publicado por Patrícia Reis às 2013-05-22 00:36:25
perfil público
http://bostadebovideos.blogs.sapo.pt
um blog em que o cheiro intenso a bosta de bovídeos é o paradigma para pensamentos elevados, não dispensando o erotismo da alma que aviva os corpos...
http://pradosverdes.blogs.sapo.pt
Desenvolvimento de projectos de escrita colectiva...um espaço aberto à participação criativa de homens e mulheres à procura de respostas para o ser homem no mundo...as questões da alma...
Nome
a. prado
Apelido
verde
Data Nascimento
17-11-1900
Sexo
M
Código Postal
2800-543
Localidade
charneca
Programas TV Favoritos
BBC Vida Selvagem
Filmes Favoritos
África Minha
Livros Favoritos
O Macaco Nu
Interesses
amizades
Frase Favorita
Umh!!!...que cheirinho a bosta...
publicado por Patrícia Reis às 2013-05-22 00:36:25
Minha senhora de mim
Comigo me desavim
minha senhora
de mim
sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço
Comigo me desavim
minha senhora
de mim
nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços
Comigo me desavim
minha senhora
de mim
recusando o que é desfeito
no interior do meu peito
http://oblogdapaula.blogs.sapo.pt
publicado por Paula Patricio às 2013-05-22 00:16:17
Depois de quase um ano e meio de ausência e depois de imensos pontos de integorração se deveria reabrir o estaminé ou criar um blog novo, aqui estou eu de novo.
Antes era "O Som das Letras"; hoje sou apenas "O Blog da Paula". Se antes o meu blog tinha uma inclinação para as minhas leituras, esta nova etapa e nome farão que o meu blog não seja conotado apenas por um sítio onde se pode retirar algumas ideias para leituras, mas um sítio onde se poderá ler de tudo um pouco.
publicado por Patrícia Reis às 2013-05-21 00:03:17
Em qualquer momento, no começo e no fim,
mesmo na medida de toda a vida – falhos de toda a pena,
permanecemos sem amanhã nem princípio,
esbatidos na idade e na distância, saqueados na sua mentira,
apenas acumulando areia para o fundo de um recreio
a simular um amuleto contra o regresso impossível.
Não temos trégua – não podemos voltar – e afastamo-nos – sem
ruído – lá para onde de longe chamamos, no ar rarefeito
- figuras resumidas a uma branca poeira informe,
em quantas inumeráveis semelhanças com a morte.
Pressentida ruína, a do íntimo declínio disto tudo,
demais cientes na incerteza como o sinal exposto da memória,
resina que nela se abate à frente dos olhos, que
esmaga cada braçada do tempo ao seu embuste
e nos recusa a menor separação do abandono -
que por nada existimos – e só acenamos – acenamos -
senão para crer no que julgamos não ter acontecido,
senão a entender a justa aceitação da nossa vida.
Rui Coias
publicado por espaço da raquel às 2013-05-20 17:34:24
Segredo - Parabéns Maria (...)
publicado por Patrícia Reis às 2013-05-20 00:04:57
Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça
nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa
Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço
Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar
nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar
Maria Teresa Horta, in “Poesia Completa”
Hoje a poetisa, escritora, jornalista, mulher, mãe, avó, amiga do coração celebra o seu aniversário e, onde quer que eu esteja, ela está comigo. Aqui a deixo, um pouco dela, um poema que sei linha a linha, desde sempre parece-me.
publicado por Patrícia Reis às 2013-05-19 00:00:59
E a vida não pára, canta Lenine. Eu já sei e podia, como na canção, ter um pouco mais de paciência, mas não tenho. E não tenho tempo. Apenas para o que é necessário, para quem amo. Vou ao Brasil, regresso a 28, tenho a felicidade de ir com Inês Pedrosa, Lídia Jorge, Rui Zink, Gastão Cruz e José Luís Peixoto, escritores do coração. Fiquem bem.
