fosse consumida. Pentear o cabelo, lavar os dentes e comer era algo que demorava uma eternidade. Não lhe apetecia depender de Eduardo mas acabara por acontecer. Este ajudava-a nos pequenos gestos que ela não conseguia e por vezes realizava-os por ela quando não existia mais energia. Sara despediu-se do Hospital por já não conseguir estar nas suas plenas capacidades. A primeira decisão complicada que Sara teve de tomar e completamente consciente foi que Eduardo, não poderia nem conseguiria cuidar dela sozinho durante o decorrer da evolução da doença. Falou com Eduardo que apesar de revoltado e não compreender a decisão da mulher, aceitou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Marcaram uma visita com uma assistente social responsável do serviço de apoio domiciliário da zona de residência. Era demasiado estranha aquela situação para Sara. Normalmente era ela que encaminhava os doentes para os serviços, mas desta vez era ela que ia usufruir do tempo e do cuidado de outros sem ser o marido.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O contracto feito com a assistente social é que iria usufruir da ajuda das ajudantes familiares e da Fisioterapia quando achasse que chegara o momento em que Eduardo necessitasse de ajuda. Tentou conter as lágrimas mas não conseguiu. Não ter controlo sobre o seu próprio corpo era algo que nunca imaginaria, e ter alguém a ver o seu intimo sem ser o seu companheiro de uma vida era extremamente desconfortável. Mas iria demorar muito tempo pensou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na noite de consoada desse mesmo ano, Sara sentiu de repente que o chão fugia debaixo dos pés, sentindo a força a fugir-lhe do corpo e a visão a ficar com uma névoa de novo. Num instante estava estendida no chão. As pernas tremiam em espasmos violentos e Eduardo num salto assentou as suas mãos nas pernas da esposa e conseguiu pará-los. Aprendera o truque com a Fisioterapeuta. Depois ergueu-a e levou-a para o hospital.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No caminho ligou ao Prof. Vital, médico especializado em esclerose múltipla e comunicou-lhe o caso:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Professor, desculpe incomodá-lo a esta hora, mas a Sara teve outro surto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Meu Deus, já? A doença está a evoluir muito depressa… Leve-a para o hospital que eu vou já lá ter.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Não vale a pena maçar-se… Eu só necessito que ela tome os corticosteróides… que eu não tenho em casa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Mas eu preciso vê-la. Até já!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A voz do Professor denotava enorme preocupação. A noite estava fria, o trânsito reduzido, a velocidade exagerada. Chegou sem mácula às urgências onde relatou o caso da esposa. Apareceu o Fitas que reconhecendo a médica amiga dizendo:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Doutor, deixa-a comigo… Eu sei para onde ela deve ir…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Mas o Professor Vital vem cá ter, agora…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Eu sei… eu sei… - e empurrando a maca fê-la desaparecer por detrás das portas automáticas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;A ambulância partiu devagar levando consigo dez anos de tormentos e angústias. Eduardo já não conseguia lidar com a doença e acima de tudo sentia-se impotente para melhorar a qualidade de vida de Sara. A cara linda que a mulher sempre tivera até surgir a doença era agora rasgada por rugas de sofrimento. O olhar tantas vezes expressivo tornara-se vago, distante. As mãos tremiam-lhe de tal maneira que nem conseguia comer pela sua própria mão. Era Eduardo que pacientemente lhe colocava a comida na boca, devagar mas sempre com um sorriso externo nos lábios…&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eduardo adormeceu na sala de espera das urgências. Quando acordou doía-lhe o pescoço e sentiu os pés gelados. Levantou-se devagar. Bateu com os pés no chão para activar a circulação e tentou saber da mulher. De súbito reparou que ela vinha a sair pelo seu pé, devagar amparada ao Professor Vital. O marido correu para Sara e beijando-a só soube dizer:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Feliz Natal, meu amor!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sara olhou envergonhada para o médico e foi dizendo lentamente:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Este homem envergonha-me em qualquer lado… Já viram isto?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E conseguiu sorrir. Deu o outro braço ao marido, encostou-a cabeça e foi dizendo:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Temos um longo caminho para partilhar…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eduardo não percebeu! Assumiu que ela se estaria a referir ao casamento e com um sorriso rasgado, confirmou:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Claro! Foi para isso que casámos!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Já no carro ajudaram ambos Sara a sentar-se no lugar do pendura. Quando fechou a porta o Professor chamou Eduardo e perguntou-lhe:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Está preparado? Está preparado para o pior que vem aí? A Sara tem de tomar injecções  semanais de Interferões. É o Eduardo que as vai dar? Vai pedir ajuda? Eduardo tem de recorrer à ajuda. Chegou o momento.     &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O gestor entendeu o alcance da conversa e sem mais delongas respondeu afirmativamente que cuidaria do assunto. Todavia acrescentou:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Creio que ninguém, nem mesmo o senhor, está preparado para esta doença…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O silêncio instalou-se entre os dois homens. E com um abraço que selou aquela amizade disse:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Obrigado Professor Vital por tudo o que tem feito por nós.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Durante vários meses Sara foi tendo altos e baixos… Mas foi sempre perdendo capacidades. Tinha chegado a altura de pedirem ajuda ao apoio domiciliário. No contracto que tinham pedido, acrescentaram a visita semanal da enfermeira para aplicação das injecções. Como Sara passava mais tempo sentada pediu para verificar se não apareciam ulceras de pressão. A fisioterapeuta aparecia em sua casa 3 vezes por semana, para tentar reduzir as alterações articulares, e sobretudo a espasticidade que se estava a instalar. As dores eram algo que era difícil começar a suportar. A presença das ajudantes familiares era o que mais lhe custava todos os dias, era o pior momento do dia. Apesar de tentarem ter cuidado e demonstrarem carinho, para ela a invasão do seu próprio espaço e corpo era horrível. Não aceitava bem que a higiene fosse feita por uma pessoa estranha e que o seu corpo desnudado fosse mostrado enquanto tentava realizar conversa de circunstância. Odiava aquela situação mas Eduardo não podia estar com ela a todas as horas do dia.    &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eduardo foi gerindo a sua vida em função da doença da mulher. Optou por mudar de funções dentro da empresa de forma a ter mais disponibilidade e passou a viver mais para a esposa. Mimava-a sempre que podia e Sara gostava daquela forma muito simples mas muito genuína de Eduardo a amar. Até que um dia Sara deixou de conhecer o marido. Foi por pouco tempo mas aconteceu.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Nem sabia por onde começar a arrumar as coisas. A certeza do não regresso a casa por parte da mulher fazia-o sentir-se ainda mais triste. Lembrou-se então duma tarde…&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O sol primaveril batia na varanda. Sara estava sentada na cadeira de rodas e tentava com dificuldade virar uma folha de um livro que andava a ler. A mão não parava de tremer e já não tinha preensão fina para realizar tal gesto. Reparou que Eduardo a olhava com ternura e vontade imensa de a ajudar e já com dificuldade chamou-o:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Eduardo.. - a voz era arrastada e quase cavernosa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Diz meu amor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Prometes-me uma coisa?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Não sei se posso… Mas prometo, seja o que for prometo…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Quando eu não conseguir andar leva-me daqui… - respirou fundo, como se adivinhasse o futuro - e põe-me num local onde alguém trate de mim.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Mas eu trato… sempre.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Eu acredito… Mas prometes?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As lágrimas rolaram cara abaixo. Eduardo enxugou-as com as costas da mão e disse:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Claro, tu sabes que faço tudo por ti.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Sara chorava quando saiu de casa deitada na maca, pela última vez. Eduardo segurava a cabeça com se tentasse evitar que esta estoirasse. E nem a acompanhou à rua. Tudo fora previamente combinado entre ambos. &lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eduardo dirigiu-se a uma unidade especializada de cuidados de longa duração. Tinha sido recomendada pelo médico que os ajudara neste processo, e a mulher tinha deixado expresso que queria que fosse aquela a unidade onde fossem prestados os seus últimos cuidados. Fora a decisão mais difícil de todas e sabia perfeitamente o que aquilo significava. Sara passava o seu tempo entre a cadeira de rodas com apoio de cabeça e a cama articulada que tinham pedido emprestada às ajudas técnicas. A espasticidade estava completamente instalada, as articulações mantinham-se na mesma posição de suposto conforto durante os anos, os tremores da cabeça e mãos eram constantes e Sara já não tinha controlo do seu sistema urinário e intestinal. Começara a utilizar fralda e uma algalia, quase cinco anos depois de pedir ajuda do apoio domiciliário. O seu corpo foi entrando em degradação e sabia que não existia mais nada a fazer. Eduardo visitava-a todos os dias e tinha o privilégio de por vezes fazer-lhe companhia de noite. Já não reconhecia a mulher mas o amor por ela era exactamente igual ao primeiro dia em que se conheceram. Mantinha-se forte ao lado da mulher mas quando saia do lado dela e voltava para casa sozinho, chorava até perder as forças e adormecer. Não queria perder Sara mas não o desespero também dele era incontrolável.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Sara faleceu dois meses depois, serenamente como uma vela a quem se acaba o pavio. &lt;/em&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Wed, 13 Feb 2013 12:01:09 GMT</pubDate>
  <title>Uma noiva… teimosa</title>
  <author>José da Xã</author>
  <link>http://josedaxa.blogs.sapo.pt/38753.html</link>
  <description>&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando Idalina nasceu, a alegria naquela família foi transbordante. Durante anos e anos a Natália e o Honório tentaram que um rebento lhes alegrasse os dias. E assim, quando a primeira e única filha nasceu, tudo fizeram para que a menina fosse feliz.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Desta forma Idalina, filha, neta e sobrinha única, acabou criada num mundo onde a sua vontade era lei. Uma das consequências da sua educação foi naturalmente uma teimosia crescente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando entrou na escola, depressa perdeu as amigas. Ninguém conseguia fazê-la compreender que estava errada. Se acreditava que algo era de determinada maneira, não abdicava da sua posição, tornando-se numa criança triste e muito só.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O pai Honório depressa percebeu qual a filosofia da filha e ainda tentou recolocá-la num trilho onde a sensatez fosse a ordem de razão. Todavia viu-se impotente perante o aparato com que a restante família mimava a menina. E desistiu!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não obstante a teimosia e birras permanentes, a cachopa acabou por se tornar numa mui formosa mulher. Os seus longos cabelos castanhos, a sua figura esbelta e uma cara de anjo faziam de Idalina o centro das atenções no baile da aldeia. Só que… depressa os pares masculinos desapareciam do salão ou raramente repetiam uma dança com a jovem, tal era a fibra da rapariga.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Porém certa vez, pelas festas de Nossa Senhora da Paz, Idalina conheceu um jovem esbelto. E depressa se enamoraram um do outro. Na noite em que Artur foi a casa de Honório pedir a mão de Idalina, o pai desviou-se com o rapaz para um lugar recatado e foi avisando:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- O senhor está autorizado a namorar a minha filha até se casarem, mas aviso-o já que ela é muito, mas muito teimosa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O jovem noivo riu-se e respondeu:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Eu sei, eu sei… Mas creia-me meu caro amigo, que ela para mim será diferente…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Não acredito! Espero estar cá para ver isso…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Veremos, então…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A boda realizou-se alguns meses mais tarde e decorreu de forma impecável. Como Idalina queria e desejava. Só que… a noite chegaria e a primeira vez com o marido poderia ser um problema. Mas ela preferiu nem pensar nisso durante a festa. A mãe esclarecera-lhe alguns pormenores mas Idalina percebeu que jamais estaria suficiente preparada para receber o marido em seus braços.