As Mentiras Que Te Vou Contando....
publicado por Marina Ricardo às 2013-05-23 00:17:29
perfil público
Nome
Carolina
Sexo
F
Localidade
Porto
Artistas / Bandas Favoritas
Jack Johnson, Florence&The Machine, Lady Gaga
Filmes Favoritos
Into the Wild, Avatar, Water for Elephants
Livros Favoritos
Água aos Elefantes, Crepúsculo, Trilogia Millenium
As Mentiras Que Te Vou Contando....
publicado por Marina Ricardo às 2013-05-23 00:17:29
A Marina é boa miúda. Tem cabelos longos, assim pelo meio das costas.
Tenta ser sempre simpática e ferve sem água. Tem sempre a resposta na ponta da língua. É cheia de silêncios e de confusão.
Tem uma personalidade do caraças e uma atitude que valha-me deus. É das duras - daqueles sapos que custam a engolir.
Gosta de escrever, de ler e de ver. É maluca por música – principalmente a dos corações alheios. Essa sim, deixa-a de sorriso na cara!
Quer tudo, por tudo, sem nada. É dela, não é de ninguém, não quer pertença.
A Marina é boa miúda. Cortou o cabelo e quer o mundo. Para ontem, que hoje já é tarde.
(A Marina)
Uma tentativa nobre de es(...)
publicado por Tiago Moreira Ramalho às 2013-05-22 23:45:24

Raquel Varela fixando a objectiva com olhar profundo.
Anda um espectro (há que fazer a apologia do cliché) pelo Portugal – o espectro da Raquel Varela. Diz que é doutora do ISCTE e percorre com alguma facilidade os meios de comunicação, poluindo-nos a mente simples com os seus devaneios complicados. Desta feita, a Doutora Varela (isto assim dá logo ares de Aerius e Paracetamol) foi amavelmente convidada pela Fátima Campos Ferreira para o grande debate da nação que é o Prós e Contras, consigo, todas as semanas. Lá no Prós e Contas, além da Doutora Varela, havia um rapagão com olho para o negócio que vende t-shirts para «países estranhos» como a Inglaterra (ninguém lhe perguntou a origem de tanta estranheza, para grande pesar deste vosso que vos escreve). Mal compreendeu a Doutora Varela que o rapaz não era um intelectual com vasta obra publicada no estrangeiro, mas sim um vil burguês, mandou que se interrompesse o bailado. Era importante, pelo menos para ela, esclarecer umas coisas. Então perguntou rapidamente ao Martim, tratando-o por tu, com uma proximidade que afronta, se por acaso as camisolinhas deles eram produzidas na China por gente a ganhar dois dólares por dia. O Martim disse que por acaso não, que era cá na terra, no nosso Portugal. Evidentemente, isso não bastava. A Doutora Varela lançou logo a questão importante: e os operários fabris, ganham salário mínimo? É que a organização do não-sei-quê diz que tal. O rapaz arrumou com o assunto e seguiu-se choradeira no blogue.
Agora que já alongámos o espírito e nos permitimos umas malandrices, vamos passar a proporcionar ao leitor curioso uma análise sólida e fundamentada da questão. Há três eixos (porque nós vemos a três dimensões – é importante para a compreensão da realidade) relevantes aqui. O primeiro prende-se com o valor do Martim Neves. O segundo prende-se com a razão da Raquel Varela. O terceiro prende-se com a desonestidade da Raquel Varela. Por partes. Um, dois...

Marie Antoinette.
Eu só sei do Martim Neves aquilo que as pessoas que viram o Prós e Contras sabem: é um miúdo de 16 anos que tinha uma coisa que gostava de fazer (desenhar trapinhos) e teve a ideia de arranjar ali uma ocupação, um negócio. Felizmente, e apesar da idade, teve algum sucesso. As roupas ganharam compradores, invadiram dois ou três mercados internacionais e o barquinho prospera. Diz que os estudos vão indo e, pelo que percebi, ainda patrocina um desportista qualquer. No topo de tudo, recorre a uma fábrica portuguesa para a confecção da mercadoria, mantendo tudo em família, como muito compete ao cidadão empenhado e patriota. O Martim, independente do que nos diga a história dos conflitos sociais, está a fazer, tudo leva a crer, algo de bom e de muito valor: investe numa ambição sua, não tem ar de explorar miseráveis e, à falta de prova em contrário, é respeitador da lei e da norma.
