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  <title>UM MINUTO DE HISTÓRIAS</title>
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  <description>UM MINUTO DE HISTÓRIAS - SAPO Blogs</description>
  <lastBuildDate>Mon, 27 May 2013 16:48:51 GMT</lastBuildDate>
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  <pubDate>Mon, 27 May 2013 16:48:05 GMT</pubDate>
  <title>cátia</title>
  <author>Queirosiana</author>
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  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Conheci a Cátia em pequena, partilhámos o medo tenebroso do primeiro dia de aulas. O acaso juntou-nos e o acaso separou-nos. O início da minha história com a Cátia é simples - ambas pertencemos à turma do 1º ano turma A do ano letivo 1997/1998, eu era o número 366 e ela o 291. Não recordo particular cumplicidade entre nós, muito embora tenhamos permanecido colegas até aos 13 anos de idade.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Começo agora a recordar a imensidão do recreio e ainda que os seus pequenos pormenores se venham esfumando, a minha mente sempre me surpreende, relembrando-me aqui e acolá de uma ou outra pecularidade daquele espaço que me foi tão querido. E assim, vou lentamente levantando as suas estruturas e aperfeiçoando os detalhes que a minha memória insiste em manter intactos na secção das ternuras no meu coração.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A Cátia podia não ser a companheira predileta das minhas brincadeiras no recreio, mas é comum encontrá-la no meio do meu arquivo mental. Mas não surge como mera figurante da minha história, como muitas das dezenas de colegas que tive e de que agora apenas recordo o nome e a pequena face infantil que dificilmente reconheceria na rua. Mas não, à Cátia, guardo-a no meu coração, com os seus imutáveis treze anos – pequena e franzina, com o seu cabelo liso apanhado num inocente rabo de cavalo, magrinha, muito leve e ligeira, de expressão misteriosa que hoje arrisco qualificar como triste. Nunca soube ao certo a história da Cátia e tive sempre o bom senso de nunca lhe perguntar, ela teve a mesma gentileza comigo. Mas fiquei sempre com a sensação de que ambas tínhamos os mesmos tristes esqueletos encerrados no armário.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A minha proximidade com a Cátia, surgiu somente aos treze anos por uma série de coincidências menos felizes que resultaram no facto de passar a ir de autocarro para o Colégio. Apanhava o autocarro na esquina da Rua da Alfazema junto ao quiosque dos jornais por volta das seis e quarenta da manhã e chegava ao Colégio por volta das sete e vinte. O Colégio ainda estava a acordar quando eu era depositada à sua porta, as luzes ainda se encontravam apagadas e muitas das portas fechadas... eu assistia ao seu acordar lento e dorminhoco. Eu e a Cátia. Ela foi, durante esse ano, o interruptor dessas manhãs madrugadoras. Tinha como certo que a encontraria quando chegasse, não estaria sozinha. Essas manhãs que se avizinhavam solitárias e tristes na espera ansiosa pela chegada das amigas, que lá iam aparecendo às gotinhas a partir das oito horas da manhã, foram sendo pintadas por nós duas sentadas nos bancos das Galerias de olhos postos no Palco abaixo – um cenário misterioso e melancólico ao qual se juntava o lusco-fusco da manhã.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Posso dizer que eu e a Cátia nos tornámos amigas. Mas era uma amizade estranha, quase oportunista porque a nossa cumplicidade madrugadora extinguia-se com a chegada de novas atrizes em cena. A partir das oito da manhã, eu e a Cátia separávamo-nos, se bem que fôssemos para a mesma sala, assistissemos às mesmas aulas, comêssemos no mesmo refeitório e brincássemos no mesmo recreio. Mas foi uma amizade genuína ainda que surgida por razões de circunstância, porque eu estava de facto sozinha naquela altura – em todos os sentidos – e a Cátia também o estava, ou então, isso já seria imaginação minha!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Não sei que rumo a sua vida tomou – ela mudou-se de escola e eu perdi-lhe o rasto. Mas de uma coisa eu sei, é uma menina de bom coração, porque só um bom coração se lembraria de colocar uma vela num kinder bueno comprado numa máquina automática e de recolher pétalas de rosa, na manhã fria, do seu jardim, para me oferecer e atirar à chegada à escola, enquanto subia as estreitas escadas para entrar nas Galerias, saudando-me com um inesquecível Parabéns – que se gravou tão intensamente na minha memória que as lágrimas ainda hoje me assolam à face sempre que recordo. A solidão e desamparo dos meus treze anos trazem junto a alegria de uma curta mas genuína amizade. A Cátia ajudou-me muito, nem ela sabe quanto ou como, nem eu ainda hoje sei ao certo como quantificar.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Hoje faço-lhe aqui esta pequena homenagem, pois nunca lhe agradeci. Desejando que algures a maré a traga de novo à minha costa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</description>
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  <category>crónicas</category>
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  <pubDate>Mon, 20 May 2013 12:33:15 GMT</pubDate>
  <title>o meu sexto aniversário</title>
  <author>Queirosiana</author>
  <link>http://umminutodehistorias.blogs.sapo.pt/8676.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;No dia do meu sexto aniversário, quando ainda fazia pedidos e demorava a adormecer à noite na antecipação dos meus anos e das prendas que receberia, o meu pai ofereceu-me um peluche, um cão dálmata que dá à cauda se lhe puxarmos a coleira, é um bicharoco que tem pouco mais do que dois palmos e meio, mas eu não podia gostar mais dele.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Fizemos a festa na fábrica das malas do meu pai, um armazém gigantesco, um Golias para um pequeno David como eu. Presumo que houvesse muitas encomendas e prazos apertados e por isso a festa teria de ser feita em pleno local de trabalho, num longo intervalo de almoço. Mas não importa, a empresa era familiar, não só porque quase todos na família lá trabalhavam, mas também porque lá passei muitas horas, rodeada de grandes rolos de tecido rugoso ou liso para forros, envolta por latas de cola de contacto com o seu cheiro tão característico, pelas imensas paletes abarrotadas de cartão para os moldes, pegas, fechos, máquinas de costura sempre a coser, caixinhas, caixas, caixotes, malas para aqui, malas para acolá, o barulho incessante dos motores das máquinas, o balancé a baixar, os pincéis a passar no cartão, as costureiras a rir, o Bruno lá ao fundo, entretido a cortar moldes,  a mãe no escritório ao telefone, o pai por todo lado, sem parar, sem parar nunca. E eu por ali, sempre ocupada nas minhas brincadeiras muito minhas, onde criava universos únicos aos quais já não sei como regressar.