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Artur parecia ser um óptimo rapaz. Trabalhava como escrivão num notário ao mesmo tempo que estudava leis. A sua maneira de ser, sempre brincalhão granjeou logo de inicio a simpatia da família da futura esposa. Faltava a convivência na intimidade com a mulher, senhora de uma só razão.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando entraram na sua casa nova principescamente mobilada, Idalina logo correu para o quarto para se arranjar. Adorava escovar o seu longo cabelo castanho antes de dormir, passar as mãos e a face por uns cremes que uma das avós lhe oferecera à base de ervas campestres. Um ritual que iniciara havia muitos anos e que desejava manter mesmo depois de casada. Já estava deitada quando o noivo entrou no quarto quase em silêncio. Foi-se despindo devagar e envergonhado. Numa cadeira ao lado da mesa-de-cabeceira foi colocando a roupa que ia tirando. De repente Idalina viu uma pistola que Artur colocou na almofada da cadeira. Assustada com tamanho aparato a noiva nada disse.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Idalina antes de se deitar apagara as vela, deixando apenas a candeia do lado do marido acesa. O quarto encontra-se assim numa quase escuridão, não fosse a ajuda do Luar que penetrava por uma janela mal fechada. Artur acabou por se deitar mas antes ordenou:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Apaga-te candeia…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A chama continuava mortiça e inquieta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Apaga-te candeia… - repetiu o noivo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ora como esta não se apagou Artur pegou na pistola e para grande susto da noiva deu um tiro na chama da lamparina, apagando-a. Idalina teve pela primeira vez medo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No dia seguinte os noivos levantaram-se bem-dispostos e a nova esposa preparou com sabedoria um pequeno-almoço para ambos, onde não faltou nenhuma iguaria. Risos e conversa simples, comentários acerca da boda do dia anterior foram os temas à mesa. Finalmente disse Artur:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Vamos almoçar a casa dos teus pais?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Idalina achou bem e agradeceu:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Fico muito feliz por quereres ir a casa dos meus pais. Eles vão ficar radiantes!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Prepararam tudo e como a distância ainda fosse longa levaram uma burra onde Idalina se sentou em cima da albarda. O marido caminhava serenamente a seu lado e ia conversando alegremente. O dia estava turvo, cinzento, ameaçando chuva. Um vento cortante entrava nos corpos e arrepiava-os. A casa do velho Honório e da Natália ficava sobranceira à Ribeira da Peneda, e da janela da sala podia-se ver o caminho que surgia do outro lado do monte e atravessava o riacho. Havia outro trilho mas haveria para isso de percorrer mais de dois quilómetros. Chegados à Ribeira, Artur ordenou à mulher:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Desce daí que temos de passar a ribeira e podes cair. Descalçamo-nos e passamos a pé. Vou tirar o cabresto à burra e tu leva-lo enquanto eu a levo pela arreata.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Foi algo inédito que os sogros de Artur conseguiram ver da janela: a filha teimosa e altiva, vergada a um cabresto, uma burra folgada e um genro sorridente a atravessarem a vau a ribeira quase repleta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Já em casa enquanto Idalina secava o vestido junto à lareira crepitante, a mãe Natália aproximou-se da filha e perguntou:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Então minha filha… estás feliz com o teu casamento?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Sim minha mãe… Muito feliz.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- E o teu marido trata-te bem?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Sim do melhor…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Então explica-me porque carregavas tu o cabresto da burra? Se fosse antigamente teimavas e não trazias.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A noiva baixou os olhos para o chão envergonhada e foi desabafando:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- O Artur, a noite passada mandou a candeia apagar-se sozinha. E como ela não se apagou deu-lhe um tiro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Um tiro?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Sim de pistola. Imaginas o que me acontece se não faço o que ele diz?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Honório ouvira a conversa entre mãe e filha e logo percebeu que Artur, tal como dissera, cumprira o que prometera: a Idalina finalmente perdera a teimosia.&lt;/p&gt;</description>
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  <category>teimosia</category>
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  <category>casamento</category>
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  <pubDate>Sun, 20 Jan 2013 09:18:10 GMT</pubDate>
  <title>Um ano depois</title>
  <author>José da Xã</author>
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  <description>&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Faz hoje um ano que iniciei este blogue.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cento e trinta e oito posts depois e mais de uma centena de comentários é todo o pecúlio que aqui fui juntando.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mantive-me claramente mais fiel a um outro blogue, de temas mais generalistas e que vou alimentando devagar. Quanto a este, fiz o possível por ser competente e audaz. Provavelmente sem sucesso!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tenho porém a certeza, que as mais de 2000 visitas que consigo contabilizar se devem essencialmente à fase em que partilhei com a Fátima (ou Verniz Negro, como sempre aqui assinou) grande parte das “estórias” que aqui alternadamente fomos “desembrulhando”, numa aventura muito engraçada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Foi uma experiência fantástica que me obrigou a disciplinar e a puxar pelo melhor e pior que tenho dentro de mim. Sem rodeios!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O futuro? Bem… nestas coisas de previsões, reside sempre a ideia de que se espera mais do que aquilo que foi feito. Todavia não sei se terei arte e engenho para tanto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Desejo obviamente, neste meu primeiro post de aniversário, agradecer a todos quantos se maçaram a vir aqui ler, aos comentadores e acima de tudo exibir publicamente a minha mais profunda gratidão à Fátima, por todo o empenho, pela ternura, pelo carinho e pela sua tão natural capacidade para a escrita e que aqui colocou duma forma tão competente e profissional.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um grande bem-haja para a minha amiga Fátima!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vemo-nos (e lemo-nos!) por aí…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</description>
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  <category>aniversário</category>
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  <category>blogs</category>
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  <pubDate>Sat, 19 Jan 2013 14:15:44 GMT</pubDate>
  <title>Lembranças</title>
  <author>José da Xã</author>
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  <description>&lt;p&gt;Um destes dias lembrei-me...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Lembrei-me de ti. De como me chamavas,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De como me apertavas a mão. Lembrei-me&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;dos beijos que me deste e&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;das promessas que me aqueceram a alma.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ainda me lembro do teu sorriso franco&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E desse olhar sempre sincero&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Lembro-me das noites quentes que&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Inundámos de amor.A Lua espreitou-nos...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E os segredos que sempre guardámos&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Entre certezas e dúvidas&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Onde é que os recordo?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As lágrimas que ambos chorámos,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;correm pela nossas mãos lavradas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De sofrimento. dor, esperança e amor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;text-decoration: underline;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Mon, 17 Dec 2012 23:37:23 GMT</pubDate>
  <title>Poema simples III</title>
  <author>José da Xã</author>
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  <description>&lt;p&gt;És um poeta! Anunciou vaidoso&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Porém numa chispa de lucidez&lt;br /&gt;Devolvi em natural pensamento&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se seria a modéstia, talvez&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que via na graça um tormento.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ninguém diz ao ferreiro que o é,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ele sabe por detrás da bigorna.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ninguém clama pelo cavador José,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que fende a preceito a terra madorna.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Poeta não é rasgar as palavras...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É senti-las. Tactear o veludo da vida&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Da epiderme das almas ilécebras,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E amar sem destino a dor perdida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Poeta é chamar a nós a ternura,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sonhar e crer que tudo é real.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Desfazer-se em torrentes de amargura,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sofrer como se tudo fosse igual.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;És um poeta, repetiu garboso.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu então sorri...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E respondi:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;És um mentiroso&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</description>
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  <category>poesia</category>
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  <pubDate>Sun, 16 Dec 2012 23:32:07 GMT</pubDate>
  <title>Poema simples II</title>
  <author>José da Xã</author>
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  <description>&lt;p&gt;No silêncio secreto da noite&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;o amor tem mais calor, renasce.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nos passos denunciados dos amantes&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;o medo tem mais força, treme,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No desabrochar das flores&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;o aroma tem mais encanto, perde-se.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Finalmente quando se acorda,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;o sonho prende-nos a esperança, vivemos.&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Sun, 16 Dec 2012 23:29:50 GMT</pubDate>
  <title>Poema simples</title>
  <author>José da Xã</author>
  <link>http://josedaxa.blogs.sapo.pt/37562.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Quando te procuro,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;perco-te.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando te desejo,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;envolvo-te.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando te amo,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;descubro-me.&lt;/p&gt;</description>
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  <category>poesia</category>
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  <pubDate>Sat, 15 Dec 2012 21:48:12 GMT</pubDate>
  <title>Quase soneto</title>
  <author>José da Xã</author>
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  <description>&lt;p&gt;Quantas palavras escrevi sem sentido?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que sonhos tive eu que se perderam?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As lágrimas salgadas de um vendido&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;São chamas lúgubres que se apagaram&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Apetece-me roubar esta face ao mundo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para que possa alimentá-la sozinho&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Queria sim sentir toda a alma a fundo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A raiva, o desespero de um fim maninho&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Hoje os meus passos são já diferentes&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Daqueles que caminhei em tempos&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;São doentios, cobardes e abafados.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dia após dia os meus gestos quentes,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tornam-se tristes. Agora nos campos&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nascem árvores, flores ou cardos.&lt;/p&gt;</description>