publicado por Patrícia Reis às 2013-05-18 19:44:49
A mulher ao fundo está dentro de mim com afecto, para me tranquilizar, para me dizer que o meu francês não é o melhor, mas que isso não importa. Afinal, quem sabe alemão? A mulher ao fundo é como aquelas do anúncio, presa a mim por um fio brilhante. Nos momentos mais complicados o fio nunca se parte. Se partir é doer, chegar será outra coisa e ela sabe. Se ficar pode ser um conjunto de variáveis que, na verdade, nem são muitas, partir é uma hipótese desconhecida. Ambos o sabemos. O nosso olhar nunca se livra do olhar da outra. Felizmente.
publicado por Patrícia Reis às 2013-05-17 08:45:15
Preparativos para o Brasil: mala, livros, excertos de livros, ideias, comprimidos, sapatos fechados, sapatos abertos, protector solar, uma lista de saudades e um pouco de muito e um muito de nada.
publicado por Patrícia Reis às 2013-05-16 10:47:25
O meu marido diz que devo dizer ao contrário do silêncio. Eu escuto com atenção. A maioria não o sabe fazer. A maioria pontifica.
O meu filho mais velho está triste com a derrota do Benfica.
O meu filho mais novo diz que eu preciso de ter calma.
A minha mãe diz que é preciso não confiar. Não confiar em ninguém, as pessoas não nos entendem. Já sei. Sei há anos. Pouco importa.
publicado por Patrícia Reis às 2013-05-15 02:32:45
sem fazer alarido, como é seu timbre, sem grande exaltação, o homem retirou-se. Mais tarde, a mulher encontrou um respirar profundo que indicava apenas o estado do sono e, mesmo querendo acordá-lo para contar isto ou aquilo, deixou que a noite fosse apenas uma invasão e não disse nada, andou de pézinhos de lã e procurou não fazer barulho. Apetecia-lhe escrever ou apenas conversar, continuar na toada da noite, mas a casa caiu no silêncio, os quartos ocupados e uma sensação estranha de estar atrasada. Deitou-se e fingiu, como em tantas noites, o exercício estranho do sono. Sem sucesso.
publicado por Patrícia Reis às 2013-05-14 18:54:33
publicado por espaço da raquel às 2013-05-14 15:17:26
publicado por anamar às 2013-05-14 01:19:21
(Fonte: https://fbcdn-sphotos-h-a.akama
Às vezes ficar no escuro, ouvindo a música serenar nos ouvidos, é tudo o que eu preciso.
Às vezes o mundo tem mesmo de desaparecer para que eu finalmente apareça.
Às vezes o universo é pequeno demais para nós, para suportar nele toda a bagunça que nos habita o pensamento.
Às vezes temos mesmo de ficar longe para conseguir ir estando por perto.
Às vezes o dia ensurdece-nos, outras vezes adormece-nos.
Mas ficar dormente falsifica-nos, retira-nos da realidade e corrompe-nos os sentidos.
Se é para ficar dormente, ao menos que seja no escuro, no silêncio.
Texto de Maria Teresa Hor(...)
publicado por Patrícia Reis às 2013-05-13 00:08:02
Há uns meses atrás, a meio de uma das nossas longas conversas telefónicas, Patrícia Reis perguntou-me, de súbito, num ardil de amiga que se esgueira até ao dentro do nó do abraço:
– Queres que te envie uma coisa que tenho andado a escrever?
Claro que queria, e antes de desligarmos, com a ponta de punhal da separação a magoar-me, pedi-lhe: “Não te esqueças de me mandar aquilo que escreveste”.
E nesse mesmo dia, quando já toldado pelas sombras da noite, chegou-me por e-mail:
Uma rosa damascerna,
de cristal de rocha.
Texto belíssimo, de floração e de fulgor, numa escrita sofrida à pele do dizer e do rigor absoluto; entre a beleza arrepiada e a claridade redentora, a empurrar-nos no desejo de voltarmos permanentemente atrás, a querer repetir a leitura das suas transparências facetadas,
como se fossem cintilações minímas… A fazerem-me lembrar, no seu cerne, um pequeníssimo poema escrito por mim há anos, perguntando-me na pressa de afirmar o tudo, desarrumando o coração aturdido:
“A rocha?
