publicado por tutti às 2013-06-19 01:54:47
perfil público
narmy.
Seguir Perfil »publicado por DolceScrittora às 2013-06-17 14:47:14
Depois de duas horas a discursar sobre Wagner, Mozart e Richard Strauss, dou-me por alguns poucos raros dias de férias porque maiores preocupações se avizinham na estrada, literalmente, dedicando-me por agora a ouvir aquilo que o meu professor da cadeira designa por barulho de fundo (tudo o que seja música não clássica) e a pensar no que poderia ser mais gratificante para a minha vida. Acabarei a ler Saramago e a ver um filme que me vai deprimir para o resto da semana. I don't care, I love it! Eu podia ter negativa por isto.
publicado por Bolacha às 2013-06-17 12:37:07
Para responder às questões das duas pessoas e meia que se interessam no que eu estou a fazer para tornar a minha vida num pedaço de existência menos rudimentar do que aquilo que tem sido nas últimas duas décadas, eu podia continuar a contar a história de como a necessidade de concluir a minha licenciatura eterna de três anos que já vão em quatro se transformou no meu primeiro trabalho remunerado. A minha intenção, como boa filha que sou, era chular os meus progenitores durante os meses de Julho e Agosto – tal como chulei o Estado Português nos últimos dezasseis anos para obter a formação que me vai permitir descontar para a segurança social alemã. Nesses dois meses, tentaria passar despercebida num canto de um gabinete ou onde quer que ocupasse menos espaço, eu não sou desdobrável, como aquelas bicicletas engraçadas que alguns professores transportam pelos corredores da faculdade, mas contava que o meu potencial para a invisibilidade aumentasse com a redução de volume que dois meses sem ninguém que cozinhasse para mim iria provocar (e vai, esta merda é um axioma). Agarrada ao meu computador, ia absorvendo informação e olhando para máquinas novas e muito brilhantes para depois escrever sobre isso, usando palavras compridas, estrangeirismos coquetes e fórmulas obscenas, combinação que se quereria perfeita para mais de uma dúzia de créditos com nota generosa.
O grande corta-tesão da história é que eu não sei como é que isto aconteceu, devo ter adormecido com os pés para a cabeceira da cama, entrado numa espécie de twilight zone e no dia a seguir tinha um mail todo pimpão e em inglês cuidado com uma lista de documentos para colecionar, tipo pókemons. Já tenho uns quantos, apanhados entre a lezíria e os pastéis de nata e guardados na minha super pokébola, que é uma mica de plástico velha que eu encontrei no necrotério de disquetes cá de casa. Os mais difíceis esperam-me na hostilidade de uma terra estranha e pressupõem reuniões com pessoal dos recursos humanos, que consta não saberem falar inglês tão bem quanto o meu total desconhecimento da língua alemã desejaria. Tenho a certeza que vai ser um (dos muitos) episódio giro para contar; é verdade aquilo de que os meus dois leitores e meio desconfiam: este blogue vai transformar-se num diário de bordo para bem da minha sanidade.
publicado por Bolacha às 2013-06-16 19:07:49
Soube que ia passar o Verão a estagiar num instituto alemão na véspera do dia do pai. Era uma manhã pouco oportuna em que a minha cabeça tentava decorar pormenores irrelevantes para a minha busca pelo sentido da vida, mas de suma importância na obtenção de uma nota catita na frequência que ia fazer no dia seguinte. A manhã transformou-se rapidamente numa tarde ansiosa, com a minha figurinha nervosa a esperar a chegada da alma santa que me ia orientar no estágio. Quando cheguei a casa nessa segunda-feira, tardiamente e depois de quatro telefonemas e outras tantas mensagens excitadas, com o estudo de véspera de frequência condenado ao esquecimento, pus o meu avô a chorar.
Até há duas semanas, o momento em que vi as faces curtidas do meu velhote a contorcerem-se sob um par de lágrimas grossas tinha sido o único em que me apercebera do peso do meu currículo aceite. Nem quando, num sábado de manhã, fui acordada por uma mala de viagem nova, arremessada pelo meu pai da porta do quarto, senti que o momento da conversa com a minha coordenadora de estágio e as semanas que se estenderam após o encontro eram definitivamente meus, e não parte de uma história que eu gostaria de poder contar como minha. Na verdade, contar a notícia às pessoas alheava-me ainda mais da realidade, como se a informação posta em palavras tivesse cada vez menos significado à medida que era repetida.