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Do que me lembro, estavam lá todos, todos os que importavam. O pai, a mãe, os manos e as cunhadas - a felicidade natural da infância só é sentida no momento, mas só é compreendida mais tarde e agora sinto-a a pulsar cá dentro tão fortemente que chego a lamentar não poder ser novamente a Clara dos seis anos com a consciência da Clara dos vinte, para poder abraçar toda aquela gente como se fosse a última vez e dizer-lhes o quanto os amo.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O bolo era caseiro, era a minha mãe que o fazia, mais tarde, passei a ser eu. Recordo todos à mesa, a mesa do refeitório das empregadas, eu ao colo do pai, feliz até mais não, ao som da cantilena dos anos que gostava sempre de acompanhar e que agora já só me dá desconforto. Só me lembro de risos, sorrisos, beijinhos e abraços - que é tudo o que se guarda normalmente. Depois, lembro-me daquela prenda, sei que recebi mais, mas já não sei o quê.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Porque gravei eu esta memória? Se me perguntarem pelo sétimo aniversário ou o décimo, não me recordo, sei lá, já não me lembro! A verdade é que eu queria muito aquele peluche e quando chegou o momento de abrir as prendas, ele não estava lá. O meu pai escondera-o,  dizendo-me que quando foi para o comprar, já não havia. Por estranho que pareça, na medida em que as memórias são imagens, a verdade é que a minha memória, quando penso nisto, não me traz nenhuma imagem à mente, apenas uma sensação de profunda infelicidade. E aí, nesse momento, o meu pai tornou-o especial, porque não foi o desejar, o querer ter que mo gravou na memória, foi a sua perda. Naquele dia perdi o Nero - como o baptizei - e é por isso que ele ainda dorme encostado ao canto da minha cama, para que nunca mais tal torne a suceder.&lt;/p&gt;</description>
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  <category>crónicas</category>
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  <pubDate>Mon, 20 May 2013 12:26:29 GMT</pubDate>
  <title>natasha!</title>
  <author>Queirosiana</author>
  <link>http://umminutodehistorias.blogs.sapo.pt/8223.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Quando vim para Coimbra, perdi a minha maior companheira nas lides domésticas, a minha fiel escudeira - falo, obviamente, da minha máquina de lavar-loiça. Desde então, encaro diariamente o meu lava-loiças duplo, que mais parece um monstro de duas cabeças - qual Quimera engordurada - e que é exíguo para a quantidade imensa de loiça suja que fabrico, às vezes até parece que vive lá um regimento.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Devem estar agora a julgar ou prever a minha enorme infelicidade, mas enganam-se leitores! Porque na falta da minha fiel escudeira, e sem fundo de maneio para arranjar outra, arranjei uma Natasha.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Perdoem-me as Natashas deste mundo, trata-se apenas de uma espécie de eufemismo, pois a Natasha é a minha empregada doméstica ficcionada. Antigamente, chamava-se Maria, como qualquer boa criada portuguesa, mas por receio de possíveis confusões e desenganos, quando vim para Coimbra, (re)baptizei-a, com medo da minha senhoria julgar que a gozava, pois ela chama-se Maria. Assim, é pela Natasha que chamo quando, depois do jantar, chega a hora do café; é pela Natasha que chamo quando me esqueço de trazer o pão para a mesa; é pela Natasha que chamo quando preciso de uma camisa passada; e é pela Natasha que chamo quando a loiça quase que chega ao teto. Portanto, como vêem, a Natasha é a minha última esperança, é ela quem invoco em alturas de aflição, é a minha virgem imaculada. O busilis, é que ela está quase sempre de folga, ou de visita à família na sua terra distante e longíqua e nada mais me resta senão vestir o avental e encarnar a Natasha. Por isso, se alguma vez me virem de avental, não sou mais do que a Natasha, a minha empregada doméstica.&lt;/p&gt;</description>
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  <category>crónicas</category>
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  <pubDate>Mon, 20 May 2013 11:56:53 GMT</pubDate>
  <title>às vezes eu não chego</title>
  <author>Queirosiana</author>
  <link>http://umminutodehistorias.blogs.sapo.pt/8074.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Há dias em que eu não chego. Em que ser eu não é suficiente. Acordo assim, triste e inútil e pouco mais posso fazer. &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Deambulo o dia inteiro na ansiedade de ser ou estar melhor no amanhã. Sim, porque ser e estar não me parecem assim tão diferentes no dia de hoje. Curioso, para os ingleses também não.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Hoje devia ser mais, devia ser outro, devia ser diferente. Não devia ser inexperiente nem ingénua, não devia ser submissa nem tímida, não devia ser só nem sonhadora, não devia ser obstinada nem teimosa, não devia ser medrosa nem incapaz. Não, não devia - porque no fundo, hoje, eu não devia ser eu.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Hoje gostava de adotar o perfil de um outro qualquer sujeito, percorrer essas bases de dados virtuais e escolher ao acaso de entre um enorme leque de opções. Sim, porque às vezes gostava de entregar a minha solidão a um desconhecido. Trocar com ele o seu repleto album de fotografias, obstruido pelos milhares de comentários insípidos e vagos, pelo meu solar abandonado e esquecido por amizades eternas.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Sim, nestes dias em que ser só e estar só se abate sobre mim, não gostava de ser eu, não gostava de me conhecer porque não gosto dos fantasmas do meu coração.  Sei que o que escrevo não faz sentido, é estúpido, é fraco. Mas eu hoje estou estúpida e estou fraca. Hoje estou e sou. Mas amanhã já passa.&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Wed, 20 Mar 2013 09:45:17 GMT</pubDate>
  <title>assimilação</title>
  <author>Queirosiana</author>
