JOÃO VILLARET - Actor , d(...)
publicado por Vítor Marceneiro às 2013-06-19 22:42:41
Mas Villaret tinha também um especial apreço pela revista, onde se estreou em 1941 para escândalo daqueles que não gostavam de ver misturas. Em 1947, Aníbal Nazaré, António Porto e Nelson de Barros escrevem-lhe o Fado Falado, que criou na revista 'Tá Bem ou Não 'Tá?, verdadeira peça de antologia da história da música e do teatro popular portugueses. Um recitativo sobre uma melodia de Fado onde a letra, que jogava habilmente com a mitologia do género, era não cantada mas verdadeiramente "representada" por Villaret, que assim juntou ao cânone da música portuguesa mais um clássico. Outros êxitos, como A Vida é um Corridinho de 1952, ou a célebre Procissão de 1955, se lhe juntariam, mas o Fado Falado ficou marcante.
Ficaram célebres, entre outras, a sua interpretação como declamador dos poemas:
O Pai Tirano, de António Lopes Ribeiro (1941), numa breve aparição, como pedinte mudo;
Inês de Castro, de Leitão de Barros (1945), onde representa Martin, o bobo;
Camões, de Leitão de Barros (1946);
Três Espelhos, de Ladislao Vadja (1947), onde representa o inspector;
Frei Luís de Sousa, de António Lopes Ribeiro (1950), no papel de criado;
O Primo Basílio, de António Lopes Ribeiro (1959).
Teve um irmão de seu nome Carlos Vilarett, que era pianista, e que o acompanhou muitas vezes em recitais. Carlos Vilarett, que eu cheguei a conhecer e ouvir tocar,era músico no “Dancing” Lua Nova, no Bairro Alto, mesmo ao lado do Luso, na Travessa da Queimada. Meu avô ia lá muitas vezes só para o ouvir, pois considerava-o um grande músico, e foi nessas idas que eu o conheci.
Fado triste
Fado negro das vielas,
Onde a noite quando passa
Leva mais tempo a passar.
Ouve-se a voz,
Voz inspirada de uma raça
Que Mundo em fora
Nos levou pelo azul do mar.
Se o fado se canta e chora
Também se pode falar.
Mãos doloridas
Na guitarra
Que desgarra
Dor bizarra.
Mãos insofridas,
Mãos plangentes,
Mãos frementes,
Impacientes.
Mãos carinhosas,
De desejo,
Sequiosas como um beijo.
Mãos de pecado,
Mãos de fado
A guitarra a afagar
Como a um corpo de mulher
Pró despir e pró beijar.
Mas um dia, Santo Deus, ele não veio;
Ela espera olhando a Lua.
Meu Deus, que sofrer aquele!
O luar bate nas casas,
O luar bate na rua,
Mas não marca,
Mas não marca a sombra dele.
Procura-o como doida...
E, ao voltar de uma esquina,
Viu ele acompanhado,
Com outra ao lado,
De braço dado,
Gingão, feliz, rufião,
Um ar fadista e bizarro,
Um cravo atrás da orelha
E preso à boca vermelha
O que resta dum cigarro.
Lume e cinza na viela
Ela vê; que homem aquele!
O lume no peito dela,
A cinza no olhar dele.
E então...
O ciúme chegou,
Como lume queimou
O seu peito a sangrar. Foi
Como vento que veio
Labareda a atear,
O amor a aumentar.
Foi
A visão infernal,
A imagem do mal
Que no bairro surgiu.
Foi
Um amor que jurou,
Que jurou e mentiu.
Corre em vertigem, num grito,
Direita ao maldito
Que a há-de perder;
Puxa a navalha:
"Canalha,
Não há quem te valha,
Tu tens de morrer!"
Há alarido na viela!
Que mulher aquela,
Que paixão a sua!
E cai um corpo, sangrando,
Nas pedras da rua.
Mãos carinhosas,
Generosas,
Que não conhecem rancor;
Mãos que o fado
Compreendem,
E entendem
Sua dor.
Mãos que não mentem
Quando sentem
Outras mãos
Prà acarinhar;
Mãos que brigam,
Que castigam...
Mas que sabem perdoar!
E pouco a pouco
O amor regressou
Como lume queimou
Essa vida infeliz.
Foi um amor que voltou
E a desgraça tocou
Para ser mais feliz.
Foi uma luz renascida,
Um sonho, uma vida
De novo a surgir.
Foi um amor que voltou,
Que voltou a sorrir!
Há gargalhadas no ar
E o Sol a vibrar
Tem gritos de cor.
Há alegria na viela
E em cada janela
Renasce uma flor!
Veio o perdão, e depois,
Felizes os dois
Lá vão lado a lado...
E digam lá
Se pode ou não
Falar-se o Fado!