Foi há duas semanas que fiz uma skype call com o meu futuro companheiro de casa, um alemão com muito ar disso, estudante de design de produto e que, contra os preconceitos com que vários velhos do restelo encheram a minha cabeça, foi muito simpático e achou que seria boa ideia passar o Verão a dividir a casa com uma estudante de engenharia portuguesa. Tinha comprado as viagens de avião poucos dias antes, a seguir a um treino no ginásio, aproveitando a altura em que estava demasiado cansada para processar a informação. Mas a conversa com o meu flatmate, acompanhada de uma tour da casa (pequena e central) foi de manhã, e quando terminou eu estava presa dentro de mim própria, num casulo de caracóis bem arrumados e maquilhagem cuidada: preparava-me para ir almoçar com uns amigos e não podia dar-me ao luxo de gastar tempo e máscara de pestanas a chorar encostada à parede do escritório.
Tenho andado neste estranho balanço desde aí. Não tenho tempo para pensar na forma como todo o entusiasmo de há três meses deu lugar a um estado de pânico mal disfarçado pelos trabalhos e exames que foram sendo feitos, todos com pouca vontade. Não me sinto minimamente preparada para apanhar o avião no dia 30 de Junho, mas diga-se que é um avião no qual eu nunca me vou sentir preparada para entrar a menos que me force a fazê-lo. A partir daí, somando duas horas com um lanchinho e múltiplos tempos de espera agarrada à fiel mochila castanha que transporta a minha vida em formato digital, a primeira tarefa será apanhar um comboio na bahnhof, que, aliás, é a única palavra em alemão que sei dizer.
Vem sentar-te comigo, Líd(...)
publicado por mel às 2013-06-16 18:17:21
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos)
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria
E sempre iria ter ao mar.
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o. (…)
Ricardo Reis aka Fernando Pessoa
________________________________________
A todas aquelas pessoas que vão ter exame de português amanha e que sentem que não estão, minimamente, preparadas: boa sorte!
publicado por tutti às 2013-06-16 14:24:50
publicado por Bolacha às 2013-06-15 23:35:02
A conservatória é um quadrado de procrastinação no rés-do-chão do tribunal, edifício muito cúbico, enterrado num relvado verdejante onde as cadelinhas de focinho atrofiado das velhotas cagam sem pudor. Entrando pelas portas envidraçadas e contornando as escadas vermelhas que levam ao gabinete do Ministério Público, peça central daquele átrio cheio da luz que entra por duas janelas de dois pisos, é possível antecipar o ambiente no serviço e calcular tempos de espera através da parede de vidro que limita a divisão. Atrás de um balcão de madeira escura e granito, três mulheres segurando papéis contra o peito controlam os movimentos de entrada e saída do edifício com os sentidos que não discutem o último episódio da telenovela. Há uma fila de cadeiras estofadas a tecido bordô que assiste à cena de frente, voltadas de costas para o meu percurso amedrontado até à porta escancarada da conservatória.
Pelo meu relógio digital dourado, que conta sempre três minutos a mais que o relógio do terminal dos autocarros, passam poucos minutos das dez da manhã. À minha esquerda, a fila de cadeiras está ocupada por três homens e um livro de colorir, que deduzo pertencer à pequena mancha cor-de-rosa que corre entre o espaço que separa o balcão das cadeiras. À minha direita estão mais duas pessoas, de pé, ambas de braços cruzados, a fitar ameaçadoramente a funcionária que está a tratar dos cartões do cidadão do outro lado da sala, escondida pela máquina onde se medem alturas, fazem assinaturas e tiram fotografias para o cartão. Passando pelas poses reprovadoras, chego à máquina das senhas para ver um ecrã desligado, coberto por um papel que me manda tirar a senha de um rolo azul em cima do balcão.
Fico de pé perto do local onde rolo das senhas dá as boas vindas a toda a nova cara de frete que passa para o outro lado do vidro até vagarem duas cadeiras, pai e filho adolescente que vieram tratar de um cartão do cidadão. Enquanto ocupo alarvemente um dos lugares, usando a prevenção de varizes como desculpa mental, pergunto-me se não serei a única que não está ali para levar um ralhete por não saber o meu código postal, intervalado com a descrição pormenorizada do percurso académico da filha da senhora que vai apontando os meus dados num teclado preto muito barulhento, seguido de uma medida pouco precisa da minha altura e uma fotografia em que me faço passar por uma refugiada que conseguiu fugir do país com eyeliner no bolso. Levo a minha mão à mala onde o meu cartão está guardado e relembro a morosidade do processo, nesta triste província onde as novidades se podem resumir num jornal quinzenal de dez páginas. A minha senha azul tem desenhado um quarenta e cinco, a minha manhã tem um ponto de interrogação.