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  <category>poesia</category>
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  <pubDate>Wed, 10 Oct 2012 22:55:50 GMT</pubDate>
  <title>Não sei…</title>
  <author>José da Xã</author>
  <link>http://josedaxa.blogs.sapo.pt/37038.html</link>
  <description>&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Há uma dor no meu peito&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que não sei falar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Há uma chaga no meu coração&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que não sei estancar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Há uma lágrima no meu rosto&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que não sei parar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Há um sorriso nos meus lábios&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que não sei explicar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Há tudo isto e mais, muito mais…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que não sei inventar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Há um mundo que gira&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que não sei entender.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Há um sonho perdido&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que não sei reverter.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Há um grito de revolta&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que não sei responder.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Há um abutre voando&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que não sei abater.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Há tudo isto e mais, muito mais…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que não sei conter.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E tudo só por te amar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Será possível? Não sei…&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Thu, 27 Sep 2012 17:26:16 GMT</pubDate>
  <title>Eu e o Sporting</title>
  <author>José da Xã</author>
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  <description>&lt;p&gt;Era muito miúdo, quando fui à bola pela primeira vez. Honestamente não me lembro desse dia… Sei pelos próprios, que foi o meu pai e um tio que pegaram em mim e me “apresentaram” ao Sporting. E recordam que me portei ao nível de um leão, se bem que de juba pequena…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por aquilo que afirmam foi um Sporting-Setúbal. Mas nem sei (nem se lembram!) o resultado final do jogo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Depois desse, assisti a muitos outros jogos: em Alvalade a maioria, no Barreiro, em Setúbal (parece quase fetiche!), Jamor, Restelo e Tapadinha. Mais recentemente em Alverca e na Amadora.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Recordo mesmo um tempo em que começava o fim de semana a ver os juvenis ao sábado de manhã, os juniores à tarde e a equipa principal à noite. Chegava a casa de barriga cheia!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não obstante estas presenças em campos de futebol sofro com o Sporting seja em que modalidade for. Atletismo (talvez mais, assumo!), andebol, futsal, xadrez ou bilhar… tudo é o nosso clube. E ai como me dói quando perdemos!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ser do Sporting não é ser do melhor clube do mundo, é acima de tudo uma filosofia que perdura para o resto da nossa vida. E saber sofrer é também uma virtude. Porque na hora de ganhar é a glória perfeita.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Já passei, obviamente, o testemunho aos meus filhos, que tal como eu sofrem a bom sofrer com o Sporting.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Será isto a tal mística de que tanta gente fala?&lt;/p&gt;</description>
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  <category>sporting</category>
  <category>memórias</category>
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  <pubDate>Wed, 26 Sep 2012 11:36:49 GMT</pubDate>
  <title>Ainda o Outono...</title>
  <author>José da Xã</author>
  <link>http://josedaxa.blogs.sapo.pt/36560.html</link>
  <description>&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;(Como prometi  José. Aqui fica com carinho e amizade.)&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nas nuvens, que a chuva prenunciam&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;e nos acessos de vento desmedidos&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;vê-se o alterar do tempo,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;como em nós ele passa lento&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;e vai deixando sulcos na pele&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;regados por lágrimas, que como cinzel&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;nos modelam a face...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nos lembram dos dias, que já passados&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;faltam menos para contar...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E isso, que importa?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando cá dentro, a idade, não conta&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;mas uma criança a pular,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;de poça em poça, em pingos tão grossos,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;sem ter medo de se molhar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nua, simples, ou atribulada&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;a vida que gostas, não dá trégua, ou escolha&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;terás que atrever-te, a viver&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;entre ventos que sopram, gotas que caem&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;raios de sol que te afrontam,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;mas que te beijam também... Uma certeza terás.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vais vencer. Porque tem de ser. Cada dia, que sem temer, à vida te dás. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;(Muito obrigado pela companhia e pelo ser humano bom que és)&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Fátima soares/Verniz Negro&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Tue, 25 Sep 2012 23:02:05 GMT</pubDate>
  <title>Lágrimas de outono</title>
  <author>José da Xã</author>
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  <description>&lt;p&gt;&lt;em&gt;(mui simbólica homenagem a Verniz Negro, pela paciência e sapiência)&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Gosto destes dias de chuva que aplacam a ferocidade&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De um sol demasiado tardio inundando um imenso verão.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Gosto de sentir a água fria como de fonte se tratasse&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Jorrando do céu plúmbeo a vida em límpidas gotas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Gosto do silvo sibilante do vento debaixo da fresta&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Traz-me novas do outono feito de castanhas e vinho.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Gosto sim de me molhar e perceber no ar revolto&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O perfume da terra molhada a pedir fria enxada&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Gosto de ti simples, nua, como tu vida sabes ser.&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Sun, 23 Sep 2012 21:44:56 GMT</pubDate>
  <title>Outono na minha vida</title>
  <author>José da Xã</author>
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  <description>&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(&lt;em&gt;para a Maria de Fátima, com amizade&lt;/em&gt;)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sinto o outono da vida nos ossos&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como um cão que ferra o dente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sinto o Outono da vida nos dias,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como o vento que agita a copa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sinto o Outono da vida nos passos,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como roda rangendo nos caminhos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sinto o outono da vida nas mãos,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como uma deformada artrose.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sinto o Outono da vida nas noites,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como mantos negros de tristeza.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sinto o outono da vida na voz&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como falcão percebendo a presa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sinto o Outono da vida nos sonhos,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas há muito que deixei de sonhar!&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Wed, 19 Sep 2012 12:59:51 GMT</pubDate>
  <title>Sentidos dos dias - Paz XIX</title>
  <author>José da Xã</author>
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  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Passara um mês desde que Helena reunira os filhos e lhes contara tudo. Desde que o mais novo se insurgira contra o pai, dizendo que ele tinha deveres para com a mãe! Para com todos eles. Não era assim sem mais nem menos que... &quot;&lt;em&gt;Aquilo era uma acção descabida. Uma traição!&quot; &lt;/em&gt;Helena sorrira, a morrer por dentro. Exigira respeito, ao filho, para com o pai. Fez-lhe ver que no fundo, maior traição tinha sido ele ter-se obrigado a viver uma vida inteira que não queria, só por causa de todos eles. Fora um homem que desde o início podê-la-ia ter abandonado. Quando vira que não conseguia esquecer-se da outra e nunca o fizera. Assumira sempre o casamento, os filhos, pondo o seu próprio bem-estar para último. Honrando a família. Mas o certo é que existia outra família, que o &quot;chamava&quot; sem dizer palavra. Sem se fazer notar. Explicou como e o que achara de Zuleica, quando a conheceu. Era notório o amor que ambos ainda sentiam um pelo outro. Ela apenas fora vê-lo, porque o sabia mal e antes que ele morresse... Sem nada exigir. Calada, chorosa, curvada na seu orgulho de mulher. E Helena soube o que lhe doía. Custou-lhe a admiti-lo, todavia acabou por admirá-la!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O que importava, afinal? Que Pedro Rafael voltasse para Portugal, agora que tudo tinha sido posto à luz do dia. Continuasse a viver infeliz e uma mentira junto deles? Ou prefeririam como ela, abdicar do seu amor, mas que ele pudesse fazer também justiça. Àquela mulher! Aos filhos, que cresceram sempre sem o amor e amparo do pai? Caramba! De certeza que a nenhum dos seus descendentes, estava a ser exigido o sacrifício. O suportar da dor que ela, mãe deles e mulher de Pedro estava a viver. E ainda assim escolhera... Faria o que fosse preciso para que Pedro fosse feliz. Pelo respeito que sempre lhe dera. Anos seguidos de se ter anulado para criar os filhos. Ficar junto dela, porque assim tinha prometido nos votos do casamento... Mas, hoje? Convenhamos! Os filhos estavam criados. Cada um seguia a sua vida. Ela e ele, ficariam como todos os pais ficam quando os filhos vão à procura do seu mundo. De o conquistar. Engolindo o orgulho e as lágrimas, a voz a embargar-se Helena finalizou.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Foi muito melhor assim. Ele fará sempre parte das nossas vidas. Vocês podem visitá-lo, conhecer os vossos irmãos. Eu? fico bem! Em paz com a minha consciência. Feliz por ele, que merece sem dúvida ser feliz, os últimos anos da sua vida!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Maria da Graça abraçara-se à mãe. O filho mais velho encolhera os ombros, resignado. O mais novo estava ainda revoltado.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Mãezinha! Sempre foste uma grande mulher. Não sei se o que aconteceu contigo e o pai, a passar-se comigo,teria essa coragem. Essa tua maneira de ser. Pode parecer desprendimento, frieza. Mas sabemos tão bem que é apenas imensa dignidade. E por amares o pai. Adoro-te mãe! &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- A mãe é uma grande parva, isso sim! Qual é a mulher que entrega o homem à outra de &quot;bandeja!&quot; Tenha lá ele os filhos que tiver. Nós não temos nada a ver com isso. A mãe conheceu-o depois. Eu continuo a achar que...&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Não continuas a achar nada. Um dia quando tiveres os teus filhos vais querer o melhor para eles. Vocês sempre tiveram o melhor. Os outros lá longe, nunca tiveram nada. Gosto muito de ti meu filho, mas pelo amor que me possas ter, respeita a minha decisão. O teu pai!