  <link>http://umminutodehistorias.blogs.sapo.pt/7734.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Aos dezoito anos mudei de casa, mudei de terra... aos dezoito anos mudei muito e muita coisa. Mas o que importa, é que nessa data inolvidável, abandonei os maciços verticais de betão que se encafuam uns em cima dos outros nessas cidades dormitório que orbitam em torno da capital, e fui viver para uma pacata aldeia, não muito afastada da civilização, sob pena de me tornar precocemente eremita.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;As minhas expectativas correspondiam às de qualquer pessoa que nasceu e cresceu na cidade e que nunca teve avós que vivessem na aldeia, permitindo-me o contacto com esse outro universo nos quentes verões do ano. E por isso, esperava encontrar a pureza do bucólico, a simplicidade e sabedoria daqueles que convivem lado a lado com a natureza. A verdade, é que passados quase quatro anos, a deceção não podia ser maior. Não pela natureza, essa, graças a deus, preencheu-me o enorme vazio do cinzento da cidade - mas as pessoas, essas sim, são a verdadeira desilusão, pois vivem num perigoso jogo de cinismo e maledicência. Mas talvez eu tenha tido azar e esta minha aldeia não sirva de amostra, mas deixem-me contar-vos uma história.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Sou por inerência uma pessoa bem disposta e liberta de alguns preconceitos que tendem a toldar a nossa visão, na medida em que uma certa minha ingenuidade vê apenas o melhor nas pessoas e é por isso que quando cheguei à aldeia, numa forçada tentativa de intrusão no meio, cumprimentava todos, sem reservas. Mas quando, e se obtinha resposta, tal não passava de um murmúrio cabisbaixo. Ao meu cumprimento, recebia em contrapartida - quase sempre - uns olhares assustados, reticentes, perscrutores, estranhos. Houve dias em que me perguntei se seria algum alienígena, verde e desproporcional, e ainda não soubesse!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Porém, e fazendo justiça, pois não pretendo contar uma história rancorosa ou despeitada, houve sempre uma pessoa que me cumprimentou e sempre de sorriso no rosto, sem me conhecer de lado nenhum. Não havia dia em que não passasse pelo senhor que não recebesse um &quot;bom dia, menina!&quot;. Durante praticamente dois anos, desconheci o nome dele, e é provável que ele também só me conhecesse por ser a inquilina da Ti Maria. Para mim, o senhor Abílio - o seu nome, foi, durante esses anos o senhor do trator ou o senhor das ovelhas, consoante o visse montado na máquina ou de cajado nas mãos. Mas o que importa é que me cumprimentou sempre, sem reservas, preconceitos, ou medo que qualquer espécie de contágio do qual fosse eu a incubadora.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;E lá o via eu, quase todos os dias, pela manhãzinha, quando ia a pé para a paragem. Há uns tempos, deixei de o ver, deixei de passar por ele.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Há uma semana, encontrei-o colado a uma pilar do lavadouro, numa folha A4 de luto muito solene, onde sorria por um pequeno quadrado no canto superior esquerdo, passei por ele e dei-lhe os bons dias. Ontem já não o vi, no seu lugar estava agora uma Maria da Conceição, passei por ela, mas como não a conhecia, não a cumprimentei. Segui o meu caminho indiferente. Mas agora que penso... ora bolas, assimilei-me!&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Mon, 24 Dec 2012 23:59:33 GMT</pubDate>
  <title>desculpa</title>
  <author>Queirosiana</author>
  <link>http://umminutodehistorias.blogs.sapo.pt/6784.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Esse abraço longo que ainda não aconteceu, espera nesse limbo que todos possuímos. Espera pelo nosso reencontro e leva com ele a saudade infinita de todos os dias que vivi com a tua ausência eterna. Até esse dia perguntar-me-ei, vezes sem conta, &quot;porquê&quot;.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;É como a água do rio, chega sempre à fonte, é inevitável. Tal como o é reencontrar-te. Gostava de saber mais sobre como partiste, mas não quero perguntar. A dor que sinto adormece, mas reacende-se como a brasa que ainda não se extinguiu e espera por um sopro de vento para reacender. Sinto isso. Oiço aquele temível grito, que não invejo e que não sei como descrever. Vejo a face deformada de quem não quer chorar, de quem se descontrola no sofrimento e, finalmente, rende-se e aceita a perda. Recordo o meu domínio e incredibilidade. Mantenho-me firme até encontrar a solitude e a fotografia que me olha nos olhos. Transformo-me em rio. Descontroladamente os membros são possuídos pela dor, por momentos, não sou eu, simplesmente. Uma campainha que toca, um abraço quente mas com pouco corpo. Uma noite estranha, vazia. Um sorriso forçado de quem está desesperado mas quer evitar a todo o custo a dor, a perda, a podre realidade. Uma fotografia a preto e branco com o teu belo sorriso. Um caixão tapado. Não te vejo o rosto, afinal, já não era o teu.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Quero ter-te ao meu lado outra vez. Quero recuperar os tantos anos separados, quero a tua versão da história, quero a tua velhice e não a tua morte precoce, mesmo que de livre vontade.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Queria a tua presença egoisticamente para nós. Mas já não a tenho, já não a temos. Nem a terei, nem teremos.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Restam-me as folhas de Outono que nunca mais caem, que nunca mais abandonam a sua árvore e permanecem ali, meias soltas, meias agarradas ao ramo que as sustem com dificuldade perante todas as intempéries.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Um dia escrevi-te, “depois da tempestade vem a bonança”, foi num Natal. Estavas sozinho, apenas com dois ou três gatos e fui fazer-te companhia pela internet, era muito miúda ainda.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Um dia telefonei-te, depois de muito tempo calada, não sabia que dizer, &quot;Olá, sou eu&quot; silêncio, &quot;estás bom O.? Tudo bem contigo? Vou passar ao pai&quot;, desligaste nestes segundos de espera em que o telefone passou de mãos. Ligaste novamente, milésimos depois. Soube, mais tarde, que choraste quando ouviste a minha voz, choraste de alegria, como se eu fosse alegoria da esperança.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Desculpa.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: x-small;&quot;&gt;Escrito originalmente a 3 de Dezembro 2010&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt; &lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <category>olavo</category>
  <category>crónicas</category>
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  <pubDate>Tue, 18 Dec 2012 09:37:32 GMT</pubDate>
  <title>dos farrapos coração</title>
  <author>Queirosiana</author>