Os segundos são contados pelo meu relógio digital com uma irritação que o conforto da cadeira não consegue disfarçar. As minhas pernas começam a baloiçar-se como dois pêndulos de movimentos simétricos e, por serem grandes demais para a altura da cadeira, os meus ténis roçam o chão em guinchos provocadores. Por fim, uma das senhoras atrás do balcão aproxima-se da superfície de granito polido, olha, sobre os óculos que apoia casualmente na ponta do nariz, para a impaciência que domina a espera e pergunta se está ali alguém para processos ou certidões.
-Eu.
Olho em volta e recebo silêncio. Até a pequena mancha cor-de-rosa que não tinha deixado de correr pela sala, ora segurando o seu livro de colorir, ora deixando-o ao cuidado do colo do pai que dormitava encostado ao vidro, parou para olhar para mim. A senhora faz-me sinal para me aproximar e eu levanto-me ao seu encontro. Apoio os cotovelos na bancada gelada com força, como se tivesse dificuldade em segurar-me nas pernas pelo excesso de exercício que dez minutos de movimentos autistas provocaram. O diálogo seguinte desenrola-se de forma pouco fluída, como se a minha boca tivesse sido forrada por esponjas:
- Bom-dia. Queria uma certidão de nascimento.
- Sua?
- Sim.
- Diga-me o seu nome completo e data de nascimento.
A combinação dos meus dois primeiros nomes é francamente infeliz: esta é uma realidade que me assalta sempre que sou obrigada a dizê-la em voz alta. Felizmente não preciso de a repetir, nem à minha data de nascimento, ambas as informações são prontamente memorizadas pela senhora que me acena como resposta e regressa à sua secretária. Ao vê-la sentada contra o fundo da sala forrado por painéis de madeira, a digitar com calma os meus dados e fazer múltiplos cliques, lembro-me de um pormenor importante que vai ter que ser gritado através da extensão de mesas, cadeiras e papeis em pilhas precárias que me separa da funcionária.
- Desculpe, não tem certidões em inglês?
Em poucos segundos tenho de novo à minha frente a minha nova amiga, tão solícita e de sorriso torcido. Pergunta-me se sou filha das pessoas que o programa informático diz serem meus pais e eu aceno afirmativamente. Os olhinhos por detrás dos óculos, que descaíram de novo para a ponta do nariz, têm o brilho da coscuvilhice que conheço bem desde os primeiros passos que dei na casa de uma das amigas da minha avó, onde se organizavam tertúlias de bordados e má língua.
- É para quê, a certidão?
Boa questão, cara senhora, mas não tem nada a ver com isso.
- Contrato de trabalho.
- Mas é para o estrangeiro?
- Sim.
Não existem certidões em inglês, mas há certidões em formato internacional. Em poucos minutos a funcionária regressa do seu posto com um papel feio preenchido com uma tabela confusa que explica que eu nasci. As legendas dos campos da tabela estão em português e em francês, mas no verso há uma lista de símbolos com traduções para outras línguas. O papel custa-me vinte euros que pago prontamente para sair daquele espaço o mais depressa possível. A dona do livro de colorir que se sentava ao meu lado já está muito quietinha a fazer o seu cartão, com um pai acordado ao seu lado. No átrio, a luz que entra pelas janelas de dois pisos da entrada torna difusos os contornos da escada do centro e o vermelho do corrimão quase parece cor-de-rosa. Não consigo evitar uma última pergunta, que me chega aos ouvidos quando já estou de costas voltadas para o balcão.
- A certidão é para onde?
- Alemanha.