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Ali em frente do mar, onde muitas vezes passeara de mãos dadas com Pedro, Helena era verdadeira consigo mesma. Quando viera embora desejara com todas as forças que Pedro a seguisse. Nas primeiras semanas ainda teve esperança. Mas, deixara as cartas. Nelas ilibava-os de culpas. Explicava o que queria e compreendia que a felicidade também lhes assistia, aos dois, agora. Aquela felicidade que mesmo em sobressalto tivera sempre. O certo é que Pedro telefonara. Estava recomposto, calmo. Perguntara-lhe se tinha a certeza. Mordeu os lábios e disfarçou o desgosto ao telefone. Mais algumas palavras, em que bastantes delas foram de elogio. Como a amaria, para sempre. Nunca esqueceria que aquele amor que ela lhe votava era tão enorme, que lhe permitia ter aquele altruísmo... E ponto final. Era assim que tinha de encarar a sua vida com ele. No fundo sentia-se em paz. Mais ou menos bem. A dor passaria. Afinal se ele tivesse morrido seria muito pior. Zuleica merecia ser feliz. Os filhos terem a oportunidade de conhecerem o homem bom, que o pai era, apenas vítima das circunstâncias... Pudessem todos os que lá deixaram filhos e sofrimento, colmatá-lo. As ondas banhavam-lhe os pés. Os olhos procuravam o horizonte. Para lá daquela linha longíqua, estava Pedro! O amor da sua vida. Sorriu tristemente. Sussurrou baixinho: &quot;&lt;em&gt;Sê feliz, meu amor. Sempre e em cada dia da tua vida!&quot; &lt;/em&gt;Inverteu caminho, limpou bem os pés com a mão e calçou-se. Andou mais um pouco e viu a camioneta que a levaria a casa. Fez sinal e entrou. Subiu as escadas e meteu a chave na porta. Foi brindada por um coro de gargalhadas. As traquinices do costume.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Mãe! Importas-te de ficar com eles esta semana. Eu a e Lígia queríamos, descansar um bocado. Tipo uma segunda Lua de Mel? Quem sabe não dê uma salto a Angola... - O filho mais velho riu-se com ar cúmplice. - Foi a Graça, que teve a ideia digo-te já!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Oh, meu filho, claro que fico. Os meus netos são a minha maior riqueza, para além dos meus rebentos. E o casmurro do teu irmão? &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Acreditas que a tua filha o convenceu também a ir. Aquele &quot;miúda&quot; é de fibra. Faz-nos andar todos na linha.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Fico tão feliz. Finalmente tudo parecer estar a compor-se. Ele ter começado a perdoar o pai... É muito bom! Quanto à Maria da Graça...&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Tem a quem sair.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Ah, sim! A quem?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- A ti, mãe! És uma mulher extraordinária. Os teus filhos só podem achar exemplo e inspiração em ti, mãe.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Entre abraços e lágrimas Helena sentia-se grata. Pelos filhos, netos e por Pedro ter estado na sua vida. Ter originado com ela, esta parte da sua felicidade. Sim! Ela também se sentia uma mulher feliz.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style=&quot;font-size: xx-large;&quot;&gt;Fim&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: left;&quot;&gt;Verniz Negro&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: large; text-decoration: underline;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Ao meu grande amigo José da Xã!&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Esta foi a última de algumas histórias que &quot;entrançámos&quot;, juntos, por agora... Quem sabe um dia não surjam mais. É altura de paramos um bocadinho. Viver com mais calma outros compromissos. A vida em si. Mas nunca se pára uma amizade, pois não José? Podem-se afastar as pessoas. Pode não haver todos os dias, ou semanas aquela partilha, cumplicidade, mas a presença essa está sempre connosco. Dentro do coração e no pensamento. Agradeço-te até hoje a amizade... Que espero se vá fortificando. Durando para sempre, porque vou estar sempre aqui para ti, assim precises de mim. Me queiras por perto!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Obrigado, amigo! Foram semana divertidas de muita &quot;inspiração forçada&quot;, outras vezes não. Quando por exemplo, nos saíam as ideias mal acabávamos de escrever o capítulo anterior. Para ti desejo o melhor. Todo o sucesso do mundo. Mais uma vez foi giro. Muito giro. E vamo-nos &quot;vendo&quot; por aí! Beijo enorme. Bons escritos!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Verniz Negro/Fátima Soares&lt;/p&gt;</description>
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  <category>família</category>
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  <pubDate>Sun, 16 Sep 2012 12:26:15 GMT</pubDate>
  <title>Sentido dos dias – Descoberta XXVIII</title>
  <author>José da Xã</author>
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  <description>&lt;p&gt;Assim que desligou o telemóvel Maria da Graça sentou-se na velha cadeira da livraria e tapou a boca num espanto desmedido. Calculava que a ida do pai a Angola, não era no mínimo inocente mas aquilo… Tinha de falar com os irmãos, contar-lhes da novidade. Pensou na mãe. Lá longe para onde fora a correr quando soubera do estado do marido, sozinha a lidar com uma miríade de acontecimentos. E agora já regressada... A sua voz calma a contar-lhe ao telefone, porque tinha de desabafar. A pedir-lhe para reunir os irmãos para conversarem todos. Coitada! Como conseguia ela, ser aquela mulher impressionante e sacrificada? Pegou novamente no telemóvel e ligou a João, o irmão mais novo e com ela tinha uma relação de muita proximidade. Esperou que atendesse, não obstante ainda ser cedo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Estou Gracinha, bom dia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Boa dia mano, como estás?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Acordado – e riu numa gargalhada sonora e bem disposta que a irmã gostou de ouvir.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Tenho enormes novidades para te contar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- E são boas?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Não sei, tu próprio analisarás…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Então diz-me.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Sabes aquela ideia idiota do pai ir a Angola?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Sim sei…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Não era tão idiota como isso.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Então?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- O pai quando esteve em África na guerra teve lá uma namorada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Mas isso já desconfiávamos… Hum… cheira-me que essa história tem outros contornos…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Pois tem! A mãe deu de caras com uma outra realidade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Coitada… Mas diz-me o que passa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Temos dois irmãos gémeos…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um silêncio foi tão grande que Maria da Graça, chamou:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- João! Estás aí?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Estou sim… - a voz parecia mortiça e triste.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Então o que se passa?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Levei um murro nos estomago.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Pois calculei.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Eu sempre percebi que o pai ia à procura de qualquer coisa. Jamais pensei que fosse de dois filhos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Mas o pai também não sabia…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Não? De certeza?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Não! Apenas tinha conhecimento da gravidez da senhora com quem teve uma longa história de amor. Quando regressou na altura à metrópole ela disse-lhe o estado em que estava mas o pai temeu que ela apenas estivesse a tentar prendê-lo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- E o pai viveu todos estes anos na dúvida…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Exactamente. E quando se sentiu mais doente pretendeu esclarecer todo esse passado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Mas a mãe sabia da existência dessa senhora?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Sabia!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Ui! Agora entendo algumas atitudes e conversas …&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Que conversas?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Quando miúdo ouvi diversas vezes a mãe a solicitar ao pai que mudasse de maneira de ser, que ela não aguentava viver com aquela tristeza permanente dele.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Não admira que assim se sentisse – desculpou Maria da Graça.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Então a mãe descobriu isso tudo?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Um dos médicos que está a tratar do pai é um dos rapazes…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Ena que coisa estranha… Então e agora?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Agora não sei…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- E já falaste à Ana?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Ainda não… Tu sabes que ela vive naquele seu mundo do teatro muito especial e sempre ligou pouco a todos nós.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Eu sei eu sei, mas tens de lhe contar…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Pois tenho, mas mais logo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Queres que vá ter contigo aí à loja?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ela queria . Mas custava-lhe dizer. Mas ganhou coragem e respondeu:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Sim gostava muito… Sinto-me agora que sei que tenho mais dois irmãos, mais só!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Mais só? Então e eu? Não conto?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Contas João contas… Mas falta-me algo…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- A nova descoberta não te deu grande alegria.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Pois não… Falta-me o sentido dos dias.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E desligou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;José da Xã &lt;/p&gt;</description>
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  <category>filhos</category>
  <category>vida</category>
  <category>descoberta</category>
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  <pubDate>Tue, 11 Sep 2012 23:14:52 GMT</pubDate>
  <title>Sentidos dos dias - Decisão XXVII</title>
  <author>José da Xã</author>
  <link>http://josedaxa.blogs.sapo.pt/35218.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Helena temeu entrar no quarto e encarar Pedro. Mas fê-lo. E na mesma altura o seu coração poderia ter parado para sempre, porque não lhe faria mais falta sentir. Sentir-se assim, humilhada. Momentos depois ficou grata, quase feliz do marido estar sentado na cama, sem monitorização qualquer, com um sorriso de orelha a orelha. Acompanhado do médico mais patético de África, que ela tinha de aturar constantemente.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Viu! Que lhe dizia eu D. Helena! O nosso homem reagiu às mil maravilhas ao &quot;choque&quot; que a senhora tanto temia.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Helena era extremamente educada, ou tê-lo-ia mandado à merda, acrescentando mais uns mimos...&quot;&lt;em&gt;Para &quot;choque&quot; dele, se calhar. Velhaco! Estava a gozá-la nitidamente do marido ter &quot;arrebitado&quot; com o encontro da outra!&quot; M&lt;/em&gt;as quando ela chegara, não ter mostrado qualquer evolução ou melhoria, além do sorriso. E claro, a afabilidade normal que se mostra a alguém que nos é &quot;querido&quot;. Pedro Rafael deve ter notado o seu rosto contraído, o sorriso que lhe bailava nos olhos morreu-lhe junto com o dos lábios, porque sabia que a magoava. Sabia tudo o que ela não queria. Desde, que ele não tivesse vindo, a ter de vir ela também e presenciar este &quot;ressurgir dos mortos&quot;, por alguém que mais uma vez se certificava ele mantivera bem vivo, dentro de si. O resto da tarde correu mais ou menos. Trocaram poucas palavras. Eram mais as indicações médicas, os avisos. A hora da medicação, o conter de muito mais por aquele dia, no que contava a emoção. &lt;em&gt;&quot;Pois, claro! Ele já as devia ter tido todas!&quot; Q&lt;/em&gt;ue não sobrasse muito para ela... Já estava habituada às sobras da outra, pelo visto. Era mais do mesmo!&lt;em&gt;&quot; &lt;/em&gt;Helena retraiu-se. Recordou o semblante dela consternado. A posição outrora altiva, curvada e decidiu que no fundo a outra? Era &quot;outra&quot; coitada! &quot;&lt;em&gt;Se ele lhe assobiasse corria...Como cão perdigueiro a abanar a cauda para junto do dono!&quot; &lt;/em&gt;De repente um laivo de ódio perpassou pela cabeça e pelo coração de Helena na direcção de Pedro. Mas sorriu e conteve-se. &quot;&lt;em&gt;Até porque ela já corria há tantos anos atrás daquele assobio...&quot;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;À noite e depois dum caldo frugal, já no refeitório dos monges, momento em que Pedro agradeceu a hospitalidade e terem-lhe salvo praticamente a vida, quando correram prontamente a chamar os médicos, ele e Helena recolheram-se. Ela ajudou-o a caminhar, calmamente, com o braço por cima do seu ombro. Um dos monges sempre a distância curta, não fosse ser necessário algo. Porém, mal os viu na ombreira da porta despediu-se. Helena ajudou o marido a despir-se. Ele afagou-lhe a face, beijou-lhe os lábios de raspão. &quot;&lt;em&gt;Notaria quiçá que ela quase se esquivara ao gesto?&quot; A&lt;/em&gt;inda assim respondia e sorria quando ele falava, de tudo! Menos do que ela necessitava ouvir.