No que disse ao Martim Neves, Raquel Varela tem razão apenas numa coisa: o salário mínimo é baixo. Também é por isso que se chama salário mínimo – nunca, em momento algum o acharemos bom. Que se compare com facilidade o salário mínimo português com os dois dólares diários do sudeste asiático, já me parece um pedacinho desonesto, mas deixemos isso para o próximo parágrafo. O que é importante compreender é que o facto de ganhar um salário mínimo ser melhor que não ganhar salário nenhum não invalida que o valor seja baixo. A melhor hipótese nem sempre é uma boa hipótese, enfim. De qualquer forma, a discussão sobre o salário mínimo, ainda que importante, não foi pertinente. Mais não fosse por uma razão simples: é que na verdade ninguém ali tinha a capacidade de assegurar que quem produzia as tais roupinhas estava nessa situação. Mas de novo a terceira parte deste proveitoso artigo está a saltar-nos em frente. Dêmos-lhe, pois, espaço.

Bertrand Russel, enquanto assistia ao Prós e Contras.
A desonestidade de Raquel Varela no caso em questão é – utilizemos uma palavra catita – multidimensional. Torna-se inclusivamente difícil organizar o pensamento perante tudo isto. Para facilitar, vamos saltar por cima do tom acusatório com que lançou as perguntas. Vamos também contornar a insistência em dizer que são chineses a fazer a roupa, quando todos sabemos que foram portugueses. Vamos ainda esquecer que colocou quase no mesmo patamar os salários abaixo do limiar da pobreza e o salário mínimo português. Vamos apenas ao essencial: Raquel Varela questionou a moralidade da actividade profissional de Martim com base na possibilidade de haver, devido a ela, pessoas a receberem o salário mínimo. Isto, só assim, sequinho, sem comentários sobre as viagens e as bolsas de Raquel Varela, já nos chega para uma boa conversa. Ora vejamos. Em primeiro lugar, e porque isto é o mais simples, mais directo, mais singelo, é preciso dizer que o salário mínimo, ao existir, traz como consequência natural que algumas pessoas o recebam. Se ninguém recebesse o salário mínimo, isso significaria que o valor era tão baixo que nem os porcos exploradores o pagariam. O salário mínimo, digamos assim, está lá mesmo para «ser usado». Tem como objectivo vedar situações de exploração, entendendo-se, por isso, que pagá-lo não constitui exploração. Claro que podemos divergir quanto a isso, mas são as regras da sociedade. Se achamos que estão mal, devemos fazer-nos ouvir junto daqueles que as podem mudar e não junto daqueles que as aplicam. Espero que compreendam. Em segundo lugar, mesmo que se ache que o salário mínimo é pouco digno, não se pode atacar o Martim (ou qualquer pessoa na sua circunstância) por haver pessoas em fábricas a recebê-lo. O Martim muito provavelmente contratou um serviço a uma outra empresa e é nessa empresa que se fazem as negociações salariais. Considerar que o Martim (ou qualquer pessoa na sua circunstância) tem o dever de, antes de contratar a empresa, saber o que vai lá dentro é de uma alienação (palavras caras) tremenda. Porque neste caso poderá parecer até simples (ainda que não o seja necessariamente), generalizar este raciocínio tornaria a vida habitual impraticável. Antes de contratarmos uma operadora de telemóveis, teríamos de ler detalhados recibos de vencimento dos últimos anos. Para comprarmos um móvel, teríamos de descobrir quem recolheu a madeira, a trabalhou e transportou e saber, depois, se todos tinham tido condições de trabalho boas. Antes de comprarmos um bonito lenço como o que Raquel Varela usava durante o programa do serviço público, teríamos de saber se a lojista tinha um bom salário, e se a transportadora tinha uma boa política de férias e se a fábrica era portuguesa, ou chinesa, ou vietnamita. Por sabermos que tudo isto é impraticável, criamos leis e instituições – algo que Raquel Varela deverá saber, dado que é Doutora do ISCTE. E com base nessas leis e instituições vamos vivendo e deixando viver, arranjando maneiras mais ou menos eficazes de fazer cumprir o estabelecido. O Martim provavelmente nem sabe quanto ganham os trabalhadores na fábrica que ele contratou. Mas não tem de saber. Da mesma forma que a Raquel Varela não tem de saber quanto ganhou quem produziu o seu lindo lenço. Ainda assim, teria ficado bem a Fátima Campos Ferreira, excelsa moderadora, perguntar. A bem do serviço público. E viva a revolução.