Prelúdio da ópera Tristão(...)
publicado por DolceScrittora às 2013-06-15 14:24:12
publicado por tutti às 2013-06-14 17:14:50
99. Se por acaso (me vire(...)
publicado por tutti às 2013-06-14 16:59:11
publicado por rita gonçalves às 2013-06-12 16:00:49
A minha bisavó sempre festejou o seu aniversário a x. Há uns anos para cá, descobrimos que a data a que ela, já com algum esforço, apagava as velas, não correspondia à data y, escrita na sua certidão de nascimento. Com oitenta e seis, festejados este ano, continuamos a sorrir e a aparecer lá por casa no dia x, para ouvi-la murmurar a cantiga que já se prolonga há muito: já cá não estou para o ano. Irrevogavelmente escrito, festejei o primeiro ano de existência do chá da tarde a 11 de Junho, ainda que, na altura, me tenha esquecido de encomendar o bolo. Esta manhã, durante tamanha indignação por me ter esquecido novamente de comprar as velas, descobri que a data a que o chá da tarde as apagou o ano passado, não corresponde à data da minha primeira publicação. Apresento-vos a sequela: não sei se chore, não sei se ria. Dois anos de existência, para sempre festejados no dia errado, quiçá para sempre uma comemoração esquecida, igualmente tardia: já cá não estou para o ano. Parabéns atrasados... ou adiantados, chá da tarde.
publicado por vans às 2013-06-10 12:51:27
This is the deal: eu quero muito muito muito mesmo ir ver Foals e tenho acompanhado a bilheteira online para não perder o rumo à coisa. Entretanto tenho visto sempre milhares de bilhetes ainda disponiveis, porisso fui adiando a compra. Qual é o meu espanto hoje ao ir lá e ver 'Bilhetes disponiveis: N/D"! Opá não me fodam!
É por isso que me virei aqui para a blogosfera e peço: se alguém viver ao pé de uma fnac pode fazer a pergunta mágica de quantos bilhetes estão disponiveis para os Foals? Isso seria muito gentil da vossa parte, pois a fnac mais próxima de mim fica quase a 1 hora de carro...
Merci!

publicado por Yohanan às 2013-06-09 12:16:07
preciso de mim. de mais ninguém. só de mim.
publicado por DolceScrittora às 2013-06-07 23:45:31
Oh, eu poderia explicar mas - já diz o meu professor - não podemos estragar a experiência do cinema com palavras. E é tão fácil esquecer por momentos que tenho de ler as legendas... poder sentir-me de novo dentro daquela história que me fascina, aquele bater do coração quando sabemos que o fim está perto, mas queremos tanto aquilo. Isto não me deixaria cega para evitar ver a evolução mas permanece ali o essencial que fazem deles os favoritos, mais real, menos real, nada supera o primeiro, claro, e todas as noites de insónias com ele, e de choro, e de ansiedade. Um pormenor: quatro pessoas - todas idosas, três femininas e um masculino - na sala, comigo (eu que cheguei lá sozinha, ambicionando uma sessão só para mim). Pergunto-me sobre as suas histórias - duas eram amigas, e os restantes sozinhos - e o que os ligaria ali. Claro que o cenário é perfeito para histórias perfeitas e absolutamente impensáveis no contexto amoroso do século XXI. Mas a imaginação não tem de ser fiel à realidade - nem deve.
A promessa ficou, mais uma vez. Pelo menos agora sei que estão juntos. Como se isso me descansasse...
publicado por tutti às 2013-06-07 16:47:09
Foda-se, és tu. Quero-te.
publicado por Katerina K. às 2013-06-07 15:49:47
A única coisa que lhe restava, com a mala feita em cima da cama, as camisas passadas, as calças vincadas, a juventude atirada ao fogo, era chorar o seu desespero. Não tinha futuro incerto, nem desgraças a coroar-lhe a cabeça, mas inudou-o o mais negro arrependimento, o mais profundo terror, de ter sido homem de menos, de ter deixado acontecer porque o tempo resolve tudo.
Não deu a risada seca de um hipócrita. Não olhou em volta com olhos vazios, a recalcar uma infância pouco extraordinária. Chorou. Ruidosamente. Espectacularmente. Limpou o nariz à camisa tão branca e tão lisa, as mãos molhadas às calças.
Ela, por outro lado, estava sentada no chão, a sorrir. Vestida de homem mas com o cabelo solto. Podia ter esticado a mão para lhe tocar no joelho, confortá-lo, dar-lhe só um pouco de calor alheio, perguntado e tentado entender, porque é isso que passamos os dias a fazer. Ela lambeu os lábios e viu enquanto ele se desfazia em lágrimas gordas e inspirações duras. Levantou-se num momento de silêncio e, com um movimento quase violento, empurrou-lhe o queixo para que a olhasse nos olhos.
- Gostava que nunca tivesses existido. Mas estás aqui.
Passou-lhe a mão gentilmente pelo cabelo e ele lembrou-se subitamente do porquê da sua miséria.
Before Midnight estreou h(...)
publicado por DolceScrittora às 2013-06-06 22:31:29