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&quot;&lt;em&gt;A minha viagem está acabada. Estou em paz com a minha consciência. Pus em dia o que tinha vindo fazer. Ela e eu? O tempo passou e entre nós... Há um fosso, intransponível!&quot; &lt;/em&gt;Resumindo: &quot;&lt;em&gt;Porque raios ele não falava com ela? Não explicava o que tinham dito, tinham sentido e decidido? &lt;/em&gt;Talvez amanhã! Como dissera o clínico, chegava de emoções. Mas Helena não pregou olho e o amanhã surgiu. Pedro pouco saíu do quarto. Das vezes que estavam sós, apenas se olhavam, comprometidos. Era pior que antes! Ele recearia contar? Ela não perguntaria! Não daria parte de fraca. E foi quando saiu para vir buscar toalhas lavadas, que no corredor e com a porta entreaberta, ouviu Pedro confessar a Joâo:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Não sei que fazer, meu amigo! A minha mulher não merece isto, mas o facto é que eu...Não consigo! Compreendes?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Hum... Mas não consegue o quê meu capitão? Esquecer a Zuleica e ponto final, Portugal consigo, mais a patroa. Ou dizer à sua mulher que regressa sozinha?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Se fossem pratos, copos ou tachos, Helena teria sido descoberta. Eram toalhas e quando lhe caíram das mãos, baixou-se lesta a apanhá-las, admirada com essa sua destreza, na sua idade. O certo é que um frenesim nervoso a percorrera como uma descarga eléctrica. Não entrou, virou a esquina do edifico. Ficou ali, com as lágrimas a correr a quatro, a pedir a Deus para ninguém a ver... Até que João saíu. Recompôs-se e fez o que era suposto. Como sempre! Cumpriu mais uma cena, daquele teatro. O dia viu a noite chegar e nada de palavras. De Zuleica. Somente dos filhos, da casa e quem ficara a cuidar? Da loja e pouco ou mais nada, que &quot;&lt;em&gt;estás com um ar tão cansado, devias repousar um pouco&quot;. A&lt;/em&gt;o que ela se escusou. E mais uma noite os brindou. Helena pensava se alguma vez dormiria de novo com ele. Se regressariam juntos? Voltariam a ter sequer o que sempre tinham tido, fosse verdade ou mentira? Os pensamentos e palavras de João matraqueavam-lhe os miolos, até ferverem. Por isso levantou-se. Escreveu uma carta e já possuidora da informação dada nessa tarde, que a recuperaçãoo de Pedro seria lenta mas uma realidade, tomou uma decisão. No outro dia manhã cedo, perguntou se podia telefonar. Autorizada, fez uma chamada. De seguida procurou falar com o  frade que administrava o convento. Sendo-lhe cedido um acompanhante (nada menos nada mais, que o frade Martim, que os acompanhava sempre a ela e Pedro quando ele esticava as pernas) Helena saiu do convento, a seguir ao almoço enquanto o marido dormitava.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A casa de Zuleica não era longe, afinal. Nem rica nem pobre. Asseada e acolhedora. Onde duas mulheres se poderiam entender, com uma chávena de café... Uma segunda carta ficou em cima da mesa. Zuleica prometeu-lhe lê-la só dali a uma meia hora, quando ela já fosse distante.  Feito isto e de volta ao convento, Helena sorriu ao marido. Sondou-o sobre a sua saúde. O tempo que pensava ficar e obteve quase a resposta que queria... Ainda faltaria &quot;bastante&quot; para regressarem. E assim cuidou e mimou. A noite sucedeu-se ao dia. Fim de dia esse, em que Helena beijou Pedro. Disse-lhe como o amava. Como desejava que tudo ficasse bem e ele melhorasse depressa. Sobretudo para que ambos pudessem ainda ser felizes, no resto das suas vidas. Ele adormeceu calmo. Grato. E de manhã ao acordar, encontrou somente uma carta... Da esposa!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Verniz Negro&lt;/p&gt;</description>
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  <category>altruísmo</category>
  <category>amor</category>
  <category>decisão</category>
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  <pubDate>Sun, 09 Sep 2012 06:16:02 GMT</pubDate>
  <title>Sentido dos dias – Medo XXVI</title>
  <author>José da Xã</author>
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  <description>&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Já sentado na cadeira no avião rodeado por muitos passageiros, Pedro sentiu pela primeira vez medo. Mas não era igual ao que sentira muitos anos antes no meio do mato, aguardando escondido que o inimigo se revelasse. Este era um receio bem diferente. Assim que tomou consciência do que estava prestes a fazer, um arrepio atravessou-o de cima a baixo. Um gosto amargo subiu-lhe à boca e as mãos suavam como se estivesse num deserto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Olhou àsua volta enquanto passageiros continuavam a entrar e arrumar sacos e malas nos compoartimentos por cima das cabeças. A seu lado uma jovem, já instalada, abria um livro e lia, completamente indiferente ao movimento dos passageiros que chegavam.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Da escotilha vedada Pedro podia ver a azáfama que o pessoal do aeroporto tinha para com o avião. Eram malas e mais malas que chegavam, cabos, tubos, um manancial de coisas que Rafael desconhecia completamente que fossem necessários para colocar o avião a andar. Ao longe viu o céu azul… O mesmo onde dali a uns minutos estaria a embrenhar-se.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A mulher recusara-se a ir com ele ao Aeroporto. Ficara em casa, lavada em légrimas. Fora a filha que o trouxera às Partidas da Porteta. Ajudou-o com o carro para colocar a mala e largou-o à entrada, dizendo:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Pai… Vai e volta bem, sim?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Claro minha flor. Em breve estarei  de volta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dois beijos trocados e ainda teve tempo da filha desaparecer no carro. Estava agora sózinho, entregue a si próprio, numa viagem que não sabia o que iria dar. Mas tinha de a fazer, viver ou morrer em paz…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na banco da frente dois miúdos lutavam por um lugar à janela e foi a mãe que duma forma autoritária impôs disciplina. Sossegaram finalmente e Pedro pode novamente passar os olhos pelo interior do avião e procurar algo que o serenasse.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O avião deu um esticão, finalmente deslocava-se. Ainda era no alcatrão mas dali a uns instantes seria no ar… E de súbito Pedro teve vontade de sair dali, fugir, regressar ao aconchego do lar… Porém agora seria totalmente impossível. Viu os carros na segunda circular a movimentarem-se em passo lento devido ao engarrafamento, percebeu uma quantidade de prédios ao longe, mas tudo, tudo assente num medo que quase não sabia esconder. Alguém então falou. Era o comandante que dava as boas vindas e desejava que todos fizessem boa viagem. A seguir os comissários de bordo fizeram uma pequena demonstração quanto aos coletes de salvação…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Mas para que quero aquilo? – perguntou a si próprio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A questão ficou sem resposta… Mas fez o possível por manter a tenção. A jovem companheira de viagem nem ligava, tantas seriam as vezes que ouvira aquele discurso. A avião parara agora. Pedro apenas continuava a reparar nas casas e no que o horizonte lhe podia ofertar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um esticão e o aeroplano arrancou comno se estivesse numa corrida. Ganhou velocidade de tal forma que as linhas de amaraelo pintadas no alcatrão negro passavam velozmente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Será agora?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Uma sensação estranha tomou-lhe todo o seu corpo… Olhou o chão e viu que ele se afastava cada vez mais. A cabeça encostada, as mãos apertadas uma contra a outra, uma muito breve náusea a formar-se na boca do estômago. Os dentes rangiam tal era a força que Pedro fazia. Depois fechou os olhos e tentou repousar… acima fde tudo o espírito.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A passageira ao seu lado levantou os olhos do livro e reparando na palidez de Pedro logo perguntou:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- É a primeira vez que viaja de avião?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O alafarrabista nem sabia o que dizer. Para ele até falar podia prejudicar o vôo. Finalmente percebeu a patetice em que entrara e respondeu com a maoir calma possível:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Por acaso é… Nota-se muito?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Nota! – e riu-se.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A avião continuava a subir. Rafael olhou pela janela e aquilo que minutos antes eram enormes edifícios não passavam que pequenos pontos. Depois sentiu a curva e finalmente o mar. Os azuis juntavam-se duma forma que Pedro jamais esqueceria…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A jovem fechou o livro e perguntou-lhe:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- É a primeira vez que vai a Angola?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A pergunta era inocente, mas o alfarrabista teve medo de responder a verdade. Optou por uma resposta que contentasse a outra:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- De avião sim!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Acredito que vai gostar…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A resposta dera resultado. Só que a conversa não ficou por ali. A jovem começou a falar até que finalmente desculpou-se:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Sabe Angola é um vício… Quem lá vai, fica lá… refém. Entende?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pedro nem sabia o que dizer. Todavia respondeu:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Entendo e de que maneira…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O medo desaparecera!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</description>
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  <category>angola</category>
  <category>medo</category>
  <category>viagem</category>
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  <pubDate>Wed, 05 Sep 2012 10:28:38 GMT</pubDate>
  <title>Sentidos dos dias - Desorientação XXV</title>
  <author>José da Xã</author>
  <link>http://josedaxa.blogs.sapo.pt/34750.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Helena sentiu o chão a fugir-lhe debaixo dos pés. A sua vontade de se despachar para poder ouvir algum bocado da conversa do dois, deu lugar a uma desorientação estúpida, que nunca sentira antes. Uma impotência que lhe dava medo! Se p&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;or&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; um lado &lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;t&lt;span&gt;inha&lt;/span&gt; a noç&lt;span&gt;ão&lt;/span&gt; que &lt;span&gt;dev&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;eria&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; estar ao lado do marido, não só para lutar por &quot;aquilo&quot; que era &quot;seu&quot;, mas zelar para que a emoção não o prejudicasse, por outro e&lt;span&gt;&lt;span&gt; &lt;span&gt;ago&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ra c&lt;span&gt;omo &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;escolha, a &lt;span&gt;pud&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;er&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; fazê-&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;la&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;, s&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;eria&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; desaparec&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;er&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;.&lt;/span&gt; Ou melhor! Voltar àquela tarde em que ficara pela primeira vez cara a cara com Pedro. P&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;oder&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; revert&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;er&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; toda a sua vida. Amava-o?! Muito. Ainda hoje ele e&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;,&lt;/span&gt; fora sempre o homem da sua vida. T&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ivera&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; os seus filhos e esforçara-se constantemente&lt;/span&gt; por estar à altura. Ser a esposa que ele idealizara, mas hoje? Lá atrás... Se tivesse sido mais forte, teria esquecido a empatia. O envolvimento. &lt;span&gt;Não t&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;eria&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; logo partido para uma relação precoce, com a sua mania de ser boa samaritana. De o pôr à frente de todas as suas prioridades... Até do emprego. Da sua formação académica que na altura a uma mulher custava tanto a conseguir. E hoje? Que coisa! Sentia-se parva com aquela palavra a repetir-se na sua cabeça. &quot;&lt;em&gt;Hoje... Hoje o quê&lt;/em&gt;?!&quot; A&lt;span&gt;&lt;span&gt; &lt;span&gt;sab&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;er&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; o q&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ue&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; se fizera entendível, neste momento, ponderava se talvez não fosse melhor ele ter regressado a Angola.  T&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;er&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; feito toda a sua vida ao pé de Zuleica e e&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;la&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; t&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;er&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; seguido o seu caminho.