As Mentiras Que Te Vou Contando....
publicado por Marina Ricardo às 2013-05-22 22:37:37
As Mentiras Que Te Vou Contando....
Jornalista de Supermercado #19
publicado por Marina Ricardo às 2013-05-21 23:57:29
Com o tempo aprendemos a relativizar as coisas. Os tipos de maçãs deixam de ser cruciais e se nos enganarmos somos capazes de -sozinhos, resolvermos o erro.
Sabemos códigos de cor e de como descontar os vales mais estranhos. Sabemos deixar o cliente feliz e a chefe descansada.
Estamos por nossa conta e cientes que há mais gente a tentar mandar em nós do que para fazer o nossa trabalho.
Vai haver sempre alguém que te vai dizer que o que estás a fazer está incorreto. Que não é assim, que é assado. E vais andar a fazer recados, no armazém, a carregar caixas e cestos e produtos e iogurtes rebentados e ovos podres.
Vai haver sempre alguém para te mandar fazer coisas - pouca gente para te ensinar.
É uma selva de gente maluca - uma selva boa, uma selva má. Depende do dia e da disposição. Depende sempre. O importante é relativizar tudo.

Há um do Borjas que se re(...)
publicado por Tiago Moreira Ramalho às 2013-05-21 19:42:34
Eu não sei quem é o Vítor Cunha, mas fazia-lhe bem a leitura de um manual simples de economia do trabalho. É que a gente pode ser muito liberal e assim, mas há que impedir assaltos da ignorância.
publicado por LostDreams às 2013-05-21 18:00:47
publicado por Tiago Moreira Ramalho às 2013-05-21 12:14:10
Ontem, depois do jantar e da dor de cabeça, botei-me no sofá a assistir, junto da família, à reportagem que Judite de Sousa, de gargalhada fácil e um pouco deslocada, fez sobre Álvaro Cunhal, ou a irmã de Álvaro Cunhal, ou a filha de Álvaro Cunhal – não sei. Judite, que aprovou uma bonita canção de Paulo Gonzo para banda sonora do trabalho jornalístico de fundo, contou-nos, sempre com alguma excitação, que Álvaro Cunhal era um pai extremoso. O seu grau de afecto (ou surplus américain, como diria o Cousin, que deixei ontem antes de dormir) tinha uma manifestação variada. Por exemplo, nove meses antes da filha Anita vir ao mundo, Cunhal, como será naturalmente compreendido pelas pessoas que tiveram a educação sexual, emprenhou a mãe (da Anita, entenda-se). As circunstâncias são de uma natureza quase digna de novela russa. Fugido da prisão de Peniche, Cunhal, com 47 anos, é albergado por um bravo defensor de um país patriótico e de esquerda. Passados dois meses, a filha do bravo defensor de um país patriótico e de esquerda, com 18 anos também ela uma brava defensora de um país patriótico e de esquerda, leva, como diria o Nelo da Idália, o pontapé nas costas (é esta a minha forma de cuidar o amor intergeracional; perdoe-me o leitor mais sensível). Depois disso, Cunhal assume o papel natural de pai revolucionário, vivendo longamente longe da filha, mas ainda assim gostando dela como, enfim, uma filha. Descobriu-se inclusivamente, após uma trabalhosa pesquisa nos arquivos, que foi Álvaro Cunhal quem assinou a ficha de inscrição da filha no Liceu Camões, algo impensável para um pai naquela altura (ou assim se depreende, dado o êxtase com que o facto é relatado a nós, fiel audiência dos programas noticiosos dos canais generalistas da televisão portuguesa). Pelo meio, surgem camaradas, médicos e, inopinadamente, Miguel Sousa Tavares, que nos relata um bonito episódio em que aconselhou a Cunhal a aquisição de saborosas meloas algarvias, pois isso do melão, só se sabe que está bom quando se abre. Um fandango catita, muito apropriado para um serão de segunda-feira, com as gargalhadas fáceis, ainda que levemente deslocadas, de Judite de Sousa. Na próxima semana haverá possivelmente um novo trabalho jornalístico de fundo mostrando como outras personalidades da história recente do Portugal desenvolvido desempenhavam, também elas, papéis invulgares e vanguardistas nos seios familiares. Saberemos como Mário Soares ensinou João Soares a andar de bicicleta, sorrindo largamente para as fotografias; ou como Cavaco Silva manejava a mangueira da bomba da gasolina de Boliqueime, enquanto o seu pai lhe dava severas, ainda que bondosas palavras de encorajamento; ou ainda como, no meio de todo aquele reboliço, Marcello Caetano arranjava tempo para ir aos aniversários do afilhado e, até, dar-lhe livrinhos da moda como prenda. O lado humano é fundamental.
