publicado por badmary às 2013-06-19 16:30:39
A verdade é que nós nunca pensamos nas viagens como deve ser. Talvez porque estamos habituados a viajar temos tendência a menosprezar as pequenas chatices e complicações que podem suceder e nunca preparamos antecipadamente as coisas. Assim fui, in extremis, a correr ao banco tentar arranjar alguns dólares e lá consegui arranjar uns miseros 200$.
A mala foi feita no dia antes e numa de vamos levar tudo e depois logo se vê. No dia seguinte, feriado e dia da viagem, arrastámos a mala pesadissima até ao aeroporto. Chegados ao check-in a tipa começa com umas graçolas a dizer que já não tem lugares juntos, "Ah, afinal tenho! ahahaha!", vê lá se não te cai um dente com a gracinha, penso eu já com vontade de lhe pregar uma galheta. E devia ter pregado mesmo porque quando chegámos ao avião percebemos que iamos separados. Que fixe... Pronto, querido vai lá para o teu lugar e vemo-nos daqui a 9 horas quando esta coisa tiver sovrevoado a porra do Atlântico! Confesso que estive vai-não-vai para largar do avião, fazer uma cena, atirar-me para o chão a espernear, qualquer coisa que resultasse... Mas estou deformada pela civilização e limitei-me a amarrar a burra, controlar as lágrimas e sentar-me no meu lugar quietinha para não causar o pânico entre os passageiros.
A viagem fez-se... li, passeei pelo corredor, li mais um bocado, fechei os olhos, tentei dormir, dormi um pouco, li outra vez... Chegámos!
Chegámos e saímos para um calor que não dá para descrever. Os meus óculos embaciaram com a diferença de temperatura e comecei imediatamente a pensar que se aquilo estava assim às 23h nem queria imaginar como seria às 12h.
Percebemos que, dos 4 hoteis onde podiamos ficar, ficámos naquele que fica mais longe da praia. Vamos ter que usar o transporte do hotel para todo o lado. Tento abstrair-me e consolar-me com o facto de ser o hotel mais moderno e com mais detalhes de luxo... Não sou muito bem sucedida!
Vamos jantar e depois vamos para o quarto. Quando já estamos na cama o gajo percebe que há um lagarto dentro do quarto. Ok, é um lagarto pequeno, 'bora tentar dormir e amanhã logo se vê. Não dormi nada de jeito sempre a sonhar com lagartos a subirem-me pelas pernas acima...
Dia seguinte, pequeno-almoço tomado, e temos que levar com a seca do operador a tentar impingir excursões. Ficamos a saber que é tudo uma roubalheira e que não vamos com estes tipos para lado nenhum. Vamos fazer as coisas por nós e gastar metade do dinheiro. Ficamos também a saber que há limites para o peso da bagagem admitido à saída do país e que estes são distintos dos que funcionaram na viagem de ida. Isto é giro porque toda a gente sabe que estas coisas são importantes é quando se chega aos sitios e não antes de sair de casa.
Na recepção falo do meu lagarto no quarto e dizem-me que vão tentar solucionar o problema mas que estamos no México. Por acaso já sabia, mas fiquei mais descansada quando tive essa confirmação.
Chegados à praia descobrimos que esta tem umas pedras e uns sacos de areia gigantes para amortercer a rebentação. Ah, e a água tem algas... As bebidas têm muito gelo e os empregados são um bocado lentos.
À tarde resolvemos ficar na piscina mas a bebidas e os empregados funcionam no mesmo regime. Pelo menos não há algas...
Ao entardecer os mosquitos atacam-nos e riem-se dos nossos repelentes. Quanto mais repelente ponho mais mosquitos vejo, acho que aquilo funciona como docinho para os sacanas.
Começam a aparecer-me umas borbulhinhas na barriga e penso que são do calor excessivo. Começam a espalhar-se e suspeito de tudo: sol, protector, água, comida, repelente. Acho que deve ser um misto.
Depois de uma noite sem dormir a olhar para o lagarto vou abancar-me na recepção e juro não sair dali enquanto não me mudarem de quarto. Consigo mudar e, finalmente, consigo dormir.
Ao fim de uns dias de praia, piscina e mosquitos, apanhamos o transporte público para ir ver umas ruínas perto do hotel. Calor asfixiante, gente aos montes, suor a escorrer-me pela cara, e de repente a ideia de uma excursão de barco para ver as ruínas do lado do mar, seguida de mergulho e snorkel, parece-me muito apetitosa.