&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Sem saber, formaria com Pedro este triangulo amoroso de miseráveis insatisfeitos. Três almas diferentes, que nunca tiveram descanso. Q&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ue&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;sem se conhecerem, duas delas, partilhar&lt;span&gt;am&lt;/span&gt; &lt;span&gt;aque&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;la&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; tercei&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;, sendo&lt;/span&gt; quiçá, ela ( a esposa)&lt;span&gt;&lt;span&gt;a menos beneficiada, &lt;span&gt;embo&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; o tivesse ao lado. Caramba! Ele e&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; o seu homem. Dormiam juntos. Nos &lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;pr&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;imeiros&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; tempos Pedro e&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; fogoso. E&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;xigia&lt;/span&gt; de&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; o q&lt;span&gt;ue&lt;/span&gt; qualqu&lt;span&gt;er&lt;/span&gt; homem pede duma mulh&lt;span&gt;er&lt;/span&gt;, mas...&lt;/span&gt; Todavia e&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;nunca viu na relaç&lt;span&gt;ão&lt;/span&gt; de ambos, &lt;span&gt;qualqu&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;er&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; tipo de escândalo em lhe dar o q&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ue&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; pedia. E e&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt; muito satisfatória a sua relaç&lt;span&gt;ão&lt;/span&gt; sexual. Porém no fim ficava sempre aque&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; sensaç&lt;span&gt;ão&lt;/span&gt; de frustraç&lt;span&gt;ão&lt;/span&gt; no seu íntimo. Q&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;uando&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; ele a deixava muitas vezes imediatamente &lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;e ia fumar &lt;span&gt;pa&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;a &lt;span&gt;jane&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;la&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;, pensativo. N&lt;span&gt;ão&lt;/span&gt; havia &lt;span&gt;aque&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;la&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; conversa carinhosa, depois. Aqueles afagos e o ficar um pouco, q&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ue&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;acontecia tão esporadicamente... N&lt;/span&gt;outras entrava furioso na casa de banho e tomava banho mal acabavam. C&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;omo&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; se quisesse tirar o gosto e o cheiro de&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;la&lt;/span&gt;,&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; de si.&lt;/span&gt; S&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;eria&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;isso? Equacionou através dos anos tantos cenários &lt;span&gt;pa&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; as atitudes esquisitas&lt;/span&gt;&lt;span&gt;... Meu Deus, t&lt;span&gt;inha&lt;/span&gt; tantas! E a pensar assim enlouquec&lt;span&gt;eria&lt;/span&gt;. E&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; t&lt;span&gt;inha&lt;/span&gt; de acreditar q&lt;span&gt;ue&lt;/span&gt; Pedro também a amava q&lt;span&gt;uando&lt;/span&gt; o expressava e a quise&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt;, também. E os filhos? Mas... Q&lt;span&gt;uando&lt;/span&gt; tinh&lt;span&gt;am&lt;/span&gt; começado os problemas, o afastamento? As discussões e a raiva surda q&lt;span&gt;ue&lt;/span&gt; se apagava no corpo, mas se tornava amiúde uma &quot;tarefa&quot; a cumprir e n&lt;span&gt;ão&lt;/span&gt;...Am&lt;span&gt;or&lt;/span&gt;! Se bem q&lt;span&gt;ue&lt;/span&gt; da parte de&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;span&gt;e&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt;, mas sempre com medo de sab&lt;span&gt;er&lt;/span&gt; o porquê daquelas fúrias. Da instabilidade, das&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt; horas tardias &lt;span&gt;pa&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;chegar a casa, do álcool. O fechar-se no escritório até altas horas a &lt;span&gt;escrev&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;er&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; c&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;omo&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; um fugitivo, escondendo o q&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ue&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; fazia. O olhar perdido, o pensamento em noutro lado. Tudo se fazia claro... Hoje!&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span&gt;Ele v&lt;span&gt;ivera&lt;/span&gt; com e&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; sempre pensando nout&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;! &lt;span&gt;Quantas vezes t&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;eria&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; fechado os olhos e imaginado q&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ue&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; estava com e&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;la&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;? Se sacia&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt; quase&lt;/span&gt; de modo violento,&lt;/span&gt; lembrando-a e a rejeitava a seguir? Naquelas formas malucas de estar, q&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ue&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; a &lt;span&gt;princípio lhe parec&lt;span&gt;er&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;am&lt;/span&gt; desadequadas. As evasivas pobres q&lt;span&gt;ue&lt;/span&gt; n&lt;span&gt;ão&lt;/span&gt; lhe servi&lt;span&gt;am&lt;/span&gt;. Havia algo mais e e&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; sentia-o. Sempre sentiu. E quando ele contou doeu-lhe como mais nada doeria, mas nunca imaginou que aquela &quot;sombra distante&quot; significasse mais, muito mais que ela nunca significou para ele de facto! &lt;/span&gt;&lt;span&gt;De repente teve de sair do lado de Jo&lt;span&gt;ão&lt;/span&gt;,&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; tentar&lt;span&gt;  ir respirar noutro lado. &lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;Pô&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;r os pensamentos no lugar sozinha. M&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;as onde raios &lt;span&gt;naque&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;t&lt;span&gt;er&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;,&lt;/span&gt; se podia respirar, com o maldito clima? Onde podia ir, se não conhecia nada dos arredores? S&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ujeita&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; a cair nalgum barranco, ou s&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;er&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; vítima de um animal ou... Mas t&lt;span&gt;&lt;span&gt;inha&lt;/span&gt; de fugir dali, &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;mesmo q&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ue&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;os dois estivessem &lt;span&gt;ago&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; nos braços um do outro (o q&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ue&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; s&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;eria&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; difícil dada a monitorização a q&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ue&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; Pedro estava sujeito)... Mas c&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;omo&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; o filho dos dois ao pé. O&lt;/span&gt; outro médico de conivência até podiam... Jesus! Isto era insuportável, estava a ser vulgar e absurda&lt;span&gt;. E q&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;uando&lt;/span&gt; o melh&lt;span&gt;or&lt;/span&gt; do &quot;seu longe&quot;, passou pelo extremo do convento muito distanciado do sítio onde est&lt;span&gt;ivera&lt;/span&gt;,&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; pelo menos sentou-se num banco isolado de tudo, debaixo duma palmei&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;com uma &lt;span&gt;somb&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; providencial e desabou. Sem ninguém a v&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;er &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;chorou c&lt;span&gt;omo&lt;/span&gt; nunca cho&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;. Nada indicado &lt;span&gt;pa&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; a sua idade. Daqui a nada seriam dois com um &lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;avc&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;, pa&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; tratar. Tentou acalmar-se. Enquanto isso apalpou o telemóvel. A&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;fagou-&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;o pensando nos filhos. Especialmente em Maria da Graça. De &lt;span&gt;mulh&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;er&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; pa&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; mulh&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;er&lt;/span&gt;. N&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ão&lt;/span&gt; de mãe &lt;span&gt;pa&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; filha! Helena&lt;/span&gt; necessitava desabafar. Gritar e revoltar-se, sob pena de rebentar. No entanto, para que ia macular a imagem do pai, perante os seus descendentes? Ela era que tinha de lidar com aquilo e decidir. T&lt;span&gt;&lt;span&gt;eimosa&lt;/span&gt;, &lt;/span&gt;cheia de altivez levantou-se, mal pressentiu o vulto de Zuleica a caminhar na sua direcção. Maldita, sina! Ia ter de ouvi-la? F&lt;span&gt;&lt;span&gt;alar-lhe depois de não &lt;span&gt;sab&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;er&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; como fora o seu encontro com o homem... Que afinal, ao que parecia as duas amavam! Ou ela não teria ido lá. Nem que o filho pedisse, ou o outro clínico quisesse. Se ela não sentisse nada, que desprezo... D&lt;span&gt;istanciamento. Ou Pedro lhe fosse hoje, &lt;/span&gt;&lt;span&gt;indiferente, não se abalaria do sítio onde morava ali, p&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;or&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; uma homem q&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ue&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; a abandonara e a&lt;/span&gt;os filhos, sem nunca mais dar notícias. Mesmo que ele estivesse às portas da morte! Ou seria outra estúpida que levava o  ser cordial, solidária e humanista, à letra, &lt;span&gt;&lt;span&gt;mesmo &lt;span&gt;pa&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; quem a feri&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;?&lt;/span&gt;&lt;span&gt; Reparou q&lt;span&gt;ue&lt;/span&gt; os bonitos olhos verdes estav&lt;span&gt;am&lt;/span&gt; raiados de sang&lt;span&gt;ue&lt;/span&gt;. Também chora&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt;! E toda a contrariedade e desdém lhe passar&lt;span&gt;am&lt;/span&gt; naque&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; ho&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt;. Qu&lt;span&gt;eria&lt;/span&gt; p&lt;span&gt;oder&lt;/span&gt; s&lt;span&gt;er&lt;/span&gt; capaz de a odiar. De enfrentá-&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; e deixar claro q&lt;span&gt;ue&lt;/span&gt; t&lt;span&gt;eria&lt;/span&gt; sido a última vez q&lt;span&gt;ue&lt;/span&gt; falar&lt;span&gt;am&lt;/span&gt; e se vi&lt;span&gt;am. Tanto!&lt;/span&gt; Muito mais combatia dentro de si em relaç&lt;span&gt;ão&lt;/span&gt; à out&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt;, mas sobrepunha-se sobretudo dó! Até de si mesma. N&lt;span&gt;ão&lt;/span&gt; podia desfeitear a out&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt;! E&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; e&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt; uma vítima mai&lt;span&gt;or&lt;/span&gt; q&lt;span&gt;ue&lt;/span&gt; e&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; talvez dado o q&lt;span&gt;ue&lt;/span&gt; sabia ago&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt;. E q&lt;span&gt;uando&lt;/span&gt; e&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; lhe disse uma única palav&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt; (obrigado) e a olhou nos olhos com aquele ar resignado e sofrido e seguiu caminho, placidamente, teve vontade q&lt;span&gt;ue&lt;/span&gt; se sentasse. Ficassem ali, uma ao lado da out&lt;span&gt;ra&lt;/span&gt; em silêncio, com lágrimas, problemas e um sentimento em comum, que talvez ambas quisessem partilhar, tentar compreender, dar volta a algo que não tinha volta a dar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Verniz Negro&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Sun, 02 Sep 2012 01:05:39 GMT</pubDate>