  <link>http://umminutodehistorias.blogs.sapo.pt/7018.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A menina sem coração não sabia como amar ou sofrer.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Vivia numa rua de paredes caiadas, repletas de estendais iluminados pela candura dos lençóis. Contudo, no meio deles apareciam, por vezes, imundos e contrastantes trapos em fanicos que ela recolhia por os achar feios e sujos. Chegou a um ponto já tantos eram os farrapos e o tempo tão lento, que a menina começou a cosê-los sob a forma redonda do relógio da Igreja. O espaço era pequeno no seu quarto, e então, encheu o vazio do circulo até criar uma esfera deformada que mais se assemelhava a um gordo e apertado coração.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Esta é a história da menina que ao contrário de muitas outras, que fazem do coração farrapos, optou por fazer dos farrapos coração e aprendeu a amar e soube o que era sofrer e alegrou-se por isso, alegrou-se por poder sentir.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt; &lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: x-small;&quot;&gt;&lt;em&gt;Escrito originalmente a 18 de Dezembro 2010&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Fri, 14 Dec 2012 20:33:02 GMT</pubDate>
  <title>alternativo</title>
  <author>Queirosiana</author>
  <link>http://umminutodehistorias.blogs.sapo.pt/6484.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Nesse outro mundo, nessa alternartiva que todos temos à realidade, aproximei-me muito perto e beijei-te.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&quot;Por cada opção que tomamos e tantas outras que não escolhemos, geramos em torno de nós tantas dimensões quantas as que optámos por não optar. E vivemos milhares de milhões de vidas alternativas que sempre desconheceremos. Essa é a beleza do Universo, Constança. Nunca sabes nem saberás o que te espera. Escolhe o que te aprouver mas fá-lo sempre em consciência. Nunca desvirtues a sensatez. Nunca te deixes ficar muito tempo nos meandros sombrios da loucura, ela só é bela quando espontânea.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: x-small;&quot;&gt;Escrito originalmente a 23 de Novembro 2010&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <category>dispersos</category>
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  <pubDate>Thu, 13 Dec 2012 14:40:20 GMT</pubDate>
  <title>paz podre</title>
  <author>Queirosiana</author>
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  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Não escrevo há muito tempo. As preocupações quebraram-me a pena e tenho vivido egoisticamente, até de mim própria.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;São pequenos nadas que compõem um vazio abismal de coisa nenhuma que me entorpece a alma e a envolve num lamentável buraco negro de onde é difícil escapar. Temo que a minha alegria se desvaneça por completo...&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Mesmo hoje, mais parece que essa alegria foi substituída por uma estranha sensação de revolta lunática, frenética... estimulada pela misérias humanas que resultam na indignidade pestilenta da Injustiça. Estou em erupção ideológica, creio eu. No fundo, isso confunde-se estranhamente com esperança, porque nada há de mais sagrado do que o principio basilar da Dignidade Humana, onde tudo se funde, até a própria Vida.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A ideologia que governa o país tresanda a bafio, envolta em fungos tóxicos de um verde putrefacto que destroem qualquer partícula de oxigénio. Não tenho outra força que não esta, a escrita. Este é o meu instrumento de revolta. Este é o insignificante espaço onde alivio a alma de todos os encontrões do dia a dia. Este é o meu antro de confissão, onde me insurjo contra o incessante espezinhamento das Instituições deste país, tão solitárias e sobranceiramente afastadas dele... inertes num cubículo onde do horizonte não se esboça sequer uma sombra.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Mas atenção, incautos! É na sombra que desperta uma (ainda) ténue massa de revolta.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: x-small;&quot;&gt;&lt;em&gt;Escrito originalmente a 18 de Abril 2012&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <category>crónicas</category>
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  <pubDate>Sat, 08 Dec 2012 22:28:26 GMT</pubDate>
  <title>luto</title>
  <author>Queirosiana</author>
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  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Foste. Partiste para longe. Deixaste-nos aqui, nós sozinhos. O nós é grande e fala de muitas pessoas. Incluo-me nesse colectivo, por pensar que talvez assim a dor se dissolva, se partilhe e deixe de estar tão latente no coração. Não sei que dia foi esse. Que dia foi esse em que nos abandonaste. Apenas recordo o dia da notícia da tua ausência feita eterna meu irmão. Irmão sim. O Meu Irmão. Vou recordando aos poucos tudo e tudo parece agora ter sentido para o fim tão trágico que sucedeu e que ninguém, nem tu, esperava. Toda a tua ansiedade constante. A vontade de partir permanente. O não estares bem ali e só te achares bem onde não estavas. A pressa de chegar e a impaciência de ir embora. O sem rumo em que te encontraste. E toda a dor e sofrimento, que sei agora que sentias. e não mostravas. Fazes-nos falta. É isso que me diz este meu rio interior, esta enorme nascente de água que jorra lágrimas de saudade. Vejo-te todos os dias, e quase sempre te recordo. Ainda. Tropeço nas memórias, poucas, que tenho tuas. Foram mais os anos afastados do que os momentos juntos. Mas isso é apenas uma medida temporal, a grandeza da memória abarca toda e qualquer distância, reduzindo-a... minguando-a. Não te falo a ninguém. Não falo da tua partida. Falo só da tua recordação, inspirando cada palavra, dando o tom perfeito e a entoação indicada para que, nessa harmonia, o tão grande que eras passar. Para que outros tenham a sorte de te conhecer sem nunca te terem conhecido. Para que os outros te sintam vivo como vivo estás no pulsar do meu coração. E aos poucos, essas pequenas partes de ti que vou contando, vão-te imortalizando. Sou leal a ti e à grandiosa lembrança que nos deixaste. Mas a chuva ainda cai na minha paisagem interior, como se aquele dia invernoso se repetisse insessantemente. Chove. Ainda chove muito.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: x-small;&quot;&gt;Escrito originalmente a 16 de Setembro 2010&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <category>olavo</category>
  <category>crónicas</category>
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  <pubDate>Fri, 07 Dec 2012 17:50:32 GMT</pubDate>
  <title>etéreo</title>
  <author>Queirosiana</author>
