publicado por Bolacha às 2013-06-19 13:46:49
O vento da madrugada de Abril, quase Maio, perdia a violência na claustrofobia das ruelas inclinadas do Bairro Alto. Numa dessas ruas, esquecida da mania de andar sempre de relógio a cingir o pulso esquerdo, eu encostava-me a uma porta escura, encolhida numa parede com pedaços de tinta arrancada. O estado levemente ébrio que me levava a não querer saber das horas era partilhado com um grupo de mais oito almas etilizadas que ocupavam a rua a toda a sua largura, mais uma à minha frente, segurando-me pela cintura sem que isso fosse necessário para me equilibrar. De tanta gente, recordo apenas o nome das três pessoas com as quais começara a noite na Avenida da Liberdade, agarrada um par de imperiais tão geladas quanto o metal das cadeiras da esplanada onde foram servidas, e o da Paula, o anjo do xixi.
No início de todas as cenas fundamentais e passíveis de ser contadas, embrenhei-me na confusão nocturna de mão dada a uma amiga, à procura do irmão de alguém que, por sua vez, trazia consigo um grupo de pessoas que eu conhecia ainda menos que aquelas que estavam comigo. Do ponto de encontro, que levou largos minutos a ser definido e outros quilómetros de queixume a ser encontrado, seguiram-se mais subidas e descidas pouco alegres pela calçada, àquela hora já bem regada de cerveja e de restos mal digeridos de alimentos vários, em busca da devida química que nos iluminasse a noite. Quando chegámos a um bar com álcool barato e espaço na rua para fumar com a intensidade das chaminés cinzentonas e obesas da termoeléctrica do Carregado, reparei que do grupo de dez jovens, do qual eu conseguia não ser nem a mais velha nem a mais nova, haviam apenas três gajas, eu incluída. Não duvido que foi por isso que não gastei um cêntimo naquelas horas de borga e decadência adolescente. Sentada num banco de madeira corrida, bem apertada entre a minha amiga velha e um amigo novo, os copos sucederam-se, uma mistura de shots com nomes sexuais e cervejas, até eu começar a sentir que tinha casacos a mais, mesmo estando perto da saída e a levar com o ar gelado da noite que avançava.
Encostada à tal porta, os sons das vozes e dos vómitos na rua soavam-me a música de elevador, perfeitamente irrelevantes, eu não queria dar-me ao trabalho de entender de onde vinham e de que eram feitos, apenas serviam para acompanhar o meu trajecto trôpego entre a realidade da minha prosaica existência e o torpor do álcool em doses alegres, com direito a uma ou duas lágrimas amorosas. Vou deixar alguns pormenores à imaginação do leitor mais perspicaz, mas distribuí muitos abraços e não tropecei uma única vez. Até que, na tal hora desconhecida, o belo cenário decadente foi perturbado pelo terceiro pior efeito secundário da cerveja: uma incontrolável vontade de fazer xixi, cada vez mais urgente a cada segundo que passava e que eu contava mentalmente, xixi, a palavra que por si só, repetida à exaustão para convencer a maioria de pilas da urgência de encontrar uma casa-de-banho nas ruas agora desertas e de portas fechadas, mima o som do alívio de modo tão perfeito que só aumentava a vontade de o fazer.
O grupo rendeu-se por fim à inevitabilidade do avanço do tempo e começou a descer da colina entre os queixumes de duas das suas gajas mascotes, eu, aflita e de útero inflamado a amplificar a vontade de expulsar os resíduos da cerveja, e a minha amiga, solidária e intrinsecamente histérica. A miúda que faltava seguia entre o sausage fest em que nos metêramos nessa noite, baixinha e caladinha, sem ter a necessidade de lembrar a toda a gente o seu nome, ao contrário de mim, a quem o álcool imputa problemas de identidade. Aliás, eu só soube que aquela rapariga tinha um nome quando parámos em frente à Igreja de São Roque e havia um portão verde entre mim e as escadas para as casas-de-banho públicas. O meu desespero apalpava-se com tanta facilidade quanto o volume da minha barriga, a quantidade quase sobre-humana de ureia diluída em água, a chocalhar impaciente sob a minha mão gelada e preocupada, ameaçava a fuga. Então, o anjo do xixi agarrou-me pelo braço, fez o mesmo com a minha amiga e arrastou-nos para uma travessa ali perto, façam aí que eu vejo se não vem ninguém.
O meu cubículo ficava entre uma carrinha branca e uma carrinha azul-escura a partir da qual a minha amiga se agachava em igual preparo. Eu nunca tinha conseguido fazer xixi sem o conforto de uma sanita, ou agachando-me sobre uma, toda enojada e sem querer tocar em nada nas casas de banho portáteis dos festivais, e nem nunca me tinha ocorrido que fosse capaz de mijar ao relento. Quando era miúda e ia apanhar daquelas maçãs muito verdinhas e ácidas para o pomar do meu avô materno, fazia birras monumentais por não querer agachar-me no meio das ervas de ninguém. Mas ali, atrás da carrinha, usei uma mão para me apoiar à parede que estava atrás de mim e marquei o meu território, primeiro a medo, com vestígios senhoris que não queriam aceitar o facto de serem quatro da manhã e eu estar bêbeda e ter vinte e um anos mal aproveitados por várias razões, todas tristes e inoportunas, depois com vontade. Foi naquela pose comprometedora que mandei um grito ao anjinho vigilante, uma figura magra de calças de ganga, cabelo liso e escorrido, nenhuma maquilhagem na cara ao contrário de mim, que levara meia hora a cobrir os cadáveres de borbulhas que os meus dedos têm dificuldade em deixar descansar em paz. Perguntei-lhe o nome, já todos percebemos que era Paula. Depois veio a vez de ser ela a usar o meu espacinho atrás da carrinha, claro, e eu guardei o topo da travessa enquanto, ainda levemente embriagada, começava um discurso apaixonado contra pessoas apaixonadas. Era a típica conversa de casa-de-banho mas tida no meio de uma ruela empedrada, a grande casa-de-banho de campanha que a escuridão e a necessidade tornavam suficientemente acolhedora e confortável.
Depois da experiência mictória, o grupo seguiu para Santos e daí separou-se por volta das seis da manhã, a minha consciência estava recuperada ao ponto de identificar a peça que envolvia o meu pulso esquerdo e pude ver as horas, essas e as que se seguiram enquanto o grupo original, o das cervejas na Avenida da Liberdade, acompanhava o nascer do sol caminhando ao lado do Tejo. Lembrei-me, entre duas frases ressacadas e um olhar de soslaio à fealdade da margem que se recortava do outro lado do rio, da Sylvia Plath a escrever, no seu livro danado, there is nothing like puking with somebody to make you into old friends. O xixi não é equivalente ao vómito e aquilo que partilhámos na travessa, com a bênção do São Roque e dos tipos que esperavam pacientemente pelas nossas bexiguinhas raquíticas de gaja, foi um ritual de sobrevivência que nos uniu apenas por alguns minutos. Nunca mais vi a Paula, como se percebe, mas fica aqui a devida homenagem, com quase dois meses de atraso.























































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