Deus Vive Num Telhado em Paris
publicado por Diana V. às 2013-05-24 09:00:16
A ordem só pode ser restaurada depois do caos. Quando cheguei àquela cidade, que sinto como minha, a polícia tentava instaurar a ordem entre o caos causado pelos manifestantes. Quanto a mim, seguia serena no autocarro, a tempestade já tinha passado, e ali estava eu, devidamente ordenada com esta coisa de existir. Lembro-me que até o céu parecia mais azul, e respirar parecia-se efectivamente com respirar, já não sufocava, era mais fácil. Estava tudo no seu devido lugar, a acontecer como tem de acontecer.
Ia testemunhando a desordem, num fora de mim que raramente me permito, lembro-me de pensar que mais cedo ou mais tarde as pessoas lá de fora iriam encontrar o ponto onde se estabeleceu a ruptura, iriam repará-lo, e a harmonia seria reposta, mas já nada seria como era antes, nunca é. A harmonia é sempre diferente, e a maioria das vezes breve. Exige uma manutenção cuidada, que resulta da soma de experiências e das ferramentas que fomos encontrando. Nada voltaria a ser como era. E tudo estava a acontecer como devia acontecer. A crença é incauta.
Eu ordenada nas coisas de dentro, eu testemunha das coisas de fora. Meditativa e relaxada, entreguei-me à previdência. Aceitar que há um destino foi coisa que me levou tempo, mantenho-me no entanto uma acérrima defensora de que a escolha da reacção ao imprevisto é sempre nossa. Devo dizer que Cronos foi implacável com aquela harmonia que era minha. Brevidade necessária? E tudo continuava a acontecer como tinha de acontecer. No dia seguinte pude escolher a cor do céu. A harmonia tinha sido alterada. A cidade amanheceu ordenada, testemunha do caos que me provocara, nada voltaria a ser como era.
Diana V.