  <link>http://umminutodehistorias.blogs.sapo.pt/7558.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Ultimamente tenho pensado muito na morte. Nessa entidade assustadora, estranha, incógnita. Tal pensamento, desperta em mim um medo animal que remonta aos primórdios da humanidade - dando-me ao menos o conforto de saber que não sou a única, de que não sou só eu a definhar pelo terror do vazio. Muitos antes de mim o fizeram, muitos antes de mim se questionaram.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Como não acredito na dicotomia Céu-Inferno, muito embora acredite em Deus, mas sem temor ou crença cega e beata, tive de criar a minha versão do Além, para que o medo diminua, para que o breu da noite não me entorpeça a alma. &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Então sei que quando morremos, quando cessamos de existir neste corpo, neste molde em que nos colocaram, vamos para o nosso Paraíso pela mão de alguém que amamos e que partiu antes de nós. E vamos, serenamente, de mão dada pelo etéreo, felizes, em paz. Por fim, com todo o tempo do mundo, com todos aqueles minutos que não se viveram por medo, tacanhez, vergonha, timidez e incerteza. Nesse eterno, teremos tempo para o que não tivemos.&lt;/p&gt;</description>
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  <category>crónicas</category>
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  <pubDate>Wed, 05 Dec 2012 22:24:31 GMT</pubDate>
  <title>limbo</title>
  <author>Queirosiana</author>
  <link>http://umminutodehistorias.blogs.sapo.pt/6009.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Vagueio neste limbo de incerteza, de dúvida e cansaço. Sinto falta de tudo e de tudo tenho medo. Tropeço no caminho, mas ainda me levanto. Até quando? Por vezes, sinto um deslumbramento dentro de mim. Prende-me e funde-me nele, sem que queira, sem que saiba, sem que resista. É maravilhoso, inspirador, feliz... mas é falso, tal como o nosso reflexo no espelho que nos distorce as qualidades e acentua os defeitos.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A minha consciência é terrível e debate-se comigo a todo o momento, entra na batalha e fere-me até à morte. Julga-se detentora da verdade e destrói-me a espontaneidade, a alegria do momento, o bater impulsivo do coração, o sabor doce na alma. Faz-me sentir ridícula perante os meus próprios sentimentos - exige-me a excelência e como serva obediente, sigo sem questionar, pernoitando, por vezes, noutros caminhos que não o meu, mas regressando sempre àquela linha, àquele fio condutor que me obriga à tentativa da perfeição. Sinto-me, a toda a hora, num risco iminente. O terror de falhar, de errar absorve-me. Mas depois, vem-me esta vontade de não fazer nada, de deixar andar, de ver no que dá. E novamente, morro às mãos da minha consciência que me aterroriza de dor e culpa.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Por tudo isto, coloco o mais fabuloso sorriso nos lábios, iludo a angústia com ironias, sarcasmo e alguma maledicência saudável, digo a brincar o que desejo dizer a sério, e nesta sensaboria divirto-me muito, rio-me muito, iludo-me muito e cinjo-me ao meu egoísmo e à minha suposta felicidade. Mas isso, é algo que faz parte de mim e que não consigo evitar... não é defeito, é feitio.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Mas no fim do dia, considero-me feliz, apesar de tudo. Conformo-me comigo mesma, abdico do que é necessário e persigo o que é essencial. Perco muitas coisas pelo caminho, cometo muitos erros que são um insulto à minha personalidade, mas ainda estou a aprender, como disse no início, ainda vou tropeçando muitas vezes no percurso, desequilibro-me, seguro-me às pedras e tento evitar a queda, mas nem sempre consigo e às vezes, preciso mesmo de cair para ver a realidade, para me reduzir à minha insignificância, para tirar dos holofotes o meu monstruoso ego, para assumir culpas e erros, para me arrepender, para poder pedir perdão, para poder agradecer...&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Sim, às vezes preciso de descer do meu pedestal de ouro, mas às vezes, também o tenho de subir novamente. E enquanto desço ou subo, vejo-me neste limbo, onde perco as minhas certezas, os meus dogmas sem os quais não consigo avançar, e aqui, neste meio-termo, questiono tudo e muitas vezes, é onde melhor me reconheço.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: x-small;&quot;&gt;Escrito originalmente a 1 de Maio 2010&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <category>crónicas</category>
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  <pubDate>Tue, 04 Dec 2012 18:00:16 GMT</pubDate>
  <title>fraternos</title>
  <author>Queirosiana</author>
  <link>http://umminutodehistorias.blogs.sapo.pt/5843.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Quando crescer quero uma família grande. Cheia de tios e primos, de irmãos e cunhadas, de avós e bisavós, mesmo até com parentes afastados que me dizem que são filhos daquela prima que emigrou para o Brasil em mil novecentos e troca o passo. Cheia de gente às turras a competir pela melhor cadeira da sala na noite de Natal, ou pelo melhor assento à mesa na passagem de ano. Barulho, muito barulho numa casa pequena para tantas pessoas, gente aos encontrões nos corredores, estreitos demais para os abarcar. Gente, muita gente. Gente que só verei uma vez por ano. Mas não importa, gente, muita gente, como nunca tive.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Vivi sempre a dois. A minha família são dois, às vezes, três, outras vezes quatro - mas no fundo, naquilo que importa, e quando importa, somos dois - sempre dois. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Sou uma de três filhos. À partida, a minha família poderia ser integrada no rótulo de “família numerosa”, mas não. Nasci quase vinte anos depois dos meus irmãos e por isso, é quase como se nunca os tivesse tido. Coloquei-os num limbo entre a figura paterna e a figura fraterna, sempre confusa. Não cresci na guerra constante  pela atenção dos pais. Não partilhei segredos ou brincadeiras. Não trouxe cães vadios para casa. Não brinquei aos walkie-talkies no cimo de uma casa na árvore. Não tive índios nem cowboys ou polícias e ladrões. Não, não nada.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;As circunstâncias da vida nunca me colmataram essa falta, trazendo-me amizades cúmplices, singulares, quotidianas, fraternais. Vivi sempre longe de tudo isso e quando pude, não me envolvi. Talvez seja por isso que tenha criado este estranho hábito de falar para o vazio. Tomem-me por doida se quiserem. Pode ser que o seja!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Às vezes gostava de ter tido aquela coragem a dobrar que nos dão os irmãos e ter posto rãs na banheira e sapos na chaleira, ver as tias em prantos e a avó aos berros e eu a rir numa terna cumplicidade com esse ser que dormiria na cama de cima do beliche atirando-me com a almofada a meio da noite, que se sentaria ao meu lado às refeições, cujo menu não dispensaria caneladas, cotoveladas e miolo de pão atirado pelo ar em bolinhas, acertando em cheio no queixo distraído do meu pai. Sim, gostava de ter no mundo outro ser que partilhasse comigo a infância em família, partilhasse o mesmo sal das agruras da vida, conhecesse ao pormenor a intimidade da casa, e acima de tudo, me acompanhasse na vida, quando esses seres que nos geraram, já cá não estivessem. Esses seres, que os pais nos deixam no mundo para que não estejamos sozinhos. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</description>