O vagar da erosão
da alma”…
E, palavra a palavra, dei por mim a desfolhar “Contracorpo”, voz a voz feminina, página a página, no seu aparente distanciamento, no seu discurso de afectos, desencontros e ilusões perdidas. Pétala a pétala, até ficarmos diante de um ambíguo lugar, onde se encontra intacta, a erosão da alma.
Ou a erosão da vida?
Vidas, contadas-atadas pelo fio uterino do amor jamais encarado, mostrado, pelo lado do estereótipo do desvelo sacrificial-materno. Pois o que Patrícia Reis vai descrevendo, até ao dilaceramento,
é o amor aturdido;
é o amor que deseja ser amado;
é o amor resvalando junto, com o medo da perda. – Mãe e filho amando-se no desencontro do amor.
Mas, em “Contracorpo”,
há mais do que tudo isto, entre ambos os extremos, confrontando a chama purpura com a brevidade do lírio, numa história magnificamente narrada,
onde existe um sofrimento feminino que esbraceja, uma perplexidade inconformada diante do seu imenso sofrimento-doído. Continuando Maria enquanto personagem de rutilações e luzes, a acreditar na mudança, no volte-face que os afectos sempre contêm em si mesmos, apesar do espinho, da farpa, da lâmina da faca a golper-nos a vida, o sorriso, o susto, no alimento dos medos rapaces, das contradições lastimosas e vorazes, trazendo ao de cima, a maior das nossas fragilidades: os filhos,
com uma incontornável ternura que nos desarma.
Crente nisso, Maria luta, cria o filho desenhando ao mesmo tempo os caminhos e os atalhos que a podem levar até ele. Ou afastá-lo… A inventar modos e maneiras, milagres e mitos, possíbilidades confrontando as impossíbilidades, neste caso a viagem, a partida, a exposição do próprio coração assustado. Numa tentativa de reconhecimento, mutuo-encontro e descoberta.
Aventura que tanto é aventura enquanto escrita, de Patrícia Reis em “Contracorpo”, como é aventura em nome da mudança que Maria personagem pretende que seja feita a dois, nesse tanto amor em desabrigo, que nas mulheres brota:
como uma avalanche, uma queda de água, uma enxurrada de perigo… Águas a misturarem-se em si mesmas, temperando o doce e o amargurado, tanto com o riso das alegrias súbitas, como com o sal das lágrimas;
que não se choram diante dos filhos.
Mães e filhos, estrangeiros, como está exposto e nú em “Contracorpo”…Do mesmo modo que Maria-mãe é estrangeira para Pedro, ou como mulher é estrangeira em relação a si mesma. Filhos saídos do embalo do âmago do corpo feminino, para um dia, de súbito, sem motivo aparente, ao fitá-los à nossa beira, neles descobrimos, inexplicadamente uns desconhecidos,
É então que o nosso coração fraqueja, estremece, vacila e se estilhaça em translúcidos pedaços de espuma de onda, ou nuvem de cassa, gola de casaco feito de névoas, que em vez de proteger deixa a mulher gelada.
Pois, da mesma maneira que Maria, fica-se atordoada diante da nossa própria tristeza e solidão, irremediáveis. E é deste vazio, desta debilidade, deste fraquejar, que Patrícia Reis também nos fala, mostrando-contando-cantando a coragem dos relacionamentos viscerais.
Irracionais.
Tentando nada iludir.
“És feliz Pedro?”
“Nenhum de nós é feliz, mãe”.
Num sobressalto.
Densidade, complexidade e luz.
Eis a matéria de “Contracorpo”,
escrita cintilante, nimbada toda ela por uma poalha luminosa e muito fina, quase neve ardente, quase voo-de-asa,
de uma magnífica escritora chamada
Patrícia Reis.