A excursão saía de uma praia "perto" das ruínas. Somos atacados por mosquistos no caminho para a praia e ainda é de manhã. A praia tem muito bom ar mas está quase toda concessionada. A parte não concessionada é diminuta, mas é a única em que podemos estar sem pagar. Esperamos pela excursão e só quando estamos no barco e aquilo começa a baloiçar é que me lembro de olhar para o gajo... Já estava verde! Daí a começar a dar o pequeno-almoço aos peixinhos foi um instante. E lá estamos nós, a 1 km da praia, agarrados ao barco, sem poder voltar a terra, o gajo enjoado que nem um perú, eu sem saber o que fazer, e o cabrão do mexicano do barco a rir-se e a dizer que "ah, ele é terrestre, não é aquático" e "no, no podemos ir a terra, yo no soy el comandante". Então o comandante vai para o snorkel e deixa o resto da malta entregue a um atrasado mental. Vá lá que o gajo estava só enjoado porque se ele se lembrasse de ter uma coisa mais séria, olha, batatas, que o comandante não estava.
Voltamos à praia o gajo atira-se para a areia e eu fico ali à espera de melhores dias. Vem o gajo da concessão e diz-nos que não podemos estar ali. Fico com instintos assassinos mas lá consigo arrastar o gajo para uns metros ao lado. Finalmente a coisa melhora e metemo-nos à estrada. Os mosquitos que de manhã nos atacaram agora estão apostados em nos devorarem. Estão literalmente em cima de mim, em todo o lado. O repelente simplesmente não funciona e a única solução é atirarmo-nos para dentro do primeiro taxi que aparece. Quando me vejo no hotel ainda penso que é mentira.
A excursão não me fez bem às borbulhas que estão agora mais espalhadas e a darem-me comichões. Vou à farmácia e venho munida de comprimidos e pomada. As borbulhas acalmam e começo a dormir que nem um anjo.
Vamos jantar ao restaurante mexicano do hotel e achamos que aquilo é feito para gozar com os turistas. Nas colunas tocava uma música horripilante, um mexicano que carpia mágoas ao estilo Zé Cabra. A estridência da coisa era de tal ordem que nos questionamos como é possível trabalhar com aquela chinfrineira. É que comer estava a ficar dificil... Ainda para mais a comida não vale nada, o vinho está quente e os empregados andam todos com cara de enterro. Foi o pior restaurante onde estivémos! O que não deixa de ser curioso já que sendo o restaurante típico seria de esperar que fosse o melhor... digo eu... Saímos dali a pensar que aquilo é mesmo para gozar com os papalvos que ali assentam arraiais e que saem a achar que aquilo é comida mexicana.
Vamos a uma discoteca e quando voltamos revolvemos o quarto à procura do aviso de "Do not disturb". Nada feito, nem sinal... No dia seguinte, em camisa de dormir cor de cereja, sexy para xuxu, abro a porta ao mexicano que queria arrumar o quarto e mando-o embora a dizer que queria dormir mais um bocado.
Vamos fazer outra excursão, desta vez sem barcos, ver umas ruínas, mergulhar num poço e almoçar num restaurante de beira de estrada. Voltamos ao hotel e descobrimos que apesar de termos saído à 7h da matina e de já serem 19h o mexicano não veio arrumar o quarto. Deve ter ficado chocado com a minha camisa de dormir. Ligo para a recepção e perguntam-me repetidamente se não teria colocado o letreiro de "Do not disturb" na porta... Decido não perder tempo a explicar-lhes que não possuía esse item no quarto e limito-me a pedir-lhes toalhas limpas. Depois de 45 min de espera ligo novamente e pergunto-lhes pelas minhas toalhas. Dizem que estão a caminho, digo-lhes que quero despachar-me para sair, dizem-me que posso sair se quiser... Fico muito feliz por não estar confinada aos meus aposentos e tento explicar à pessoa do outro lado que, se não fosse pedir muito, gostaria de tomar um duche e que para isso preciso das toalhas!!! Finalmente lá aparecem as ditas...
Começamos a arrumar a mala para voltar e percebemos que precisamos de uma saco extra para resolver o problema do peso. Saio para comprar o saco na zona comercial do complexo enquanto o gajo continua a arrumar coisas. Compro o saco e aguardo pelo transporte de volta.
Meia-hora depois ainda estou à espera do comboiozinho que devia passar de 15 em 15 minutos e pelo qual nunca tinha esperado mais do 5 minutos. Assim que aparece o comboio começa a chover como se não houvesse amanhã. Consigo chegar ao hotel mais ou menos seca mas ainda tenho que fazer o caminho a céu aberto até ao quarto. Aguardo por uma aberta que não vem e decido que tenho mesmo que ir no matter what... Chego ao quarto com uma boa aproximação de miss t-shirt molhada e com o cabelo colado à cabeça. Felizmente era dia de saída e, depois de um duche, vesti-me e comecei a contar horas para chegar a casa.
