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  <title>Coisas minhas</title>
  <subtitle>São modestas, são singelas, são histórias, &#13;
são sonhos no papel, são prosas minhas.</subtitle>
  <author>
    <name>magnolia</name>
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  <updated>2011-07-06T09:37:36Z</updated>
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    <issued>2011-07-06T10:36:25</issued>
    <title>Encerrado</title>
    <published>2011-07-06T09:37:36Z</published>
    <updated>2011-07-06T09:37:36Z</updated>
    <category term="ideias dispersas"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/pessoasepoetas/fotos/?uid=NScv8uALZUZ2raaehCAr"&gt;&lt;img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto; border: 0px;" src="http://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B0a06e1a9/8755739_Bg0L1.jpeg" alt="" width="249" height="203" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Todo o conteúdo deste blog está agora no &lt;a href="http://falarsobretudoemaisalgumacoisa.blogs.sapo.pt/"&gt;Ideias Dispersas&lt;/a&gt;. Queiram os meus amigos ler-me &lt;a href="http://falarsobretudoemaisalgumacoisa.blogs.sapo.pt/"&gt;lá&lt;/a&gt;, por favor:)))&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;(todos as histórias publicadas aqui podem ser encontradas através do tag Fábrica de Histórias)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2011-06-23T15:17:35</issued>
    <title>I love books</title>
    <published>2011-06-23T14:18:15Z</published>
    <updated>2011-06-23T14:27:29Z</updated>
    <category term="livros"/>
    <content type="html">&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;img style="border: 0 none;" src="http://t2.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcTh6aCTkHkAcuJqif_-uOqZcXfwQV2NITLL7x7rog9003RqXMmE" alt="" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2011-04-09T23:20:37</issued>
    <title>Viagem inesquecível</title>
    <published>2011-04-09T22:21:09Z</published>
    <updated>2011-04-09T22:22:21Z</updated>
    <category term="fabrica das histórias"/>
    <category term="viagem inesquecivel"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img style="border-color: initial; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto; border-width: 0px; border-style: none;" src="http://t1.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcRjONHk3pOPF-G-HOr5uht5D5qcT1XDlmGSx79Ux6Qkzlx64mKZ" alt="" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Quando naquele dia comecei a caminhar não sabia o que me esperava. Na verdade, por muito que pusesse a minha imaginação a trabalhar, da qual até me costumava gabar, não teria sido capaz de imaginar tudo o que aconteceu. Conheci uma espécie de novo mundo, um universo à parte. E na verdade, amei.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;A manhã ainda não tinha nascido quando pus os pés ao caminho. Depois, o astro majestoso elevou-se até ao céu, devagar, muito devagar, devagarinho como que se estivesse a espreguiçar-se, abrindo os braços e estendendo-os, derramando a sua luz ainda apenas morna, nas árvores, nas casas, nas estradas, nos cabos de alta tensão e nos ninhos nos beirais.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Depois, a manhã passou devagar. Caminhei entre carreiros de ervas verdes e viçosas, onde os malmequeres selvagens irrompiam sem medo das solas dolorosas dos sapatos, e o asfalto quente e pegajoso que ao longe parecia derreter. Depois foi a tarde que veio sobranceira e feliz sempre perto, muito perto do mar. A maresia envolveu-me a pele e deixou tatuadas imagens feitas de sal. As gaivotas presentearam-me com melodias que só elas conheciam e os pulgões do mar deixaram-me passar sem se deixar ver. O sol quase me cegou porque eu não conseguia deixar de olhar para aquela enorme bola de fogo brilhante, maravilhosamente quente e distante.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Foi então que o sol se pôs no horizonte e os meus pés levaram-me, meios cegos, por entre rochas e escarpas. Uma falésia e depois, ao virar da esquina, foi como se tivesse viajado apenas num minuto para um lugar distante, desconhecido mas absolutamente maravilhoso...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;A relva muito verde era um convite. Descalcei-me e senti-a macia debaixo dos meus pés massacrados pela viagem. A relva não se quebrava, pensei que seria feita de uma matéria especial, uma espécie de borracha viva, pulsante e muito bela. Depois ao longe avistei um lago feito de águas azuis. Nunca tinha visto um lago de águas tão azuis, tão brilhantes, tão serenas. Deixei-me ir até ele como se ele tivesse capacidades hipnóticas e eu não tivesse como fugir. Quando toquei com os pés nus na água, parei. A água não era fria como tinha imaginado, mas sim um pouco menos que morna. Agradável, convidativa, confortável. Fechei os olhos por momentos. Podia sentir no ar os restos do calor do dia. A minha pele estava quente e as roupas, poucas, pareciam demais mesmo àquela hora do dia. Abri os olhos e olhei em volta. Ninguém. Ao longe distinguia a vegetação luxuriante a subir pelas rochas que formavam um círculo alto à minha volta. Já não via a praia, nem o mar, nem a linha do horizonte. No entanto não estava escuro, era como se aquele lugar tivesse uma luz própria. O lago era grande, mas não muito, porque eu conseguia distinguir claramente a relva, as árvores frondosas e as flores de todas as cores que cresciam do outro lado, logo depois da linha da água.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Despi-me e entrei na água morna. Deixei-me cair sem esforço. Depois nadei até ao meio do lago e deixei-me estar ali a flutuar de barriga para cima, sem pressa nenhuma. De olhos abertos podia ver o céu de mil tonalidades, próprias do entardecer. Algumas aves planavam lá em cima e eu imaginei que fossem gaivotas, felizes, sem pressa, gozando o entardecer. O silêncio que não era silêncio imperava. Os sons da água corrente chegavam até mim, muito suaves. Eu estava tranquila, feliz. Não queria estar em mais lugar nenhum. Não tinha fome, nem sede, nem frio. Não me importavam as horas. Não pensei em nada. Apenas estava ali, a sentir a água morna a acariciar-me o corpo nu, a ver as cores do céu e a sentir o cheiro da água misturado com o cheiro das flores.