Lisboa, dia 20 de Março, de 2013
Este texto foi lido pela autora no dia do lançamento de Contracorpo, na Fnac do Chiado, no mês de Março. Nunca terei palavras para agradecer este gesto de afecto, de amizade e de generosidade da Maria teresa.
publicado por Patrícia Reis às 2013-05-12 21:05:09
Catarina Portela - Histórias de Vida
6º Capítulo - Que Deus te(...)
publicado por Catarina Portela às 2013-05-10 22:00:17
http://esposendeimagens.blogspot.pt/
Que Deus nunca me facilite a vida, que não me dê tudo o que desejo.
Quero que me torture emocionalmente colocando à minha frente obstáculos, e que me faça verter lágrimas salgadas até encher mais um oceano.
Quero que me aperte o coração de vez em quando, e que me sussurre ao ouvido tudo o que eu não quero ouvir.
Após o mais ridículo trambolhão, quero sentir que Ele brinca comigo, e que fica feliz sempre que me levanto,
Quero mostrar-te as cicatrizes mentais que Ele fez, e as marcas na pele escuras que demoram tempo infinito até que desapareçam, e orgulhar-me de já ser passado.
Quero sentir que estou viva, que me levanto todos os dias, mesmo que a minha vontade seja acordar daqui a séculos.
Quero lutar, crescer até que me dou-a a alma. Quero andar sobre espinhos e chegar ao fim do terreno com vontade, de mesmo assim, te esganar porque foste fraco para sofreres por mim.
E quero, quero Sim. Envelhecer e ter rugas, e mesmo assim, sentir-me bonita, diante o espelho. Ver ali a criança que sou hoje. Sem medo de dedos ridículos apontados à celulite, ou das histórias do arco-da-velha com que me piquei.
Quero ter 90 anos, ser uma corcunda e ter peles descaídas, mas com vontade a aprender, e alegria de Viver.
E quero, quero sim. Rir-me sarcasticamente do teu lugar longínquo. Tu que te proteges atrás de etiquetas e de vida fácil.
E tu, Tu sim, precisas bem mais de Deus que eu. Porque eu vivo com horrores, num mundo de dores e mesmo assim aprendo a levantar-me e sorrir a todos, e tu?
Tu treinas ao espelho, como é a melhor forma de sorrir. Como será mais natural o teu sorriso, enquanto o meu brota de forma natural, com as mais banais situações do dia-a-dia.
Quero rir-me na tua cara quando falas dos cêntimos que te roubaram no super-mercado, ou da nota de 10 euros que perdes-te ou gastas-te não sei em quê!
E falares que tens na tua família, uma mãe solteira, quando uma criança é sempre uma alegria, e tu lhe chamas problema!
E ouvir dizer que o teu avô teve cancro aos 86 anos, e ver todos os dias jovens e adolescentes a lutar contra essa doença.
Vou abanar a cabeça e dar o meu ar cínico, se não tiveres dinheiro comprar ou oferecer uma Playstation portable, quando aqui mesmo ao lado, no mesmo planeta que tu, existem crianças que fabricam os seus próprios brinquedos.
E vai-me apetecer muito, que fiques sem emprego, se te queixas que trabalhas 8 horas por dia, e chegas a casa com tanto para fazer, quando existem pessoas, mais novas e mais velhas que dariam tudo por esse trabalho. E outras que em vez de 8 trabalham 16 horas para pagar as contas e tem… como tu… uma vida!
Tu na tua vida fácil, que andas de mão dada com a sorte, que Deus tenha misericórdia de ti, e te dê um dia difícil, para que pelo menos um dia, e apenas um dia, saibas o que é o dom da Vida, o dom do Ser Humano, e o sabor que dá, Aprender a Viver, Aprender a sorrir.
Que Deus te dê, um dia difícil (para que sintas, a vida fácil que tens).
O Homem não sabe o que são problemas, porque apenas vêem, os seus problemas. Um erro fatal para matar a felicidade deles, e dos que amam.
publicado por Patrícia Reis às 2013-05-10 01:44:08
São três mulheres. Às vezes são só duas. Mas são um triângulo de coisas, de palavras, de ideias, de risos, de cigarros e cigarrilhas, de histórias com e sobre homens. São mulheres que, quando não se vêem, sentem-se, estão perto, a um passo. E sabendo disso, cada uma, está menos sozinha.