publicado por Leonor às 2013-05-21 09:11:28

Havia uma prisão académica em pleno recinto da universidade de Coimbra, as celas eram pequenas, húmidas e feitas de pedra, num espaço subterrâneo, logo abaixo da sumptuosa e elegante biblioteca. A pedagogia era outra e os desacatos na sala de aula eram punidos com o esqueleto lançado aos calabouços e não como uma repreensão escrita, reuniões de pais, processos contra professores e outras cenas modernas. A informação está em mau português, lapsus linguae, creio, mas as celas não deixam grande margem para dúvidas quanto ao poder disciplinar aplicado.
publicado por outrosdias às 2013-05-21 08:00:46
que não me foi contada directamente mas em que eu fui a única pessoa a ter de abafar as gargalhadas:
- Nos meus tempos de estudante, durante a guerra do Golfo, dizia-se que havia Bagdad City, Bassora City e Apend City.
publicado por Yohanan às 2013-05-21 01:26:42
Vestuário não determina quem somos, somos nós que transparecemos com ele, é só um mero e tão inconscientemente importante instrumento que mostra parte de nós, ou todas elas, se soubermos quem somos e não formos tolos levados por meras tendências ditas, o que por hábito, costuma ser arduamente difícil, nem nós sabemos o quanto. acabando assim por ser fútil quem dita como moda coisa fútil, é claro que estamos perante alguém ignorante na matéria, e isto, para quem deste mundo não está dentro, eu compreendo que seja difícil de compreender, também o foi para mim, deixa lá, é preciso muito séculos lidos para compreender, muito séculos - deixa lá.
As Mentiras Que Te Vou Contando....
publicado por Marina Ricardo às 2013-05-21 00:37:52
As Mentiras Que Te Vou Contando....
publicado por Marina Ricardo às 2013-05-20 15:37:28
As Mentiras Que Te Vou Contando....
publicado por Marina Ricardo às 2013-05-20 12:57:12
Acho que, mais do que de carne, sou composta por palavras.
Letras, de diferentes fontes, formas e tamanhos distintos, escritas nas linhas do coração.
Saem-me pela pele, pelos olhos, pela boca. Palavras de diferentes significados e intensidades. Duras e suaves, perdidas, encontradas. Minhas.
Mais do que de sangue, sou composta por palavras – e, não posso contrariar isso, pois não?
publicado por outrosdias às 2013-05-20 08:00:34
Quando te peguei ao colo pela primeira vez, eras uma pequena bola de pelo castanho, ternurento e fofinho. Mal abrias os olhos e parecias imensamente indefeso. Escolhemo-nos mutuamente, acho. Ainda nos foi sugerido que trouxéssemos um irmão teu, de ar pachorrento e molengão, mas não quisemos. É verdade: foi-nos acenada a hipótese de termos um cão normal e preferimos ter-te a ti. Ignorámos o coração a bater desenfreado na palma da minha mão, um presságio do bicho agitado em que te virias a tornar; também fizemos orelhas moucas aos guinchos soluçantes que emitias, uma antevisão de todos os agudos que viriam a sair constantemente do mais ínfimo recanto da tua garganta canina. Eras tu e pronto.
Cometemos imensos erros na tua educação. Não te conseguimos habituar à presença de outros cães. Não te conseguimos habituar a andar de trela. Não te conseguimos habituar a caminhar ao nosso lado. Não te conseguimos habituar a não uivar durante a noite. Não te conseguimos habituar a não escavar buracos pelo quintal todo. Sabias as regras, apenas escolhias não as seguir. Na verdade, eras bicho para fazer o Dog Whisperer descabelar-se todo.
Uma vez saltaste por cima do muro para ir atrás não sei do quê. Pusemos uma rede mais alta. Voltaste a saltar. Pusemos uma rede ainda mais alta. Fizeste um buraco e voltaste a saltar. Era frequente tocarem-nos à campainha para nos avisarem que "O vosso cão anda na rua". Tinhas sempre que fazer do lado de fora da casa. Comer porcarias. Ir ladrar aos outros cães. Levantar a pata em todas as esquinas e pedras. Rebolar-te em coisas imundas. Uma alegria.