  <title>Sentido dos dias – Leituras XXIV</title>
  <author>José da Xã</author>
  <link>http://josedaxa.blogs.sapo.pt/34402.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Meticulosamente foi arrumando as roupas na mala. Helena escolhera-as e colocara-as em cima a cama para que o marido a arrumasse. Sempre fora assim… metódico.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Helena da porta do quarto olhou o marido e achou-o envelhecido. O cabelo branco rareava já e as rugas cortavam-lhe a face qual regos de arado em terra fecunda. Depois aquela respiração sempre funda e lenta. Aquele coração não iria resistir a tantas emoções que o esperariam em Angola.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Pedro pegava na roupa e lentamente dispunha-a na mala. Depois buscava outra e repetia o gesto. Olhou para a porta e reparou que a mulher o observava com carinho mas também com alguma contida raiva. Ela sabia o que ele iria fazer a África, mas era impossível evitar a viagem…&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Do meio de alguma tralha para arrumar Pedro Rafael recolheu uma velha sebenta. As folhas amarelas, o cheiro que ele tão bem conhecia de papel velho, as recordações ali escritas havia tantos anos… Sentou-se então na borda da cama e abriu o caderno. Na primeira página uma data e um local. Depois as descrições.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Começou a ler devagar, como sempre fazia, um diário com mais de quarenta anos. Pedro nem reparou nos erros ortográficos que ele próprio escrevera. Só lia… e sentia como se tudo surgisse na sua mente uma vez mais… Os camaradas de guerra, as patrulhas furtivas, os tiroteios por vezes quase incessantes, os corpos estropiados, os gritos lancinantes dos feridos, o cheiro de carne humana queimada. Mais á frente novos ataques descritos quase ao pormenor jornalístico. E por fim…&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Durante páginas e páginas leu um conjunto de sentimentos sinceros e quiçá ingénuos. Folheando as páginas uma a uma Pedro lembrava-se como se fosse naquele instante o momento em que escrevera aqueles textos. Nas tendas os camaradas quando o viam de caneta em punho logo brincavam:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Aí está o nosso cronista…&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Ainda ganhas um Nobel com esses textos – observava em tom meio a sério meio a brincar o tenente que comandava o batalhão já muito dizimado.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Aquelas noites de luar intenso e calor profundo davam-lhe serenidade interior. Não paz… que esta era palavra proibida em tempo de guerra. E depois haviam os cheiros daquela terra, os aromas das frutas maduras que misturadas com a selva próxima originavam sensações inebriantes.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;As lágrimas começaram a cair, pela face marcada, sem que desse por isso. Havia muitos anos que evitava a leitura daquela e de outras sebentas, porque se conhecia e sabia de antemão as reacções que a sua alma e o seu coração iriam sofrer. Mas um dia teria de ser… E agora a poucas horas de embarcar para uma terra donde saíra, havia mais de quarenta anos tinha que ter a coragem de enfrentar o seu passado.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Fora no passado que a sua vida sofrera um enorme revés, fora no passado que Pedro amara sofregamente, fora no passado que quisera deixar suas lembranças. Mas estas nunca por lá ficaram. Viajaram no tempo consigo, permanentemente.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Não havia dia nenhum que o alfarrabista não se lembrasse de Zuleica. Dos momentos felizes que com ela passara, dos desejos sonhados a dois, das promessas jamais cumpridas. Era tempo de refazer o passado. Não que ele vivesse muito mais tempo para o poder gozar, mas acima de tudo poder partir em paz consigo mesmo.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;João surgiu à porta do quarto sem que Pedro notasse. O filho mais novo, contra a vontade do pai inscrevera-se anos antes na Escola Naval e hoje era já um oficial. Vendo o pai embrenhado na leitura das sebentas, pensou em não o maçar… Porém o pai partiria no dia seguinte e…  Podia ser a última vez!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Devagar sentou-se ao lado de Pedro, passou-lhe o braço por cima do ombro e despediu-se:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Pai venho despedir-me…&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Obrigado João… Também não vão ser muitos dia… Espero regressar muito em breve.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Eu sei pai, eu sei… Mas ainda assim…&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;E calou-se. Pedir um abraço ao pai era algo que nunca passara pelo seu pensamento. Todavia ambos eram homens e não obstante a forma sempre discreta com que o pai mimava os filhos, João sentiu vontade de pelo menos naquele instante sentir o pai mais próximo de si.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Finalmente arriscou:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Dê-me um abraço… meu pai!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Pedro ergueu-se devagar, abriu os braços e recebeu neles o corpo atlético do filho. Foi a primeira vez que Pedro abraçou o seu benjamim… E de súbito as palavras saíram como se fosse outro a pronunciá-las:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Que Deus te abençoe meu filho! E obrigado…&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O militar afastou-se do antecessor admirado, não com a bênção mas com o agradecimento. E sem pejos perguntou:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Agradeces-me porquê pai?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Pedro esboçou um sorriso. Era raro nele, muito raro. Finalmente respondeu:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Porque nunca o fiz, nem a ti nem aos teus irmãos… Agradeço-te apenas o amor que me tens e à tua mãe.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;-Pai… esta conversa parece uma despedida muito dramática…&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Meu filho, a vida foi, é e será sempre um drama… &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;José da Xã&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Wed, 29 Aug 2012 09:30:14 GMT</pubDate>
  <title>Sentidos dos Dias - O segredo XXIII </title>
  <author>José da Xã</author>
  <link>http://josedaxa.blogs.sapo.pt/34150.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Podia proibi-la de vê-lo, com todas as desculpas válidas e o facto de ser sua mulher... E ele jamais a perdoaria quando soubesse. Podia exigir estar presente, ou pelo menos próximo, que pudesse ouvir o que falavam, mas seria traição. Baixo da parte dela. Além de que fervendo em pouca água, lhe daria vontade de intervir. Portanto seguindo a sua capacidade de &quot;encaixe&quot;, deixando-se levar pelo bom senso, foi assim que Helena voltou costas a Zuleica, e enquanto esta ia com o tal médico negro ao encontro de Pedro, ela foi com João até ao jardim do Convento. Pelo caminho cruzaram-se com o físico mais idoso que a cumprimentou efusivamente.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- D. Helena! Como está a senhora, hoje? Espero que tenha descansado. E o nosso doente?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Bom dia, Dr., lamento desapontá-lo. Na realidade não preguei olho. O meu marido passou bem, dentro do esperado, suponho! Está agora...&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Sei, muito bem! Está com visitas. Não espero que compreenda. Aceito que me censure, mas na minha idade já vi de tudo e se isto não resultar...&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Devo presumir que este &quot;tratamento de choque&quot; é o que chamou de contenção de emoções? Não! Não percebo. Se ele piorar o senhor vai explicar a sua ideia, e praticas de medicina, também aos meus filhos!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Não se revolte comigo. O seu marido é reincidente, portanto um homem forte! Já sobreviveu antes. Está cansado, muito cansado. Desmotivado. A pensar que desta, já não há volta a dar. Está bem acompanhado! E eu estou decidido a que saia daqui, como veio...Pelo seu pé! Ponho a minha carreira em jogo. Ele também precisa de estímulos...Bem dirigidos. A senhora foi um. Notou que gostou que viesse. Agora a outra senhora, segundo parece, também seria alguém com quem deve falar. Um homem deve tratar dos seus assuntos, não acha? Considere isto uma fisioterapia do músculo cardíaco.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Helena seguiu com João cada vez mais nervosa e angustiada. Não sabia que pensar. Se o homem era maluco ou seria ela que não estava boa do juízo! Em Portugal nenhum médico faria isto de certeza, mas queria despachar-se. Regressar depressa ao quarto, a fim de ver a reacção de Pedro. Se pudesse apanhar alguma coisa do fim da conversa... E diante do amigo dele ouviu finalmente, bebendo as palavras, a história dos dois. O segredo totalmente revelado. João fez questão de não omitir nada. Disse-lhe que menos, nem uma ou outra, o mereciam. E todo o tempo em que Pedro falaria com o seu primeiro amor, a mulher soube que existiam dois filhos, sim! Gémeos falsos. Não só o destino fizera o &quot;favor&quot; de os separar do pai, como dera àquela mulher mais uns &quot;brindes&quot; pelo caminho. João e a mulher foram para ela, o que Pedro devia ter sido. Depois do abandono ela trabalhou muito e conseguiu reerguer-se. Voltou à sua terra empregou-se novamente como professora. Os miúdos teriam por volta dos onze anos quando na sua escola, eram &quot;vítimas&quot; sucessivamente, da maldade de outros alunos. O que fez com que um deles não aceitasse que Zuleica não contasse o que acontecera  com o pai, uma vez que se recusara a deitar mão duma mentira. Contar-lhes que morrera! E assim livrar-se de mais explicações. &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Mas, num dia já muito cansada e sem ver por que adiar,(quando o miúdo não se calava, contagiando o outro) desesperada, triste e humilhada, sentou-os na frente e contou: O pai deixara-os. Era um soldado, que tinha escolhido vir para o seu país, como muitos fizeram. A culpa não era de ninguém, mas da guerra. Um dia, quem sabe, poderiam conhecê-lo... Só que nunca pensou que depois de ser bombardeada de perguntas, sobre o porquê dele nunca perguntar por eles? Se tinha outra família, como se chamava... e os ver já exaustos a dormir, um, durante a noite fugisse de casa. Explicara que queria apanhar boleia com o intuito de vir a Lisboa... Mas o que conseguiu foi, ser encontrado pelo irmão e a mãe, caído na estrada com uma bala alojada na espinha, disparada por não se sabe quem.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Resumindo: O resultado de todo aquele calvário era, além de muito mais de que ficou conhecedora, um dos filhos de Pedro ser nem mais nem menos o rapaz gerente do hotel onde ele ficara acomodado. O outro? E aqui Helena quase ia tendo ela própria, uma sincope! Era o Doutor Gil...Que vendo o irmão a esvair-se em sangue, jurou naquele momento, que seria médico se ele se salvasse. O que podia Helena fazer contra tamanha revelação? Tanto pormenor cheio de sangue, lágrimas. Uma vida de martírio? O que podia ela contra o maldito destino, ter posto agora um dos filhos a tratar do pai, e um outro, no seu hotel. Muito antes de todos terem chegado aqui...A um convento no meio do nada! Q&lt;span&gt;&lt;span&gt;uando&lt;/span&gt; se &lt;/span&gt;levantara de manhã, nunca supos vir a sentir-se, assim... Pavorosamente siderada.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Verniz Negro&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;</description>
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  <category>destino</category>
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  <pubDate>Sun, 26 Aug 2012 00:22:11 GMT</pubDate>
  <title>Sentido dos dias – Maria da Graça XXII</title>
  <author>José da Xã</author>
  <link>http://josedaxa.blogs.sapo.pt/33987.html</link>