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  <category>crónicas</category>
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  <pubDate>Sat, 01 Dec 2012 11:46:41 GMT</pubDate>
  <title>lágrimas</title>
  <author>Queirosiana</author>
  <link>http://umminutodehistorias.blogs.sapo.pt/3365.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;As árvores também choram.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Oiço os seus lamentos ao vento.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Paro no centro da clareira só para as escutar.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Fico quieta, paralisada,&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;agarrada ao meu cachecol, em silêncio.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Atenta.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Lamuriosas e cambaleantes,&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;são assim as árvores no Outono.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Lá no cimo choram em murmúrio,&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;frenético e incessante.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Calmo.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Parada ali, recebo aos meus pés as suas lágrimas.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Talvez a dor da sua inércia e intemporalidade.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Quando as árvores choram,&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;as suas lágrimas convertem-se em folhas&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;secas e castanhas, sem vida.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Como são tristes as árvores no Outono...&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;vivem num perpétuo adeus,&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;numa perpétua despedida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</description>
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  <category>poemas</category>
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  <pubDate>Thu, 29 Nov 2012 22:22:26 GMT</pubDate>
  <title>wendy and lucy</title>
  <author>Queirosiana</author>
  <link>http://umminutodehistorias.blogs.sapo.pt/4714.html</link>
  <description>&lt;p&gt;- Está-se tão bem aqui Lou.&lt;br /&gt;- O senhor foi tão simpático.&lt;br /&gt;- Tens um belo jardim.&lt;br /&gt;- Desculpa Lou.&lt;br /&gt;- Fiquei sem o carro.&lt;br /&gt;- Porta-te bem.&lt;br /&gt;- Eu volto.&lt;br /&gt;- Vou fazer algum dinheiro e depois volto.&lt;br /&gt;- Porta-te bem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Wendy and Lucy 2008&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;iframe src=&quot;http://www.dailymotion.com/embed/video/xvbi06?theme=slayer&amp;foreground=%23FF0000&amp;highlight=%23FFFFFF&amp;background=%23000000&amp;logo=0&amp;hideInfos=1&quot; width=&quot;320&quot; height=&quot;199&quot; frameborder=&quot;0&quot; style=&quot;display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;&quot;&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <category>filmes</category>
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  <pubDate>Tue, 27 Nov 2012 20:45:49 GMT</pubDate>
  <title>quando as palavras morrem</title>
  <author>Queirosiana</author>
  <link>http://umminutodehistorias.blogs.sapo.pt/3267.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Quando as palavras morrem&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;sentimos-lhes o cheiro.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Não lhes vemos a dor.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Percebemos no fim,&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;que as destroçámos&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;e que aos poucos&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;foram perdendo sílabas, letras,&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;uso e significado.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;É quando perdem o significado que elas perecem.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Morrem no nosso coração.&lt;/p&gt;</description>
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  <category>poemas</category>
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  <pubDate>Mon, 26 Nov 2012 22:23:04 GMT</pubDate>
  <title>dispersos</title>
  <author>Queirosiana</author>
  <link>http://umminutodehistorias.blogs.sapo.pt/5504.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Não conheço todas as formas de amor. Ainda não me foi dado esse conhecimento. Mas tenho a sorte de conhecer pelo menos uma e também essa me tira a respiração.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Às vezes penso quão bom seria se bastasse amar alguém para a ter do nosso lado...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: x-small;&quot;&gt;Originalmente publicado a 23 de Outubro de 2010&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <category>dispersos</category>
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  <pubDate>Mon, 26 Nov 2012 20:54:49 GMT</pubDate>
  <title>&quot;but i miss you most of all when autumn leaves start to fall&quot;</title>
  <author>Queirosiana</author>
  <link>http://umminutodehistorias.blogs.sapo.pt/4016.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;iframe src=&quot;http://www.dailymotion.com/embed/video/xd75ax?theme=slayer&amp;foreground=%23FF0000&amp;highlight=%23FFFFFF&amp;background=%23000000&amp;logo=0&amp;hideInfos=1&quot; width=&quot;320&quot; height=&quot;184&quot; frameborder=&quot;0&quot; style=&quot;display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;&quot;&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Autumn Leaves, Eva Cassidy&lt;/p&gt;</description>
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  <category>musicas</category>
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  <pubDate>Mon, 26 Nov 2012 15:54:17 GMT</pubDate>
  <title>&quot;a million feet of wire to get them where they are today&quot;</title>
  <author>Queirosiana</author>