Noutra ocasião, aproveitaste um nanosegundo de distracção em que o portão se manteve aberto sem vigilância e saíste disparado. Logo por azar, naquele exacto momento, passou um carro na rua a uma velocidade pouco compatível com cães que saem disparados do meio do nada. Levaste uma pancada, ganiste, fizeste-nos pensar o pior. Mas quando fomos ver, já ias bem longe, a saltitar com as orelhas ao vento, extasiado com a sensação de liberdade.
Também nos ajudavas na jardinagem. Comias pêssegos podres directamente da árvore. Ias roer limões – que tinhas arrancado dos ramos - para os degraus da entrada. Abrias sulcos em busca de minhocas. Usavas a mangueira como aperitivo enquanto não te enchíamos o prato (este hábito, aliás, levou-te de emergência ao veterinário por teres ficado com os intestinos entupidos com o plástico que tinhas roído). E depois de teres descoberto os prazeres da coprofagia, a vida em casa nunca mais foi a mesma.
Em determinada altura, achámos que o teu problema era excesso de energia. Levámos-te à praia (na época baixa, obviamente) para correres à vontade. E como correste... principalmente atrás dos outros companheiros de quatro patas. Quando te colocámos novamente no carro, arranjaste forma de ladrar a todo e qualquer cão que se cruzasse connosco, de tal maneira que acabámos por ter uma matilha a perseguir-nos estrada fora. Eras um verdadeiro bullier e nunca te intimidaste com o facto dos outros terem o triplo do teu tamanho.
Ir contigo a qualquer lado era uma aventura e exigia comer previamente dois ou três bifes bem aviados. Não que fosses corpulento ou pesado, mas porque nos cansavas com os teus guinchos de excitação, com o frenesim da trela a puxar, com a sofreguidão de perseguir tudo o que se mexesse ou te parecesse minimamente interessante.
Dizem que os cães adaptam o seu comportamento ao estado de espírito dos seus donos; se eles estão tristes, o cão tenta consolá-los; se estão contentes, partilham dessa alegria. Tu estavas-te perfeitamente a borrifar. Estivesse eu como estivesse, rouca de tanto gargalhar ou com a vida a inundar-me por dentro e a transbordar-me pelos olhos, tu babavas-te para cima de mim como sempre, corrias e saltavas à minha volta como sempre, desafiavas-me com a bola como sempre, enchias-me de pelos como sempre.
Quando ficaste leishmanioso - e passado o choque inicial - interiorizei o facto de, mais tarde ou mais cedo, ficarmos sem ti. Tive apenas receio do processo até chegarmos a esse momento; tive receio que os rins ou o fígado falhassem, ou que sofresses um qualquer colapso súbito, ou que fossemos obrigados a correr a toda a hora para o veterinário, procurando mitigar-te o sofrimento.
Mas tal não aconteceu. Aguentaste-te heroicamente. Fizeste as medicações prescritas, as análises de controlo, a alimentação regrada. Não sei se foi por isso ou por pura sorte, mas demos a volta às sacanas das leishmanias. E o teu comportamento “exemplar” manteve-se genuinamente tresloucado até ao fim.
Foste um bom cão – um verdadeiro cão – e acho que fomos bons donos.
Quando nos dizem que para esquecer este devíamos arranjar já outro, eu penso por que raio de razão quereríamos nós fazê-lo. “Esquecer este” (esquecer-te!) seria esquecer os últimos doze anos de vida, da nossa vida-a-dois-mais-um-cão-de-olhos-amarelo
As Mentiras Que Te Vou Contando....
publicado por Marina Ricardo às 2013-05-19 22:57:24
Deram-me um fato novo. Vestiram-me de saudade.
publicado por Margarida às 2013-05-19 22:49:47
publicado por LostDreams às 2013-05-19 21:55:45
publicado por Margarida às 2013-05-19 18:28:18
As Mentiras Que Te Vou Contando....
publicado por Marina Ricardo às 2013-05-19 18:27:14
Abri um documento word e escrevi isto (sou uma causa perdida):
Ele era um rapaz magro, escanzelado, de cabelo demasiado grande para o formato da cabeça. Era irritante, o meu pior inimigo. O um melhor amigo. Amava-o sem saber – que estupidez, a minha...
Gostava de a ver corrigir os meus textos de português, algures entre o quinto e o sexto ano. Era adorável ver aquela ruguinha de concentração entre o seus olhos. Quando os meus erros eram um desafio ao seu intelecto ela bufava e punha o cabelo atras das orelhas. Como a amava e não sabia. Porra, como sinto saudades daquele cabelo cor de oiro…
Dois amigos de infância, que se separam na procura incessante de uma vida, sem perecem que a vida, o futuro e o amor sempre tinham estado com eles, um no outro.
