<?xml version='1.0' encoding='utf-8' ?>

<rss version='2.0' xmlns:lj='http://www.livejournal.org/rss/lj/1.0/'>
<channel>
  <title>Blogs do SAPO - POSTS</title>
  <lastBuildDate>Wed, 08 May 2013 20:35:15 GMT</lastBuildDate>
  <description>Posts dos perfis que alpha girl - SAPO Blogs segue</description>
  <link>http://blogs.sapo.pt/feedpostsAmigos.bml?user=exclusivo</link>
  <generator>LiveJournal / SAPO Blogs</generator>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>http://osdiasuteis.blogs.sapo.pt/630643.html</guid>
  <pubDate>Wed, 08 May 2013 20:35:15 GMT</pubDate>
  <title>Muito mais que dois grandes amigos, pai e filho talvez</title>
  <author>PR</author>  <link>http://osdiasuteis.blogs.sapo.pt/630643.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Não sei se existe um Céu. Ou um sítio qualquer com outro nome, para onde se vai, depois. A existir, confio que terá, ao menos, &lt;em&gt;wireless&lt;/em&gt;. Assim sendo, espero que possas ler isto, meu Pai. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Hoje o &lt;em&gt;iPod&lt;/em&gt; esbofeteou-me com aquela música do razoavelmente foleiro Fábio Jr, a canção &quot;Pai Herói&quot;. E como sempre, quando isso acontece, fui-me abaixo.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;É incrível como perdoamos e nos perdoamos, com o tempo. Não perdoei (falha minha, até porque perdoar ou não é miseravelmente igual) a tua violência com a mãe, mas desconto, à distância, vendo-te hoje, daqui, tão humano, tão afinal de contas aflito e frustrado...saiu-te tudo ao contrário não foi? Foste cruel, tantas vezes. Tonto, quase sempre.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Percebo hoje que sim, é possível sentir saudades do que não se teve, e saudades de ainda ir a tempo de fazer a nossa parte toda, para que tudo fosse melhor. Ou só diferente, que a esperança é uma forma de ingenuidade sonhadora, muitas vezes contra todas as evidências em contrário. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Sabes? Na segunda-feira queria ter-te tido ao meu lado na bancada. Não para me dares alento a mim, mas para eu te acalmar o teu ataque de fúria. E dizer-te que ainda nada estava perdido, tem calma; agora seria eu assumir um tom paternal, parece que é a ordem natural das coisas, acabarmos pais dos nossos pais. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Por estes dias queria contar-te da Maria e os dentes a romper. Do Gonçalo e a prova de português que correu bem. A primeira comunhão da Mafalda. Tudo o que aconteceu e tudo o que está a acontecer na minha vida. Os dias em que o chão me foge. Perguntar-te: &quot;O que é que eu hei-de fazer, papá?&quot;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Sei que não eras o Pai ideal para eu perguntar, e muito menos para me responder a resposta boa, aquela resposta que faz sentido e ilumina o caminho. Mas não tive outro pai, só tu. Não tenho ilusões. Hoje a música tocou, e chorei de novo. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt; &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;Pai, eu cresci e não houve outro jeito&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Quero só recostar no teu peito&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Pra pedir pra você ir lá em casa &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;E brincar de vovô com meu filho&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;No tapete da sala de estar&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Pai, você foi meu herói, meu bandido&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Hoje é mais muito mais que um amigo&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Nem você nem ninguém tá sozinho &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Você faz parte desse caminho &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Que hoje eu sigo em paz&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Nem percebo muito bem porque mexe tanto comigo, tendo em conta aquilo que fomos um para o outro, enquanto cá andaste. Quando me despedi de ti, naquela sala dos cuidados intensivos daquele hospital em Coimbra, onde todas aquelas pessoas de bata eram figurantes fantasmas e só lá estava eu e tu, e tu eras ali o avó, igual a ele, velho, velho velho, nunca mais me vou esquecer, tão velho me pareceste, tão &lt;em&gt;frágilzinho&lt;/em&gt;, tão criança perdida, aflita. Não sei se me sentiste. Não falámos, estavas sob o efeito dos medicamentos e da vida toda vivida e não cumprida, e tudo isso se misturava ali, na forma de uns sons que não chegavam a ser palavras, não falámos, não sei se percebeste que o teu filho Pedro estava ali. O único dos teus três filhos que foi lá despedir-se, sim, porque eu sabia bem que era a última vez que te via com vida, uma vida fininha e frágil, a esgotar-se como a areia numa ampulheta, o tempo está a contar, pai, estás a ouvir, vim saber de ti? perguntei, sem resposta.