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Fechei os olhos e pensei que não havia passado, nem futuro. Apenas aquele presente maravilhoso. De braços estendidos, sem qualquer esforço deixei-me levar ao sabor da água…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Foi então que senti algo na minha mão. Abri um pouco os olhos e percebi que já não estava sozinha. Um homem de olhos azul celeste, que não parecia ser novo nem parecia ser velho, estava a tocar-me na mão e sorria. Não senti qualquer medo. Sorri de volta. Não dissemos nada, não era preciso. Nadamos até à margem sem esforço e sempre a olhar um para o outro. Não tive vergonha por estar nua e ele também. Na verdade nem me lembrei de tal coisa. Não era importante sequer. Na margem, outras pessoas estavam ali e sorriram-me como se me dessem as boas-vindas. Não diziam nada mas também não parecia ser preciso. Não havia nada que desejasse saber, nem nada que precisasse de perguntar. Era como se soubesse tudo. Era como se nem interessasse saber alguma coisa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Depois o homem sem idade levou-me pela mão até aos outros. O contacto da mão dele era a serenidade. Vesti as minhas roupas sem pensar nisso e ele vestiu uma túnica larga e branca. Em redor do lago algumas fogueiras crepitavam e clareavam o céu que entretanto tinha escurecido. As estrelas brilhavam como é próprio das estrelas brilharem e a lua lá em cima, branca e pura parecia olhar apenas para mim.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Alguns dos outros dançavam danças estranhas, sozinhos ou em grupo e sorriam. Eu e o meu companheiro deitamo-nos na relva e estendidos e de braços abertos, ficamos a ver as estrelas. Num momento entre a noite e a madrugada ele tocou-me na mão e uma espécie de choque eléctrico passou pela minha pele, entrou dentro do meu corpo e foi alojar-se dentro de cada um dos meus órgãos. Foi a melhor sensação que alguma vez senti. Nunca antes tinha sentido aquela empatia, aquela alegria por conhecer alguém. Felicidade transbordante por estar perto. Felicidade apenas por estar perto e um toque suave na mão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Depois o abraço que me deu fez nascer a manhã. A claridade. O cheiro da frescura matinal. Todos estavam por ali deitados, abraçados ou não, mas felizes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Levantei-me e penso que ele entendeu que me queria ir embora, porque se levantou também e acompanhou-me até muito perto da falésia. Eu não queria ir embora, mas estava há demasiado tempo fora de casa… Deixei-o para trás pensado em voltar mais tarde, talvez ainda naquele dia. Senti o peso da tristeza nos pés e no meu coração. Ainda não tinha deixado a areia ainda fria da noite quando decidi voltar. Afinal, não tinha para quem voltar. Corri em desespero para a falésia mas não fui capaz de encontrar a entrada na rocha. O sol subiu no céu até ficar a pique, depois desceu e por fim desapareceu e eu não fui capaz de encontrar a entrada para aquele lugar magico…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Cabisbaixa, voltei a casa. Pela vidraça da janela vi a noite na cidade matizada de luzes e telhados. Talvez tivesse imaginado tudo aquilo… uma alucinação devido ao sol… Dentro do peito o coração pequenino de saudade daquele homem sem rosto. Sei que era o amor da minha vida, aquele que me estava reservado pelo universo. Tive-o apenas uma noite e mesmo assim deixou marcas indeléveis. Nunca mais ninguém o igualaria.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Depois, quando os dias passaram e a rotina se instalou, pensei muitas vezes naquela noite, na miragem da vida perfeita, num mundo perfeito. Era apenas isso, uma miragem, um sonho bonito que não sei sequer se o sonhei acordada ou a dormir… mas sei e não importa que tenha sido um sonho breve, que me aqueceu o coração, me encheu de alegria e me fez acreditar que a felicidade existe, por breves instantes mas plenos. E, a lição já nem é nova, mas fiquei a pensar que tenho mesmo é que aproveitar cada um desses breves instantes ao máximo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Texto de ficção escrito por Cláudia Moreira para a Fabrica de Histórias&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2011-03-13T23:23:54</issued>
    <title>Hoje...</title>
    <published>2011-03-13T23:26:17Z</published>
    <updated>2011-03-13T23:26:17Z</updated>
    <category term="hoje"/>
    <category term="fabrica das histórias"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img style="border-color: initial; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto; border-width: 0px; border-style: none;" src="http://t3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQBdH-B3lS3VcnMx2HDF1deYSV22sFIge4jb2DgNCT2G2NcSqrjag" alt="" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Hoje despedi-me de um lugar que fez parte de mim a vida inteira. Um lugar que me viu crescer. Um lugar que me viu aprender a andar, cair e levantar, ser menina, ir à escola, crescer mais ainda, ser mulher. Um lugar com o sabor do sol de verão. Um lugar com a textura de uma pétala de rosa humedecida pelo orvalho da Primavera. Um lugar com o sabor dos figos comidos em cima da figueira, no Outono e o calor imensamente agradável de um fogão de lenha sempre aceso, todos os dias em que cheguei da escola, molhada pela chuva gelada de Inverno. O lugar mais ternurento do mundo, a casa da minha avó.  &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Despedi-me deste lugar com o coração apertado pela saudade da voz tranquila da minha avó materna, da saudade das suas mãos de costureira que amassavam a massa para a boroa, que depois comíamos quente com manteiga a derreter. Já sabia que um dia teria que ser, mas só no momento se sente com rigor a dor das partidas…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Há quase três anos que nos deixou na saudade e parece que foi há tanto tempo… Faz tanta falta o seu carinho, a sua voz que nunca se elevava, a sua sopa de feijão rajado, o doce de tomate feito pelas suas mãos em tardes de inverno. Faz tanta falta o silencio daquela casa nas longas tardes de verão, do tic-tac do relógio no quarto quando ainda era obrigada a dormir a sesta. Faz-me falta o seu profundo olhar azul a dizer-me gosto de ti, em silêncio. Faz-me falta a minha querida avó.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Fechei as portas atrás de mim, uma a uma e deixei em cada divisão a saudade, mas trouxe comigo muitas lembranças, todas as que fui capaz de agarrar. Trouxe sorrisos e gargalhadas, choros e tardes de sol. Trouxe primaveras e amêndoas da Páscoa. Trouxe ameixas e manhãs de chuva à janela. Trouxe dias de brincadeiras e bolo de laranja. Trouxe tantas lembranças boas que por momentos me encheram o coração de lágrimas de saudades e sorrisos de alegria.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Fechei a última porta com dificuldade. Aquele lugar vai passar a ser de outra pessoa. De outras pessoas. Outras crianças irão correr pela casa e pelo quintal. Outros pais irão passar ali tardes de Domingo ensolaradas. Outras visitas irão apreciar o ar tranquilo do bairro aldeão. Outras memórias habitarão aqueles corredores, aqueles quartos, aquelas árvores que entretanto serão velhas. Outras pessoas usarão a cozinha para fazer pratos deliciosos e talvez deitem fora o velho fogão de lenha…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Olhei para trás uma última vez e pude ver claramente o rosto sorridente da minha querida avó a olhar-me. A mão acenava-me devagar. Por fim, pareceu-me que uma pequena frase se formava na sua boca bonita: até um dia…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;E depois eu sorri e o nó desfez-se então na minha garganta…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Texto escrito para  a Fábrica de Histórias por Cláudia Moreira&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2011-03-06T23:36:06</issued>
    <title>O último retrato</title>
    <published>2011-03-06T23:39:02Z</published>
    <updated>2011-03-06T23:39:02Z</updated>
    <category term="fabrica das histórias"/>
    <category term="o último retrato"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img style="border: 0 none;" src="http://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/b8c050560/8089214_bNv1M.jpeg" alt="" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;                &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;O Carnaval está ai à porta de novo. Sempre que se aproxima mais uma data importante parece-me sempre impossível que o tempo tenha passado tão depressa... Indigno-me e fico ligeiramente amuada e é mais ou menos por aqui que costumo ir rever o meu baú dos tesouros para comprovar que o tempo passou. Mas hoje não pôde ser logo quando me apeteceu porque ainda o almoço estava a ficar pronto no forno, quando chegaram os meus filhos, netos e bisnetos. Os mais pequenos traziam fantasias de abelhinhas, vaquinhas e outros animais fofinhos. Os mais velhinhos eram por momentos policias, índios e cowboys. Os meus netos já estavam ligeiramente grisalhos e as barrigas denotavam muitas horas de trabalho de secretária. Os filhos…bem os filhos já estavam quase tão velhotes como eu...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Almoçamos entre gritinhos e gargalhadas das crianças e os meus filhos procuravam aproveitar ao máximo a presença dos seus próprios filhos, os meus netos. Eu olhava-os enternecida e agradecia silenciosamente a Deus que me tivesse dado anos de vida suficientes para poder ver momentos maravilhosos como este. Apenas faltava ali a pessoa que tinha sido durante quarenta e cinco anos o meu companheiro de vida, aquele a quem tinha amado incondicionalmente e que me tinha sido arrancado dos braços há já dez anos. No entanto, a saudade era tanta como no dia em que, com apenas dezoito anos me tinha deixado ficar na plataforma da estação dos caminhos-de-ferro para ir cumprir o serviço militar, porque nem mesmo agora tinha deixado de o amar. Uma lágrima quis descer pelo meu rosto e a custo levantei-me, fingindo ir a cozinha, mas na verdade indo ao quarto que tinha sido o nosso. Fui até à caixa das fotografias. Precisava de lhe dizer que tinha saudades e que a família estava toda ali de visita e que os pequenos estavam lindos. Peguei numa das fotos mais antigas, depois noutra já mais velho, depois noutra e noutra e noutra. Quando dei conta já tinha muitas fotos espalhadas na cama que durante tanto tempo partilhamos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Entre elas vi aquelas fotos que tantas vezes tínhamos visto juntos no passado... Talvez uma das mais antigas que ali estavam na caixa das memórias. Era uma das poucas fotos que tinhas trazido contigo no dia do nosso casamento. Contavas sempre entre muitas gargalhas que tinha sido um dia muito estranho o dia em que tiraram aquele retrato. Os avós tinham insistido que era preciso tirar um retrato dos netos porque estavam todos tão bonitos nos seus fatos de Carnaval. Dizias sempre que tinha sido um autentico milagre o fotografo ter conseguido que ficassem todos quietos e juntos para se poder tirar a fotografia. O que todos queriam mesmo era ir brincar e correr para o jardim. Tinha sido o último retrato de família antes que todos se começassem a dispersar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Depois das gargalhadas olhavas cada uma das pessoas da imagem e contavas que a prima Maria, vestida de criadinha, tinha morrido no ano seguinte de tuberculose. O primo José, vestido de engraxador, tinha ido estudar para Coimbra e era agora doutor. O primo Manuel, vestido de arlequim, tinha ingressado no seminário e a prima Adelaide, vestida a rigor de dama antiga, tinha casado com um estrangeiro e depois disso não tinha voltado a Portugal. Contavas o que tinha sucedido a cada um e com o passar dos anos as histórias aumentavam o volume e evoluíam tal como a própria vida. Era a partir dali, daquela imagem, que construías as histórias da tua família para me poderes contar tudo o que eu não sabia de ti. Era para ti uma referência, uma cábula, uma memória em papel para não te deixar esquecer nenhum deles...  