Uma história escrita paralelamente, pelos dois, sem saberem que o outro escreve para eles, por eles.
Dois relatos de saudade, amor e lembranças, à distância - sempre à distência.

A Religião do meu ponto d(...)
publicado por Margarida às 2013-05-19 14:54:16
Como ateísta que sou, se há coisa que me faz confusão é as pedinchiches dos religiosos. Acredito que muitas das vezes não será mais do que hábito/cultura/expressões, mas meter Deus "ao barulho" por futebol? Por negócios? Por intrigas? Ou por um rol enorme de outros motivos banais?
Quantas vezes ouvimos "XYZ há-de acontecer, se Deus quiser!", "Deus está do nosso lado", ou ainda quando as coisas correm a feição dos pedidos: "Deus não dorme! Cada um tem o que merece".
Eu não acredito em Deus (em nenhum), mas acho que se acreditasse teria vergonha de fazer este tipo de pedidos. Incomodar algo tão grandioso, tão poderoso, com tantos problemas GRAVES neste Mundo para resolver por questão clubísticas (que no dia de hoje é o que mais se vê no facebook) ou outra coisa qualquer do mesmo valor?
Será que se esse Deus existe, não acabará por castigar essas pessoas que nele acreditam, que lhe rezam, que o veneram, e que o chateiam para que as cuscuvilhices da amiga da prima sejam descobertas, enquando ele está ocupado a preparar um milagre para salvar o filho do vizinho de uma doença terrível? Ou essas mesma pessoas acham que se forem a Fátima uma vez no ano e se lá se confessarem, os pecados serão absolvidos?
Será que por cada prece feita por um crente, um luz se acende num enorme painel como mapa mundo no escritório do "Criador"? E que essa luz varia consoante a intensidade do pedido? Como número de pedidos feitos para a mesma causa? Ou pela gravidade da situação? É que ser Deus também deve ser complicado, deve ser trabalho com muitas dores de cabeça. Agir primeiro para uma criança que reza por comida, ou agir perante milhões de pessoas que pedem simultaneamente a vitória do seu clube? E em casos de pedidos opostos de dois crentes para o mesmo caso, ele intercede por quem? Por quem tem mais razão ou por quem lhe reza mais?
Realmente não acredito em nada disto. Acredito "un petit peu" em sorte. Não em toda a sorte porque as coisas não caem do céu. Acho que grande parte da nossa sorte somos nós que a fazemos com o nosso trabalho, esforço e atitudes. Mas sim, de vez enquanto aparece algo de bom sem implicar o mínimo esforço. E contínuo sem acreditar que seja obra de Deus, porque se assim for, isso não é mais do que uma injustiça divina. Dar tanta coisa a quem não acredita nele, com tantos fieis a pedir-lhe não mais do que condições para sobrevivência.
Já tive longas conversas com crentes de verdade (não aqueles que acham que ser crente é ir à missa), e eles têm resposta para todas as minhas dúvidas. O meu problema continua a ser a ambiguidade dessas respostas. Por isso continuarei a ser ateísta até ver as minhas questões eliminadas com respostas lógicas, ou quem sabe, até ao dia em que o meu consciente achar que a fé deve ser superior à lógica. Afinal, ninguém sabe o dia de amanhã.
As Mentiras Que Te Vou Contando....
publicado por Marina Ricardo às 2013-05-19 02:00:35
“There is an end to every storm. Once all the trees have been uprooted, once all the houses have been ripped apart, the wind will hush, the clouds will part, the rain will stop. The sky will clear in an instant. And only then, in those quiet moments after the storm, do we learn, who was strong enough to survive it.”
Grey's Anatomy

publicado por Leonor às 2013-05-18 20:37:20

Porque a vida é, também ela, muitas vezes, um pouco bipolar, a precisar de drogas que adormeçam a fera e de emoções que a despertem das drogas e alguns tropeções e apostas múltiplas de alto risco que violam todas as regras das probabilidades mas que fazem todo o sentido quando se está naquele cenário que só nós é que vemos, um quadro pintado com as nossas cores e banda sonora que encontra o final improvável que nunca, mas nunca, havíamos desenhado no início. O filme é giro e não, não há guias para finais felizes, tudo se resume a meia dúzia de passos de dança!