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Queria que no dia 15 pudéssemos ir os dois ver a Final. Lembras-te quando saí da Luz em lágrimas por causa do golo do cabrão do Lozano? E tu me disseste, enquanto passávamos junto do fogo preso, que preso e apagado ficou e que estava montado naquele placar do totobola, topo sul da antiga e eterna Luz? &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&quot;Eles é que ganham milhões e tu é que estás para aí a chorar?&quot;. Hoje percebo que eras tu a não querer desatar a chorar, querias tanto ver o Benfica ganhar uma final, e que eu visse como tu tinhas visto antes, há tanto tempo. Mas nunca deixarias cair a tua capa de super fanfarrão. Digo-o sorrindo, para que saibas.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Queria levar-te a Amesterdão. Queria que tivesses conseguido falar, que tivesses conseguido ser melhor pessoa, e que eu tivesse ajudado. Pai eu fui lá, eu quis saber. Foi para meu conforto ou para o teu? Lembras-te das vezes que te levei comida, e tu sozinho em casa, dias a fio sem sair? A vida tão escura, os dias feitos de ressentimento e raiva já meia balhelhas. E lembras-te das pouquíssimas vezes em que até parecia que éramos possíveis, pai e filho, em bom?&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt; &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;Pai, me perdoa essa insegurança&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;É que eu não sou mais aquela criança&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Que um dia morrendo de medo&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Nos teus braços você fez segredo&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Nos teus passos você foi mais eu&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt; &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Sabes, Papá, porque não me aguento, quando esta música toca? Esta semana, um vizinho meu amigo lembrou-me as palavras do padre Tolentino Mendonça, que diz que&lt;span&gt; &quot;&lt;em&gt;Somos mesquinhos, banais, egocêntricos, ressentidos. Se não tomamos consciência disso, não conseguimos a transformação. A primeira condição da transformação é a nudez. Ser capaz de contar a sua verdade&lt;/em&gt;.&quot; Quem me dera ter conseguido isso contigo. Termos conseguido isso um com o outro. A nossa verdade. Ele também diz isto: &quot;&lt;em&gt;Sermos nós próprios é percebermos o caminho da imperfeição. O que nos mata é essa perseguição da perfeição. Não temos de ser perfeitos. Temos de ser inteiros.&quot;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Gostava de ter falado contigo sobre isto. Podia ser que houvesse aí um caminho para nós. Que tivessemos conseguido o milagre de sermos ao menos inteiros, um para o outro.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Afinal fomos o que fomos, agora eu dou comigo a ouvir esta maldita música de uma novela antiga, do tempo antigo em que existias e eras horrível, e a pensar: não te conheci. Não deu. Mas tenho saudades tuas. Ou saudades de que existisses, pelo menos. E eu pudesse ter a ilusão ingénua de ser possível trocarmos umas ideias. Correu tudo mal, não foi? Tivéssemos tido nós a lucidez e a tenacidade para conseguirmos perceber, a tempo, aquilo que Dostoievski quereria dizer quando disse que &lt;span&gt;&quot;&lt;em&gt;a maior felicidade é quando a pessoa sabe porque é que é infeliz&lt;/em&gt;.&quot;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;span&gt;Não creio que tivesses chegado a perceber. Hoje, quando aquela música tocou, pensei assim: não foi naquele hospital, nem nas irreprimíveis lágrimas naquele gelado crematório em Rio de Mouro ou Rinchoa ou lá o que era aquele fim do mundo, nunca mais lá fui, nem conseguiria se quisesse. Foi hoje que fiz as pazes com a minha ideia de ti. Percebi porque fomos tão infelizes. E está tudo bem. Está tudo bem, papá. Ainda bem que tivemos esta conversa. Quando voltarmos a falar, vai correr bem, vai ser mesmo bom. Começaremos daí. E sim, vamos ganhar. &lt;/span&gt;Vamos sempre a tempo de ganhar tudo.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E seguimos o nosso caminho. Em paz.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt; &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;iframe src=&quot;http://www.youtube.com/embed/zgo8kX0EQyg&quot; width=&quot;420&quot; height=&quot;315&quot; frameborder=&quot;0&quot; style=&quot;display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;&quot;&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;/p&gt;</description>
</item>
</channel>
</rss>