  <link>http://umminutodehistorias.blogs.sapo.pt/5295.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&quot;- Sorry about how everything&apos;s worked out, Dad.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- It&apos;s not your fault.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- I&apos;ve been thinking about what I wanna do when I grow up.&lt;br /&gt;- Yeah? And what did you decide?&lt;br /&gt;- I might still be an artist or I might just do a normal job, like a painter.&lt;br /&gt;- I&apos;d be proud of you no matter what you did.&lt;br /&gt;- Really?&lt;br /&gt;- Really.&lt;br /&gt;- I told Mom I wouldn&apos;t be long.&lt;br /&gt;- Give her my love.&lt;br /&gt;- I will&lt;br /&gt;- Well, I&apos;ll see you, Dad.&lt;br /&gt;- David?&lt;br /&gt;- Hmm?&lt;br /&gt;- I&apos;m sorry.&lt;br /&gt;- It&apos;s not your fault, Dad.&quot;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Everybody&apos;s Fine, 2009&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;iframe src=&quot;http://www.dailymotion.com/embed/video/xsw15j?theme=slayer&amp;foreground=%23FF0000&amp;highlight=%23FFFFFF&amp;background=%23000000&amp;logo=0&quot; width=&quot;320&quot; height=&quot;180&quot; frameborder=&quot;0&quot; style=&quot;display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;&quot;&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <category>filmes</category>
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  <pubDate>Sun, 25 Nov 2012 15:26:39 GMT</pubDate>
  <title>&quot;in that day her whole life&quot;</title>
  <author>Queirosiana</author>
  <link>http://umminutodehistorias.blogs.sapo.pt/4972.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&quot;I remember one morning getting up at dawn, there was such a sense of possibility. You know, that feeling? And I remember thinking to myself: So, this is the beginning of happiness. This is where it starts. And of course there will always be more. It never occurred to me it wasn&apos;t the beginning. It was happiness. It was the moment. Right then. &quot;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;The Hours, 2002&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;iframe src=&quot;http://www.dailymotion.com/embed/video/xbs4v2?theme=slayer&amp;foreground=%23FF0000&amp;highlight=%23FFFFFF&amp;background=%23000000&amp;logo=0&amp;hideInfos=1&quot; width=&quot;320&quot; height=&quot;184&quot; frameborder=&quot;0&quot; style=&quot;display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;&quot;&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <category>filmes</category>
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  <pubDate>Sun, 25 Nov 2012 08:34:29 GMT</pubDate>
  <title>poema inútil (2)</title>
  <author>Queirosiana</author>
  <link>http://umminutodehistorias.blogs.sapo.pt/2830.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Esqueçam-me!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Libertem-me das vossas memórias.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Larguem-me!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Não sou ninguém que se queira recordar.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Esqueçam-me!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Apaguem-me das vossas mentes.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Não possuo identidade.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Não me conhecem,&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;nunca me conheceram!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Soltem-me!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Desprendam-me dos vossos sentidos.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Abandonei-vos há muito&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Por isso, esqueçam-me!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Não quero palavras, não mas atirem!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Elas nada explicam.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Não quero recordações, não mas lembrem!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Elas nada contam.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Não quero opiniões, frases incompletas,&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;gestos sentidos, abraços ou sorrisos!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Não quero pensar, recordar ou sentir!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Não quero nada...&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Esqueçam-me ...&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Dêem-me indiferença, isso sim.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Só vos peço que não me reconheçam.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Passem-me ao lado,&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;não me olhem, não me julguem.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Sou invisível.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Esqueçam-me,&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;que eu já vos esqueci.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Encontrei a libertação - já não penso. Sou inútil!&lt;/p&gt;</description>
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  <category>poemas</category>
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  <pubDate>Fri, 23 Nov 2012 21:08:13 GMT</pubDate>
  <title>leitaria império</title>
  <author>Queirosiana</author>
  <link>http://umminutodehistorias.blogs.sapo.pt/4111.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Numa sexta-feira, já à última da hora – como quase sempre – o meu pai lembrou-se de jogar no euromilhões. Tinha vindo da universidade há pouco tempo e já estava confortavelmente aconchegada na minha indumentária caseira quando, fortemente contrariada, abdico desse conforto doméstico e retorno a essa selva urbana – a rua. Chovia muito nesse dia. E porque, tanto eu como o meu pai, partilhamos o gene da distração e desorganização – em situações de aperto ficamos ligeiramente atarantados até nos reconciliarmos com a realidade. E estávamos nisto, enquanto, numa profunda indecisão – num cruzamento com pouco trânsito – nos decidíamos em ir para a direita ou para a esquerda. Optámos pela esquerda, como quase sempre em tudo.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Chegados à urbanidade – afastados do bucólico cenário em que vivemos – demos por nós, novamente, sem saber para onde ir. Onde é que se podia jogar no euromilhões? Não sabíamos. Éramos estrangeiros no meio, recém-chegados à terra, desconhecíamos os meandros da vila e, sem guia de instruções, sem um único manual de sobrevivência, fomos palmilhando a dita em busca de um qualquer sinal indicativo de que “ali” existia um balcão do euromilhões. Não andámos muito. Umas quantas voltas ao largo da Igreja, à Câmara Municipal, à estação dos correios, à farmácia de serviço e agência de um qualquer banco, e pronto, lá demos com o sinalzinho redondo do trevo verde e vermelho do euromilhões em cima da porta de um estabelecimento chamado “Leitaria Império”. As 19 horas estavam quase aí, desesperados e molhados, entramos de rompante, porta dentro sem hesitações.