E, mesmo depois, quando a doença te começou a fazer esquecer as tuas memórias, gostavas sempre de ir ali à nossa caixa das recordações para lembrar o que por vezes teimava em querer desaparecer...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Com o retrato na mão olhei pela janela. Os meus bisnetos brincavam no meu pequeno jardim, os meus netos e os meus filhos estavam sentados nos bancos de jardim pintados de branco que eu própria tinha pintado há muitos anos atrás… Guardei tudo na caixa e limpei as lágrimas. Quando cheguei ao jardim levava comigo um sorriso aberto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- Meus queridos filhos, tenho a certeza que um de vocês tem uma máquina fotográfica. Gostava muito de ter um retrato de família no dia de hoje… Acham que podem fazer esse gostinho aqui à vossa velhota?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Texto de ficção escrito por Cláudia Moreira para a Fábrica das Histórias&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2011-02-20T23:21:36</issued>
    <title>Post-scriptum</title>
    <published>2011-02-20T23:27:55Z</published>
    <updated>2011-02-20T23:27:55Z</updated>
    <category term="fabrica das histórias"/>
    <category term="post-scriptum"/>
    <content type="html">&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto; border: 0px none initial;" src="http://t2.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcStgdZ71liE1e4hGOfBVLO9JNhpfzSCt4IfgYke68sPLf2jUdqsog" alt="" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Beijos, muitos,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Com amor.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;c.m.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;strong&gt;Post-scriptum:&lt;/strong&gt; Já tinha dobrado a folha em três com todo o cuidado… Já a tinha colocado dentro de um dos envelopes especiais que uso para te escrever... Já tinha decidido não pensar mais em ti… Já tinha despido a roupa que tinha usado nesse dia que ainda trazia o teu perfume. Já tinha entrado na banheira, o vapor da agua quente a envolver-me o corpo… já sentia a água a cair no cabelo, nas costas, no peito, a descer pela barriga, a passar livremente pelo pequeno triangulo negro, a descer numa carícia longa pelas coxas e sempre até aos pés… E foi então que senti uma vontade incontrolável de te ter perto… De sentir novamente as tuas mãos macias no meu corpo, fazendo-o sentir coisas que mais ninguém fazia sentir… De sentir o teu beijo lento, quase tântrico… de sentir a tua urgência ali tão perto da minha urgência… Fechei os olhos e imaginei que estavas ali comigo…que me dizias que era tudo um engano e que querias fazer amor comigo uma única vez a noite toda ou muitas vezes na noite toda… e que não importava que não dormíssemos nem importava que gritássemos e não importava que relampejasse e trovejasse, nem importava que o mundo acabasse…E beijavas-me a boca, o pescoço, o peito e todo o meu corpo… E dizias que me amavas... Que me amarias para sempre...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Depois abri os olhos e estava sozinha e a água continuava a correr pelo meu corpo e a desaparecer no ralo da banheira… Envolvi-me numa toalha que tinha sido a tua toalha e ainda molhada escrevi estas palavras…Não sei a razão mas apeteceu-me partilhá-las contigo. Por isso abri novamente o envelope, desdobrei a carta e agora escrevo-as… São para ti… São para que saibas que jamais te esquecerei…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;No meu corpo estás tu&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Dentro de mim, fora de mim, em mim…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Para sempre…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Nos meus lábios o gosto adocicado&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Dos teus lábios carinhosos… ansiosos…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Para sempre…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Na minha boca ainda a tua língua&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Segura e quente… num pedido urgente…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Para sempre…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Na textura dos meus dedos&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Os teus dedos suaves… irrequietos…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Para sempre…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Nos meus ouvidos o som da tua voz&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Quente, envolvente a dizer palavras de amor…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Para sempre.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Nos meus negros e longos caracóis rebeldes&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Ainda a urgência quase bruta dos teus dedos…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Para sempre.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;O teu perfume aprisionado em cada poro&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Da minha pele, agrilhoando-se a cada fino pêlo meu…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Para sempre…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Na minha branca epiderme estás tu&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Intensa e profundamente tatuado…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Para sempre.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Para sempre.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;A minha palavra para ti é amor. Depois mais duas: para sempre!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Beijos com sabor a saudades perpétuas...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Com amor.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;c.m.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Texto de ficção escrito por Cláudia Moreira para a Fábrica das histórias&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2011-02-13T18:05:48</issued>
