Sem ideias para escrever alguma coisa de jeito, desato a escrever coisas sem nexo, ao sabor do pensamento e que vou apagando de seguida com medo que alguém as veja e me julgue louca. Pensando melhor, talvez seja interessante o exercício de não apagar. A partir deste momento desisto de carregar no delete e vou deixar que a mente vagueie e passe aos dedos o que surgir. Coisa parva, estão já a pensar. Eu também acho mas até ter uma ideia decente fico-me pelas coisas parvas. Este exercio começa agora:
Tenho frio aqui sentada e não me apetece estar aqui onde estou. A janela que não abre aprisiona-me, sufoca-me, impede-me de viver. Pelo intervalo da persiana vejo o céu cinzento recortado por casas velhas. Acabou de passar um guarda-chuva. Não vejo a chuva cair mas sinto-a pelo frio que passa por debaixo da porta, pela cor escura que entra pela janela que não abre. Está um bom dia para ficar em casa no sofá. Gostava de voltar a ter tempo para ler. Como antes. Horas e horas a ler, por vezes até acabar o livro, mesmo que não jantasse ou jantasse de livro ao lado, mesmo que entrasse pela noite dentro, mesmo que só terminasse pela manhã. Lembro-me que quando era mais nova, antes de ser adulta, naquela fase em que se devora o mundo, eu devorava os livros. E era tão bom poder perder-me nas histórias que não eram a minha. Sempre tive essa capacidade de me embrenhar nas histórias, de quase as viver como as personagens. Era uma forma diferente de viajar pelo mundo e pelo tempo. Já fui ao passado assim. Já fui ao futuro. Já fui velha e já vivi no Cairo e já viajei no Expresso Siberiano.
Aqui só vejo gente que passa e cara triste. Já ninguém sorri para ninguém, nem sequer para si próprios.
Daqui a pouco vou lá fora. Preciso de respirar. Aproveito e tomo um café. Que seria de mim sem a cafeína? Também hei-de ir ver os livros expostos no supermercado. Já sei que não vou comprar. O mais certo é que nem tenha nenhum do meu agrado. Já raramente compro livros. Estão tão caros…
A janela continua ali.
Suspiro.
Que ideia esta de nos fecharem num escritório o dia todo…
Não sei quem a teve, mas mais valia que nesse dia tivesse estado como eu estou hoje, sem ideias!
Quando abri a porta e entrei na casa depois de tanto tempo ausente vi o silêncio pendurado nas paredes, por cima dos móveis e a atapetar o chão. Era um silêncio severo, grosseiro, perturbador.
Entrei na sala, olhei a estante coberta de livros que já não me lembrava que tinha e o silêncio também por lá estava.
Liguei a televisão que, provocadora, me lançou uma música frenética aos ouvidos. Mesmo assim o silêncio não se foi embora.
Tentei derrotar o silêncio com a velha aparelhagem. Pus a tocar um disco de vinil que tantas vezes ouvi mas a musica não estava lá, apenas o silêncio doloroso e desafiante.
Abri a janela e som das crianças a jogar à bola, a chamar uns pelos outros, a debitar gargalhadas por causa de conversas que eu não podia imaginar tentou entrar por ela mas nem assim o silêncio partiu de mim.
Nem os pássaros que chilreavam no ninho feito no beiral do prédio se faziam ouvir.
Senti-me doente. Senti que o silêncio tinha invadido o meu corpo, a minha mente e a minha vida inteira desde que te foste embora.
Era doloroso ver as nossas coisas silenciosas, quietas, abstratas.
Partiste e deixaste-me no meio do silêncio profundo da tua ausência.
Não vais voltar, bem sei…
Só não sei como hei-de fazer para voltar a ouvir a vida à minha volta.
Percorri a casa, peguei numa moldura onde estavas tu e eu numa fotografia a preto e branco, onde me abraçavas alegremente e quase pude ouvir a tua gargalhada poderosa no meu ouvido. Prestei mais atenção a ver se era de verdade mas nada… apenas o silêncio incómodo da casa vazia…
Anoiteceu. A casa na penumbra tornou-se pesada demais. O silêncio ensurdecedor estava a feri-me demasiado e não aguentei. Saí pela porta deixando-a aberta e corri para a rua vazia…
E corri. E corri. Corri até perder o fôlego e deixar-me cair na calçada humedecida pelo orvalho da noite.