  <description>&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Quando a mãe lhe comunicou que o pai ia a Angola, Maria da Graça apenas perguntou:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Mas porquê Angola?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Isso pergunta-lhe tu, se quiseres… - descartou-se Helena.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A relação entre a filha e o pai sempre fora de altos e baixos…  Se bem que Pedro não fosse um pai ausente era todavia um homem distante dos filhos. Ou pelo menos era essa a ideia que aparentava. Só que com a Maria da Graça, o alfarrabista usava de alguma indolência. Com o tempo ambos ficaram mais próximos de tal forma que a rapariga só estudava na loja, onde passava longas horas a seguir ao liceu e mais tarde à faculdade. De tal forma assim era que todos os momentos disponíveis para ambos eram usados para ler velhos e bons clássicos a que se seguiam naturais discussões sobre as ideias oriundas das obras…&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A jovem admirava-se com o pai, nascido e criado em Trás-os-Montes e sem qualquer formação académica superior, discorria com saber as suas ideias e opiniões. Também sabia da escrita mas jamais solicitara ler o quer que fosse. Preferia-o assim…&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A ideia peregrina do pai, em ir a Angola tornara-se para si um mistério. Sempre soubera das vicissitudes que o antecessor passara por terras de África numa guerra infame e injusta. Mas isto não lhe parecia razão suficiente para partir de Portugal… A não ser!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Foi nesse instante que a dúvida se instalou na mente de Maria da Graça. Havia claramente um passado na vida do pai relacionado com Angola e que não se chamava Guerra Colonial. Mas o que seria?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Perguntar-lhe directamente seria um erro enorme e que ele desvalorizaria com qualquer desculpa esfarrapada. Haveria que ter tacto, saber conduzir a conversa, ladear as questões importantes tentando dar relevância ao supérfluo.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Maria da Graça cedo percebeu que a mãe sabia das razões da viagem mas não as pretendia divulgar. Estava no seu pleno direito de esposa e mãe. Mas ela como filha já adulta necessitava saber. Não que o tentasse dissuadir a partir, isso não! Se algo conhecia do pai era a sua profunda teimosia.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Foi apoiada no conceito de que o pai lhe revelaria as coisas sem saber, que se aproximou de Pedro Rafael num fim de tarde chuvoso e muito sombrio. A chuva miúda e muito fina quase parecia pó e chuva caia suavemente sobre o seu guarda-chuva. Saíra de casa decidida em desvendar o mistério da partida do pai. Todavia tinha de pensar como abordar o assunto sem que ele se melindrasse ou fugisse consecutivamente às respostas. Foi pelo caminho remoendo ideias e mais ideias, e sem vislumbrar algo que sentisse fantástico para iniciar a conversa, deixou que o seu espírito encontrasse as perguntas certas apenas quando chegasse perto do pai.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Quando chegou, o livreiro acabava de receber um cheque de um dos velhíssimos amigos de Hermínio, que continuadamente apareciam na loja em busca de algo estranho ou bizarro. Conhecendo-o cumprimentou:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Ora viva Dr. Meireles… Bons olhos o vejam.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O ancião elevou os olhos a cobertos de umas grossas lentes para as faces formosas de Maria da Graça e percebendo quem era devolveu:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Olha a minha querida menina… Como está?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Bem… E o meu amigo?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Impecavelmente... Desde que o seu paizinho me arranje algo para ler… - e riu mostrando uma enorme ausência de dentes. Depois partiu levando um saco cheio de livros estranhos. Pedro pode finalmente cumprimentar a filha:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Olá cachopa. Que vieste aqui fazer com este tempo?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Nem sei paizinho! Quer crer? Ando preocupada com a minha vida… só isso.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Preocupada? Como assim?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Sabe… O meu trabalho não é muito interessante… Gostava de… outra coisa…&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Que coisa?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Não sei realmente… Olhe sabe, necessito de aventura!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Aventura? Mas tu endoideceste?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Não senhor. Estou a pensar em partir para uma missão católica em África.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A última palavra de Maria de Graça fez o pai mudar de tom… E de atitude…&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Nem penses! Eu não te deixo ir… - disse com rispidez.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Tocara-lhe no ponto fraco. Agora bastava desbravar este enigma. Sem fazer caso das ultimas palavras de Pedro, Graça continuou:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Na igreja está-se a formar um grupo de missionários para partirmos para África e como sei que o pai andou por lá, sei que na guerra, queria saber a sua opinião entre Angola ou Moçambique.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Pedro quase espumava. Tentava acalmar-se mas não conseguia… Sentiu o coração bater mais forte e sentou-se. Não podia ser… A filha também… Sentiu que tudo andava à roda e caiu por cima da secretária.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Maria da Graça correu lesta para o pai, sabendo dos seus problemas cardíacos:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Paizinho, pai… Acorde, por favor… - batia-lhe ao de leve da face tentando reanimá-lo.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;As pestanas tremeram e finalmente acordou:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Pai, paizinho – chorava Maria da Graça – Estás bem?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Pedro respirou muito fundo e disse numa voz cava:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Estou filha, mas peço-te não vás para Angola…&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Porquê meu pai?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Porque deixas lá o coração!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;José da Xã&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Wed, 22 Aug 2012 00:36:13 GMT</pubDate>
  <title>Sentidos dos dias - Humilhação XXI</title>
  <author>José da Xã</author>
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  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Helena não dormiu bem toda a noite. Encontrou o marido pior que pensaria. À sua cabeceira um&lt;span&gt; médi&lt;span&gt;co&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;. Mais tarde, nesse dia, conheceria um outro. De cor, jovem ainda. O primeiro mais idoso, informou-a que o rapaz era seu interno e  teria todo o interesse em &lt;span&gt;&lt;span&gt;te-lo &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;ali. Quanto a ele era um futuro portento da cardiologia&lt;/span&gt;. Acumulando &lt;span&gt;também, &lt;span&gt;co&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;nhecimentos sobre a medicina parale&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; e naturalista, que muitos povos de África possuem como &quot;legado.&quot;&lt;/span&gt;  Helena não ficou muito bem impressionada com o jovem clínico. Pareceu-lhe algo arrogante ao olhá-la, quase tentou evitar-lhe o aperto de mão. Mas vinha cansada, algo irritada com o clima. Insatisfeita com a conversa de João e aquela coisa dos filhos, que não acabara por elucidar visto que mal o &lt;span&gt;&lt;span&gt;jeep&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; parara, ficaram rodeados de gente. Frades e ajudantes, mais a confusão de malas e instalações. Depois as novidades e por fim... Pedro!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Parecia ter envelhecido mais cinco anos. Helena sentiu os olhos marejados de lágrimas ao ver o marido, mas fez força para ele não a ver fraquejar. Beijou-o, afagou-lhe o rosto e encorajou-o. Disse-lhe que tinha de se por bom, porque os filhos estavam à espera e os dois, ainda tinham muito para viver. Mas na realidade os fios, máquinas, biombos. C&lt;span&gt;&lt;span&gt;om&lt;/span&gt; o soro e montes de artefactos hospitalares, mais&lt;/span&gt; um enorme aparelho de ar condicionado portátil a fim de manter a temperatura fresca, deixaram-na esvaída... Mas ao mesmo tempo esperançosa! Aquilo poderia ser um convento, mas aquele quarto agora, parecia mais uma dependência eficiente que qualquer valência de cardiologia. Havia uma enfermeira sempre atenta à medicação, alterações do paciente e quando Helena se afastou por exigência do &lt;span&gt;&lt;span&gt;Dr&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;. Germano (o tal mais velho), c&lt;span&gt;om&lt;/span&gt; a indicação de que queria falar-lhe, depois de o ouvir c&lt;span&gt;om&lt;/span&gt; atenção, fez questão de o informar que e&lt;span&gt;la&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; poderia ser dispensada. C&lt;span&gt;&lt;span&gt;om&lt;/span&gt; e&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; ali e sendo mulher dele, fazia questão de &lt;/span&gt;&lt;span&gt;tomar conta do marido durante noite e dia, o tempo que ele levasse para poder ser transferido para Portugal. Logo aí recebeu um sorriso quase escarninho e a resposta que a enfermeira se manteria. E&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; poderia ser uma mais valia, mas ao mesmo tempo um empecilho. Além de não ter preparação de enfermagem a ponto de substituir a outra profissional, em caso de agravamento, a vinda de&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; poderia complicar as coisas, uma vez que e&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; estando ali era uma grande carga emocional. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span&gt;Helena ia esbofeteando o homem, mas calou-se e admitiu que a gravidade da situação o requeria. Segundo ele Pedro agora estava, estável portanto seria de evitar qualquer comoção supérflua. Por isso se e&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; queria ajudar que o mimasse, ajudasse na higiene, alimentação quando ele começasse a comer e até a distraí-lo, mas não falasse de coisas muito emotivas. Não fizesse grande força ou exigência para ele melhorar, sobretudo não o culpasse de estar assim. Helena ficara miserável. Naque&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; maldita terra parecia &lt;span&gt;ningué&lt;/span&gt;m gostar de&lt;span&gt;la,&lt;/span&gt; ou achar que a sua vinda fora boa ideia. Raios! Por momentos sentia uns ciúmes doentios e uma vontade de gritar e barafustar! Se ele estava assim fora por causa daque&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; &quot;preta de &lt;span&gt;merda&lt;/span&gt;&quot; que não lhe saía da cabeça. Ainda assim engoliu em se&lt;span&gt;co&lt;/span&gt; e o resto do dia e noite, ficou calada e cumpriu tudo escrupulosamente. Tomou um calmante e um analgési&lt;span&gt;co&lt;/span&gt; para a dor de cabeça e mal se deitou pensou que dormiria. No entanto ficou a olhar para ele encolhida no seu canto. A ouvir-lhe a respiração pesada, o s&lt;span&gt;om&lt;/span&gt; da gota do soro a cair diligente e a maldita máquina a trabalhar. A enfermeira que entrou duas vezes para tirar notas e lhe sorriu, saindo tão fantasmagoricamente como entrou. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span&gt;E resolveu por momentos ir até lá a fora de mansinho não se afastando das redondezas. A noite era um quadro irreal c&lt;span&gt;om&lt;/span&gt; a lua, estrelas as palmeiras. O vermelho da terra, o bran&lt;span&gt;co&lt;/span&gt; das pedras a ladear os caminhos e os odores. Depois os ruídos e um ou outro piar de ave que desconhecia, mais um soçobrar de elefantes que se banhavam muito ao longe nalgum lago perto, quiçá. Todo aquele conjunto de sombras e luzes e cheiros, c&lt;span&gt;om&lt;/span&gt; os animais pachorrentos e ainda o que e&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; sabia e poderia lembrar-se, dos filmes que vira de África fizeram-na a custo, curvar-se ao encanto que aque&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; terra teria provocado no seu homem, a ponto de o encantar para sempre. E&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; estava ali há apenas algumas horas e sentia o chamamento. Porém mal recordou Zuleica rangeu os dentes e fechou os punhos. Voltou para dentro, fechou bem a porta e acomodou-se até amanhecer c&lt;span&gt;om&lt;/span&gt; uma ideia fixa: João ia elucidá-&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; de tudo o que não lhe contara, mal o dia raiasse ou e&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; não se chamasse Helena... &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;E foi assim que mal se despachou e deixou Pedro &quot;bem entregue&quot;, saiu porta fora e foi encontrá-lo a apanhar folhas secas com um ansinho... &quot;&lt;em&gt;Que lata! Até parece que não havia nada de mais importante que empossar-se em jardineiro.&quot;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Bom dia, senhor João. Espero que tenha dormido bem, porque...&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span&gt;Ia morrendo! Não! Não morreria tão depressa e ainda suportaria tudo e mais alguma coisa, mas aquilo? Agora percebia porque Pedro se apaixonara por e&lt;span&gt;la&lt;/span&gt;. Era... Linda! Ainda hoje. Mais alta que e&lt;span&gt;la&lt;/span&gt;, muito bem feita, e... fina. E aqueles olhos lindíssimos. C&lt;span&gt;om&lt;/span&gt; a fa&lt;span&gt;la, tão delicada e o sorriso? Franco!&lt;/span&gt; Não, isto era inaceitável.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Olá, D. Helena! Hum... Vejo que chega a tempo de conhecer uma velha amiga. C&lt;span&gt;hegou ontem à tarde c&lt;span&gt;om&lt;/span&gt; o&lt;/span&gt; Dr. Gil. Principalmente porque o Pedro não poderá... Bem, infelizmente está na hora do Pedro e ela falarem. Talvez seja este o único sítio onde o possam fazer, como a senhora sabe.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span&gt;Helena sentiu-se incendiar. Deviam estar a gozá-&lt;span&gt;la&lt;/span&gt;! Era esta ideia de pouca emoção que o seu marido precisava? E desde quando e&lt;span&gt;la&lt;/span&gt; vinha, sem a consultarem a si? Passara a noite debaixo de mesmo tecto que aque&lt;span&gt;la&lt;/span&gt;...aque&lt;span&gt;la&lt;/span&gt;...&lt;/span&gt;  &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Verniz Negro&lt;/p&gt;</description>
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