    <title>Isa</title>
    <published>2011-02-13T18:17:58Z</published>
    <updated>2011-02-13T18:17:58Z</updated>
    <category term="isa"/>
    <category term="fabrica das histórias"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center;"&gt;&lt;img style="border: 0 none;" src="http://t2.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcRXzC7Y9Y3U2OBjcAt5ZA2ly8cA3FuOxl5B5dmEyExePwhaIfSKvg" alt="" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;Isa não era uma menina como todas as outras. Trazia uma herança consigo no dia em que nasceu: poderes mágicos!&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt; &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;Isa descendia de uma longa linhagem de bruxas e feiticeiros, todos eles famosos e bastante temidos pelo comum dos mortais. Mas Isa nasceu muito diferente dos seus pais, tios, avós e bisavós…&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt; &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;Isa nasceu com os cabelos loiros e de olhos azuis, os mais bonitos de que já ouvi falar. Não tinha nenhuma parecença com a família, seres não muito bafejados pela beleza, todos demasiado morenos e sinais particulares como narizes aduncos, pele com verrugas e cabelos crespos. Mas ela não, a sua pele branca, quase etérea que apetecia tocar, os seus olhos azuis céu electrizante fazia-a parecer um pequeno anjo no meio de todos os outros seres com mais ou menos aspecto demoníaco.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt; &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;Também por dentro Isa se revelou diferente de todos os outros. Ao contrário dos outros elementos da família, não revelou cedo o poder que detinha. Em vão os pais tentaram que ela fizesse poções venenosas, dissesse palavras mágicas, que transformasse gatos em cães e cães em gatos, que tornasse um doce salgado ou mais simples ainda que fizesse tombar copos sem tocar com as mãos ou fizesse garfos e facas dançar em cima da mesa. Até que um dia, desistiram.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt; &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;Isa foi votada ao esquecimento. Os pais cobertos de vergonha por aquela filha que nada sabia fazer e ainda por cima com um aspecto angelical que os deixava sem saber onde se meter, deixaram-na à porta de uma igreja no sítio mais recôndito dos pais. Isa tinha sete anos.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt; &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;O pobre padre que a encontrou quando foi abrir a porta para a primeira missa do dia, rendeu-se de imediato à sua beleza. Deu-lhe um frugal pequeno-almoço que era basicamente tudo o que tinha e tentou compreender porque a teriam ali deixado mas Isa não disse uma palavra. Olhava através do padre e fixava a sua atenção na pequena imagem de Maria, único objecto decorativo da parede que se erguia atrás o padre. Ao cabo de uns minutos o pobre homem desistiu. Deu-lhe a mão e levou-a até à igreja. Deixou-a sentada no banco da frente e disse a missa pedindo a Deus que guiasse os seus passos, que o ajudasse a perceber o que fazer com aquela menina tão estranha que lhe tinha aparecido ali à porta.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt; &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;Depois da missa levou-a novamente para casa e voltou a insistir para que lhe dissesse quem era e de onde vinha, mas o resultado foi o mesmo. Nada. Nem uma única palavra. O padre não teve coragem de a mandar para um orfanato e depois de indagar pelos seus paroquianos se sabiam quem ela seria, foi ficando com ela. Angariou entre os seus fiéis algumas roupas e calçado para ela e passou a dormir na sala, cedendo-lhe assim o seu quarto.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;Passaram-se dias, semanas e meses e nada de Isa falar. Nem um som. Os seus olhos vagueavam por todo o lado, mas atentos a tudo. Tocava em todos os objectos com uma delicadeza que impressionava, estudando-os, quase como se fosse cega e usasse a ponta dos dedos para ver. Crescia e estava cada dia mais bonita.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt; &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;Um dia algo aconteceu que mudou o rumo da vida de todos os habitantes da aldeia. Foi um Domingo na missa da manhã. O sol ainda nem sequer tinha nascido. Isa estava sentada no banco da frente como em todos os Domingos desde que ali tinha chegado. Nessa manhã tinha uma outra pessoa sentada nesse banco. Era uma menina mais ou menos da idade de Isa que raramente saia de casa porque sofria de uma doença degenerativa e as pernas estavam a deixar de funcionar. Isa olhou-a longamente no rosto e depois para as mãos que estavam encolhidas e depois para as pernas, demasiado magras e tortas, os pés deformados dentro de uns sapatos velhos. Depois de uns momentos assim, em meditação, Isa saiu dessa espécie de contemplação e tocou ao de leve na menina. Primeiro no rosto e depois nas mãos e de seguida nas pernas. Depois encostou-se mais a ela e segredou-lhe ao ouvido:&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt; &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;- Olá, eu sou a Isa e tu? &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt; &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;Foi então que a menina começou a gritar. O padre olhou-a estarrecido e as poucas pessoas que ali estavam, incluindo a mãe da menina doente acorreram a ver o que se passava… Depois de uns momentos de confusão, em que Isa se deixou estar quieta e calada, a mãe da menina doente caiu desmaiada. Quando voltou a si, um ou dois minutos depois, tudo estava como antes. A sua filha estava curada. Nem sinais de pernas tortas ou mãos tolhidas. Nada. Perfeita. Olhou-a sem compreender. Então a menina, já um pouco mais refeita da surpresa pelo que lhe tinha acontecido, levantou uma das mãos e apontou sem qualquer problema para Isa e disse:&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt; &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;- Foi ela que me curou!