Catarina Portela - Histórias de Vida
publicado por Catarina Portela às 2013-05-09 22:00:00
Fotógrafo: Octávio Meira
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Os Seres Humanos são a raça mais perfeita de entre todos os seres da Terra. Arriscaria a dizer que também é a que possui mais defeitos. Aos meus olhos, esse mesmo facto torna-nos etéreos.
É magnífico amar o defeito de alguém. Aceitá-lo. Viver com o passado marcado. Pensar e projectar um futuro brilhante. Receber críticas admiti-las, e não as corrigir. Fruto de séculos de adaptação... Nem todas as mudanças são necessárias para que cada um de nós se sinta melhor.
Eu amo cada traço desajeitado. Cada palavra fora do sítio. Cada dança do além. Cada velho que anda atrás de meninas novas. Cada homem novo atrás de mulheres velhas. Adoro quando vejo crianças a brincar aos adultos, e saber que vão desejar aquele momento, da mesma forma que naquela altura desejam o vestido cor-de-rosa que está na montra mais próxima. Gosto dos meninos que pegam nas bonecas. E das meninas que jogam futebol.
Amo cada traço que a sociedade não aceita, que deita fora como lixo. Amo cada pessoa que não acredita na vida. E sou provavelmente a primeira a dizer. – Se a tua vida não vale nada, então não a vivas. Mas antes, dá uma volta ao mundo, para perceberes o que é sobreviver com cada dia contado.
Gosto do fato com jeito apressado, do coração que se esconde atrás de uma farda. Gosto da bondade e da justiça, que desperta como ânsia de protecção. Gosto do adolescente que existe por detrás do adulto. Da piada no momento menos correcto. Gosto do desajustado. De tudo o que me faz crer que a vida não é monótona e repetitiva. Gosto de tudo o que me faça sentir viva…
Por isso admiro os problemas, e o que eles são capazes de fazer por nós.
Catarina Portela - Histórias de Vida
6º Capítulo - Explicações(...)
publicado por Catarina Portela às 2013-05-08 22:00:24
Fotógrafo: Octávio Meira
http://esposendeimagens.blogspot.pt/
Ouvem-se passos, Susana chegou.
Fecha-se a porta lentamente, afinal nenhum desejava aquela conversa.
Talvez ganhar um tempo ajudasse a que a noticia fosse mais facilmente suportável, mas não.
Telmo estava calado. Aliás, esteve todo o tempo calado.
Eram estranhos debaixo do mesmo tecto, amores escondidos por horrores passados. Eram pedaços de vida desencontrados, ancorados aos problemas que teimam em nascer.
Susana senta-se à mesa de jantar.
- Telmo, anda para aqui! – Gritou Susana, apressando o clima de tédio.
Telmo, sem a mínima vontade, moveu-se em passos lentos.
Os dois sentados…
- Parece que está na hora meninos. Devo-vos uma explicação. – Fez-se um compasso de espera. Íris olhou-os com ternura. Eles fixavam o olhar ao longe.
- Antes de mais quero-vos pedir desculpa. Vocês talvez não compreendam agora, o que é um relacionamento. Como é facilmente desfeito, se não detectarmos a tempo, um defeito. Vocês não compreendem o que se luta durante uma vida para manter um casamento ou uma união. O que é preciso ouvir, suportar. Digamos que Eu e o Pai, deixamos que a relação fosse morrendo, e não falamos sobre isso, porque a rotina já era habitual, e já eram tantos anos que, talvez achássemos que não fosse necessário.