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Por momentos, senti-me transportada para outro universo. O café estava vazio. O único sinal de existência moderna era uma televisão bem no alto da parede. De resto, facilmente julgaria ter sido teletransportada para os anos 40/50, influenciada pela radiofonia que estava ao fundo do balcão, pela caixa-registadora digna de um museu, pelo telefone de disco, pelas caixas de latão que enfeitavam as poeirentas estantes da parede, pelo calendário esquecido no tempo pendurado mesmo atrás do balcão, pelas mesas e cadeiras, gastas e antigas, pelo chão de azulejo verde. O balcão, estava vazio de gente e de produtos. Espantada, surpresa, intrigada, olhava para o meu pai, que em nada parecia menos do que eu. O meu pai entabulou um “boa tarde” na sua voz sonante e alta. Um senhor idoso, surgido do nada, vindo – pareceu-me a mim – da parede,  cumprimenta-nos delicada e educadamente. O meu pai fala muito, não se bastou com a mera conversa de circunstância sobre o euromilhões, e o seu interlocutor não era menos conversador. Dentro de poucos minutos já o meu pai falava de um avô que vivera ali na vila, um avô tão velho, tão velho, que nem ele o conhecera, ou que apenas vira uma vez. O senhor detrás do balcão, perguntou ao meu pai o nome desse seu avô. Vicente, respondeu-lhe. – Oh sim! Lembro-me bem! E da mulher também. &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Ficámos incrédulos, estarrecidos, eu e o meu pai. À vinda para casa, depois de duas horas bem passadas a recordar o passado, eufóricos com a descoberta, pois o senhor do balcão indicou-nos a casa onde o meu bisavô morara. Porém, do dia seguinte, quando fomos em busca de semelhante edifício, não o encontrámos... procurámos, procurámos, vila acima, vila abaixo, mas nada. Da leitaria nem sinal. O meu pai julgou, pela nossa inexperiência e desconhecimento da vila, que já não sabíamos o caminho para lá chegar. Eu, contudo, fico-me na minha, e sei que naquele dia viajámos no tempo, para uma altura em que colocar gramofones nos ramos das laranjeiras para ouvir música no quintal era possível – aliás, reza a lenda que com o avô Vicente tudo era possível! Nesse dia ganhámos um euromilhões. &lt;/p&gt;</description>
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  <category>crónicas</category>
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  <pubDate>Fri, 23 Nov 2012 20:47:57 GMT</pubDate>
  <title>infância</title>
  <author>Queirosiana</author>
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  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&quot;Sempre que vou jantar a casa dos meus pais, saio de lá com a infância atravessada (...) A infância atravessada é pior que uma espinha: a gente engole bolas de pão e não passa. (...) Se calhar é sempre noite quando a gente cresce. Fico no automóvel à espera que a minha mãe me chame e sabendo que não me chama porque julga que me fui embora. Realmente fui-me embora. Para sempre.&quot;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;António Lobo Antunes, &quot;Livro de Crónicas&quot; - António João Pedro Miguel Nuno Manuel&lt;/p&gt;</description>
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  <category>livros</category>
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  <pubDate>Fri, 23 Nov 2012 19:11:48 GMT</pubDate>
  <title>&quot;beauty need only be a whisper&quot;</title>
  <author>Queirosiana</author>
  <link>http://umminutodehistorias.blogs.sapo.pt/3642.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;iframe src=&quot;http://www.dailymotion.com/embed/video/x2bu96?theme=slayer&amp;foreground=%23FF0000&amp;highlight=%23FFFFFF&amp;background=%23000000&amp;logo=0&amp;hideInfos=1&quot; width=&quot;228&quot; height=&quot;160&quot; style=&quot;display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;&quot;&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&quot;i cried for you&quot;, katie melua&lt;/p&gt;</description>
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  <category>musicas</category>
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  <pubDate>Thu, 22 Nov 2012 12:20:16 GMT</pubDate>
  <title>pequenina</title>
  <author>Queirosiana</author>
  <link>http://umminutodehistorias.blogs.sapo.pt/2352.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Os teus olhos brilhavam, reluziam como estrelas. Que inveja senti dessa tua alegria. Ia para um exame nesse dia. Estava imersa num sonambulismo inerte, relembrando mentalmente toda a matéria. A água com gás à minha frente, há muito que perdera essa característica. Pode parecer ridículo ou digno de um filme trágico-cómico, mas acordei para a realidade no momento em que uma bola voou até à minna cabeça. Acordei. Levei a mão à cabeça como que a averiguar os danos causados e uma mãe muito preocupada veio em meu socorro a desculpar-se pela (má) pontaria do pequeno que corria atrás dela de mão dada. Sorri. Certifiquei-a de que estava tudo bem comigo.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A Sra. E. era enfermeira, daí a sua solicitude em me agarrar na cabeça para confirmar o meu grau de normalidade. O pequeno pediu desculpa, muito corado, com a bola muito apertada contra o peito, talvez com medo de que outra catástrofe sucedesse se a largasse. Olhei para o relógio, ainda faltava uma hora.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A Sra. E. e o pequeno, sentaram-se numa mesa. O pequeno estava irrequieto, não sabia onde colocar a bola sem que esta começasse a rolar pela rua fora. A Sra. E. olhava freneticamente o relógio, supus que esperasse alguém. Vieram muitos cafés, um gelado e um sumo. Faltava meia-hora, tinha de ir andando, o Arco de Almedina, as Escadinhas do Quebra Costas e o caminho até à Faculdade pela Sé Velha ainda estavam pela frente. No momento em que me ia embora, um homem todo engravatado, o Sr. E., aproximou-se da vossa mesa. O pequeno saltou-lhe para os braços, radiante, possuido por uma felicidade imensa por estar abraçado ao seu herói. Senti inveja, da forma mais egoísta possível. Fui embora a sorrir.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Quando cheguei a casa, depois do exame, vivenciei essa mesma alegria inebriante, ao entrar, abracei o meu pai, que me perguntou &quot;então, correu tudo bem na escola?&quot;, tal e qual como fazia quando eu vinha da escola aos seis, dez, catorze, dezasseis... como se o tempo nunca passasse, e aos seus olhos, eu fosse sempre aquela pequenina que se aninhava no espaço mais minusculo do sofá para estar perto dele.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: x-small;&quot;&gt;Originalmente publicado a 2 de Julho 2010&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt; &lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;</description>
  <comments>http://umminutodehistorias.blogs.sapo.pt/2352.html</comments>
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  <category>crónicas</category>
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