&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt; &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;Foi o descalabro total, a confusão, gritinhos, toda a gente a falar ao mesmo tempo, o padre a tentar instaurar a ordem. Apenas a Isa se mantinha calada.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt; &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;Na sua cabeça não compreendeu de imediato o que tinha acontecido. Saiu de mansinho e foi até à casa de uma pessoa que ela sabia que estava doente pois tinha acompanhado o padre muitos Domingos em que ele levava a Comunhão ao tal senhor que já não podia sair da cama. Tocou à porta e fez sinal como quem pergunta se podia entrar. A mulher abriu-lhe mais a porta e deixou-a passar. Isa entrou então no quarto e tocou ao de leve na cabeça do homem, depois no corpo, sempre levemente, depois fechou os olhos e no seu coração desejou que aquele homem ficasse bom. Quando os abriu ele estava a sorrir mas as lágrimas corriam-lhe pela cara… sentia-se de saúde perfeita, levantou-se da cama e pegou na Isa ao colo, abraçando-a. Quando a pousou, Isa sem dizer nada, foi até à porta…&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt; &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;Lá fora, quase toda a aldeia a esperava. Tinham ido atrás dela e de caminho outros se tinham juntado à procissão. Receberam-na entre clamores de admiração e suspiros de receio e respeito. Isa, um pouco assustada, foi até à beira do padre e disse-lhe ao ouvido que queria ir para casa…&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;O padre, feliz, ergueu os olhos ao céu e agradeceu aquele milagre em forma de menina que Deus lhe tinha posto à porta.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt; &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;Depois deste outros milagres se seguiram. Isa afinal tinha verdadeiros poderes mágicos, que cresciam com ela, mas esses poderes mágicos tinham uma condicionante: só funcionavam se fossem acompanhados de verdadeiros actos de amor. E isso Isa tinha para da e vender, Isa tinha um enorme coração, cheio de amor a transbordar!&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;E, pronto, é esta a história de Isa, a pequena feiticeira de olhos azuis. Claro que não passa de ficção, de uma história que acabei de inventar, mas dou comigo a imaginar que embora ninguém tenha verdadeiros poderes mágicos, todos nós somos capazes de pequenos grandes actos de amor e que muitas vezes esses pequenos grandes actos de amor são capazes de fazer verdadeiros milagres. De fazer alguém que está triste sorrir, de fazer alguém que esta doente ficar melhor, de tornar alguém solitário menos infeliz…como por magia… Palavras, abraços, sorrisos, carícias são pequenos gestos mágicos que podem transformar a vida de alguém. Experimentem um pouco desta magia vocês mesmos. Quem sabe um dia não se tornam verdadeiros feiticeiros do amor?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Texto de ficção escrito por Cláudia Moreira para a Fábrica de Histórias&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2011-02-06T22:58:39</issued>
    <title>Página em Branco</title>
    <published>2011-02-06T23:02:03Z</published>
    <updated>2011-02-06T23:02:03Z</updated>
    <category term="página em branco"/>
    <category term="fabrica das histórias"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto; border: 0px none initial;" src="http://t3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcT7OshbO_NIk18-9kKC6j395n-0mf2eodSczHdAZeuOQPgJJBbEIw" alt="" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Deus encontrou-me na berma da estrada, quando me sentei, quebrada, para descansar. As minhas lágrimas, grossas, caiam-me no vestido que eu sabia ser vermelho, mas que eu não via senão cinza e deixavam grandes marcas redondas mais escuras. Sucumbi ao cansaço extremo da caminhada que fazia e deixei-me cair naquela beira de estrada perdida do mundo. Olhei o céu mas o não vi azul, depois olhei as copas das árvores e não as vi verdes. Também não senti o cheiro das flores silvestres que por ali cresciam livres e despreocupadas da vida. E os pássaros, criaturas livres que esvoaçavam por ali, não os ouvi também. Nada parecia bulir ao meu redor. O cinzento pigmentava tudo e a minha alma era da cor das rochas vulcânicas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Deus disse-me:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- Que tens mulher?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- Estou cansada da minha vida… - respondi eu a custo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;E Deus que tudo vê, disse-me então.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- Sei de que precisas. Vou dar-me uma oportunidade única na vida. Uma página em branco onde poderás reescrever tudo!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Eu, que mal conseguia sustentar-me de pé, agradeci e pela primeira vez em muito tempo, esbocei um sorriso. Pensei na possibilidade de começar tudo de novo e em como seria apagar todos os erros cometidos, excluir pessoas que me magoaram.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Então de repente, como por magia, tudo ficou branco e silencioso à minha volta. Não havia estrada, nem muros, nem árvores, nem céu, nem pássaros. Nada. Apenas o vazio. Na minha mão uma folha e um lápis. Pensei então que o ideal seria começar do inicio, do dia em nasci.