- Mas nada te dava o direito de nos envergonhares desta forma! Sabes hoje na escola, ninguém foi capaz de me olhar de frente… Sabes quantos zumbidos se ouviam por entre os corredores? Sabes o que foi ver a mãe abraçada a um homem que era “só amigo”? Ver o Pai a embebedar-se por tua culpa!? Sabes o que foi ficar ao lado do Telmo e dizer-lhe que tudo vai ficar bem, sem eu acreditar um segundo nisso? Onde é que tu estavas mãe? Afinal qual é a tua família? – O rancor, o ódio, o desabafo de Susana, abafava as paredes e gelavam Íris que nunca se tinha sentido tão mal em toda a sua vida.
- Filha… Eu sei que errei. Errei em não ter discutido com o teu Pai os problemas. Errei em deixar o Paulo separar-se da Patrícia. Mas filha! Acredita em mim! Eu nunca dei a Paulo uma única esperança para que ele fizesse tudo aquilo. Alias, se ele achasse que podia ficar comigo, então nunca se tinha tentado suicidar! Eu nunca mais tive contacto com ele…. Um dia, ele contou-se que se ia separar e que me amava. Mas o que eu lhe disse foi para ele lutar por Patrícia, nunca por mim.
- Eu não quero saber disso, por mim, neste momento… Olha, faz o que quiseres. Afinal agora nada pode ser pior do que tudo o que já fizeste! – Susana levantou-se da mesa, pegou no casaco no telemóvel e saiu de casa…
Telmo ali ficou, apático a ver todo aquele movimento sem ser capaz de reagir.
- Mama… - quebrou o silêncio…
- Diz Telmo.
- Tu e o Pai, vão-se separar? – Para Telmo era a única pergunta que realmente importava. Telmo lá queria saber se o amor era muito, pouco ou nenhum. Queria lá saber se o Pai trabalhava horas a fio sem poder chegar a casa a tempo de cuidar da mãe e de a ajudar. Ele nem queria saber do cansaço da mãe, nem do abraço na ponte. Telmo só queria a família debaixo do mesmo tecto. Chegar a casa e voltar a ver a mãe a preparar o jantar, ver o pai a chegar bem por detrás dela e dar-lhe um beijo escondido. Queria sorrir cada vez que derrotava o pai a jogar consola. Provar à mesa todos os petiscos que a mãe preparava, numa mesa composta por quatro lugares preenchidos. Não queria mudar, não queria mais confusões. Já não lhe bastava ver a irmã cada vez mais magra, e ouvi-la a vomitar e a fechar-se no quarto. Agora também lhe iam tirar a família?
- Telmo, querido. A mãe gosta muito de ti. E o Pai também te adora. Aconteça o que acontecer isso nunca vai mudar. Eu prometo-te que seja qual for a nossa decisão, tu nunca serás um problema. Tu e a mana, foram os melhores momentos da minha vida e da vida do Pai. Nunca te esqueças disso filho.
Telmo chorava agora nos braços da mãe. Enquanto Íris lhe acarinhavam o rosto, chorava também.
Era demasiado doloroso ver os seus filhos a sofrer por uma situação que ela tinha criado, e sobretudo que sentia que podia ter evitado.
Quando a separação está próxima e chega o momento de explicar o que aconteceu, há sempre alguém que não pode ser esquecido. A vossa vida de adultos condiciona a vida de todos os que vivem convosco. É importante salientar que também condiciona a felicidade daqueles que lá habitam. Talvez seja pedir muito que não sejam egoístas. Estes erros que são apenas vossos, colocam em jogo, bem mais do que a vossa imagem!
Vocês valem mais agora, no momento em que são necessárias explicações, explicações que não podem vir, anos e anos depois do sucedido.
A maior parte, fecha-se no quarto, sai para beber uns copos, ou esconde-se naquele local que lhe acalma a mente. Questionam-se sobre aquele momento, o momento em que falta tudo.
Ninguém sabe quando começou a faltar o carinho, nem porquê. Ninguém os vai encontrar ali. Nem amanhã, nem no próximo mês. Tudo à procura de respostas. Tudo à procura que o tempo passe sem deixar marcas, e sem ser necessário enfrentá-lo.
As respostas só aparecerão quando pensarem no “agora” como se fosse passado.