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Ia para escrever que tinha nascido de pais ricos quando me apercebi que então não poderiam ser os meus. E eu não queria outros pais, queria aqueles que tanto me haviam ensinado e amado. Então escrevi que queria os mesmos. Depois pensei nos meus irmãos e percebi, mesmo na imensidão branca onde estava, que gostava tanto deles que me seria impossível nunca mais os ver. Também não queria outros irmãos. Então escrevi que queria os mesmos pais e os mesmos irmãos. Depois pensei em andar numa escola diferente onde pudesse fazer amigos, mas depois pensei com saudades na primeira vez que me sentei num dos bancos da escola, que depois os meus filhos haveriam de se sentar nos mesmos, na professora que sempre me elogiou e pensei que não queria outra escola, nem outra professora. Então escrevi que queria os meus pais, os mesmos irmãos, a mesma escola e a mesma professora. Depois pensei que não queria ter tido o mesmo marido mas rapidamente entendi que mesmo no meio da tristeza houveram coisas boas e filhos maravilhosos que com outro marido não poderiam de maneira nenhuma ser os mesmos. Então na minha história nova ficaram os mesmos pais, os mesmos irmãos, a mesma escola, a mesma professora, o mesmo marido.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Foi nessa altura que uma saudade dolorosa invadiu todo o meu ser e só pensava que queria abraçar os meus filhos, apertá-los nos meus braços, beijá-los muitos, tê-los perto de mim, carne com carne. Pensei que gostaria de partilhar um abraço com aquele que foi meu marido, agradecer pelos bons momentos e perdoar os menos bons. Senti uma grande vontade de voltar aos bancos da escola, de voltar a aprender coisas novas, de ter alguém que me elogiasse e incentivasse a ser sempre boa em tudo o que fizesse. Apetecia-me abraçar os meus irmãos e lembrá-los que os amos muito. E ao mesmo tempo queria tanto agradecer aos meus pais por me terem feito quem sou, pela educação que me deram, pelos valores que me incutiram, pelo amor, por todo o amor...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Por fim, pensei nas tardes solarengas de verão da minha infância, do céu tão azul como nunca mais vi outro, das nuvens com formas que me faziam voar a imaginação para lugares longínquos, das flores amarelas que eu juntava em colares e pulseiras e coroas de princesa, nas amoras que colhia nos caminhos velhos e me sabiam pela vida…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Por fim, o pensamento mais importante de todos entre todos, pensei no dia de nascimento dos meus filhos, na primeira vez que os vi, nus, indefesos, frágeis, enrugados, pequeninos. Pensei na felicidade que me encheu o coração, na promessa intrínseca de os proteger e amar até ao fim da vida. Pensei na alegria de ser mãe, de ter criado um novo ser, perfeito e belo como mais nenhum. Agradeci ter sido tão bafejada pela sorte ao conceder-me o privilégio de ter tido aqueles filhos, os meus filhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;E foi mais ou menos por aqui que os meus lábios formaram um sorriso aberto incontrolável e foi mais ou menos por aqui que abri os olhos e me senti dorida da pedra dura onde me tinha sentado e vi o céu azul, as árvores verdes, os pássaros a cantar, os pequenos dente-de-leão amarelos que cresciam ali mesmo na berma da estrada e que eu podia tocar se quisesse. E o vestido. O vestido vermelho ainda húmido das minhas lágrimas…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Levantei-me e não senti cansaço nenhum. Segui caminho como se tivesse apenas começado agora a caminhar. Senti que tinha forças para caminhar até ao fim do mundo se preciso fosse. Senti que estava viva e que, acima de tudo, queria continuar viva por mim, e por todos aqueles que fazem parte da minha vida, e farão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Na verdade, tenho de dizer a Deus quando o encontrar de novo, que não tenho necessidade nenhuma de uma página em branco…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Texto de ficção escrito para a Fábrica de Histórias por Cláudia Moreira&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2011-01-28T21:28:10</issued>
    <title>Chama Solitária</title>
    <published>2011-01-28T21:36:33Z</published>
    <updated>2011-01-28T21:37:26Z</updated>
    <category term="fabrica das histórias"/>
    <category term="chama solitária"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto; border: 0px none initial;" src="http://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/b5f06e175/7917089_vCcj7.png" alt="" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Eu estava ali sentada há apenas alguns minutos e a única chama acesa era aquela que eu própria tinha acendido.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;A igreja estava deserta, escura e fria. O cheiro bafiento da madeira comida pelo bicho e da cera derretida impregnavam o ar. O cheiro próprio dos velhos que debitam terços atrás de terços pairava por ali denunciando a sua presença assídua. Sentei-me no banco mais próximo de uma coluna larga de pedra fria onde estava encostada a mesa com as velas. Acendi uma delas e sentei-me, enrolada num velho casacão gasto, a olhá-la. A chama clara e quente libertou um cheiro agradável. Sentia a falta das minhas pessoas, daquelas que já partiram e lembrei-me delas com saudade, mas não rezei. Bem sei que é absurdo ir à igreja, acender uma vela e não rezar, mas já nem sequer me lembro das orações que aprendi na catequese. Já não sei rezar. Penso apenas nas minhas pessoas e sinto-lhes ainda a carne quente nos meus lábios como quando em vida lhes dava beijos nas caras já enrugadas. Os meus queridos avós.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Tenho muitas saudades e sinto uma pontinha de dor no peito. As lágrimas querem sair mas não deixo. Não quero chorar. Sei que eles também não querem que eu chore. Olho os vitrais da velha igreja românica e penso na sua beleza. Ouço o silêncio e deixo que entre dentro de mim. Sinto-me em paz ali entre as altas e velhas paredes de pedra gasta. Os santos olham-me de cima dos seus altares vestidos com as suas roupas estáticas e parecem tristes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Eu também estou triste. Sinto-me só. Vou muito à igreja em busca da paz que me falta na vida. Por vezes tento conversar com Deus, mas ele não é muito conversador. Mas é bom ouvinte e eu aproveito para desabafar. Conto-lhe tudo. Conto-lhe tudo o que me vai na alma. Conto-lhe o que me atormenta. Conto-lhe os meus sonhos. Conto-lhe os meus desgostos. Às vezes peço-lhe a opinião sobre uma coisa ou outra mas ele na maioria das vezes fica em silêncio absoluto. Creio que fica à espera que eu própria encontre a resposta dentro de mim. Umas vezes encontro, outras vezes não. Acho que ele poderia facilitar muito mais a minha vida...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;O tempo passa e dói-me o corpo de estar tanto tempo sentada na mesma posição no velho banco de madeira. Está frio. Um arrepio passa por todo o meu corpo e até os cabelos no alto da cabeça ficam eriçados. É noite já. O velho padre passa a coxear pela nave principal e vê-me. Cumprimenta-me educadamente. Já me conhece destas visitas solitárias mas até agora nunca me falou. Creio que desconfia que o meu propósito não é o religioso e não me confronta. Talvez tenhas esperanças que um dia venha a ser e lhe fale de livre vontade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Penso em ir embora, mas não me apetece. Não tenho ninguém lá fora à minha espera. O meu estômago ressente-se das horas que ali passei. Digo em silêncio adeus aos meus entes queridos, cumprimento com um aceno de cabeça a Virgem e o menino, o São João Baptista e a Santa Rita. Levanto-me e depois de um breve sinal da cruz viro as costas ao altar e saio para a noite fria de Inverno. E também a frágil chama solitária se extingue...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Texto de ficção escrito para a Fábrica das Histórias por Cláudia Moreira&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2011-01-23T23:21:11</issued>
    <title>Não há amor como o primeiro...</title>
    <published>2011-01-23T23:23:33Z</published>
    <updated>2011-01-23T23:23:33Z</updated>
    <category term="fabrica das histórias"/>
    <category term="não há amor como o primeiro"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto; border: 0px none initial;" src="http://t1.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQXHKT0NTRotOYgVNZ_BVSQytCwO27gwPxnEq_loDM_fGcb-hHL" alt="" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;É verdade caros leitores, não há amor como o primeiro, e a prova disso é a minha própria história de amor. Querem ouvir?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Ainda usávamos fraldas quando nos vimos pela primeira vez. Ele e a sua família tinham acabado de se mudar para a casa ao lado da nossa. Depois dos primeiros dias de timidez começamos a brincar. Ele trazia os carrinhos para o nosso jardim e eu punha as bonecas em cima dos carros. Depois inventávamos que íamos todos passear, os bonecos eram os filhos e nós, a mãe e o pai. Depois, a minha mãe fazia um bolo de laranja e leite com chocolate para o lanche e comíamos, felizes, sentados numa pequena manta debaixo do carvalho que ocupava uma grande parte do jardim. E riamos muito de tudo e de nada e éramos felizes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Depois veio o tempo da escola e íamos os dois de mão dada até à escola. As nossas mães, atrás, conversavam e eram amigas. Deixavam-nos na escola e sentávamo-nos sempre um ao lado do outro. No recreio ele não ia jogar à bola com os amigos enquanto não tivéssemos lanchado os dois, sentados nos degraus da parte de trás da escola. Depois se algum menino ou menina se metia comigo era certo que ele me defendia, debatia-se e batia até que me tivessem pedido desculpas. Quando ele rasgava as calças na escola eu pedia à minha mãe que as cosesse para que a mãe dele não lhe ralhasse. Depois da escola saiamos a correr para a rua e brincávamos até que a noite nos obrigasse a voltar. Foi ele que me ensinou a andar de bicicleta e fui eu que o ajudei em todas as lições que ele não conseguia perceber. Partilhamos segredos, inventamos brincadeiras. Depois do jantar escapávamo-nos de casa e íamos ver as estrelas deitados no telhado, nas traseiras da casa dele. Dávamos as mãos conversávamos horas e horas a fio sobre tudo e sobre nada. E os anos passavam tranquilos e felizes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Depois veio a adolescência e com ela alguma estranheza de sentimentos. Os abraços que tantas e tantas vezes tínhamos trocado tinham agora outro sabor. Olhávamos nos olhos um do outro e sorriamos. Depois um dia houve um beijo. E depois repetimos esse beijo. E depois dessa noite e desses beijos soubemos que seriamos um do outro para sempre.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Dissemos aos nossos pais aquilo que eles já sabiam. Dissemos que era amor o que nos unia. Era o nosso primeiro amor e tínhamos a certeza de que seria o último. Tínhamos certeza de que nada nem ninguém nos poderia separar. Fizemos planos para o casamento, imaginamos os nossos filhos a brincar ali mesmo naqueles jardins onde nós sempre brincamos. Planeamos viagens e imaginamos chegar a velhos de mãos dadas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Depois um dia veio a faculdade e tivemos que separar os nossos caminhos pela primeira vez. Foram dias tristes os que antecederam a partida, cada um para uma cidade diferente. Depois as saudades foram demasiadas e tivemos as nossas primeiras desavenças. Depois conhecemos outras pessoas e desligamo-nos um pouco. Terminamos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Durante alguns anos namoramos outras pessoas, fizemos outros planos. Crescemos. Parecia-me que éramos felizes. Mas não éramos. Nenhum amor era como tinha sido o nosso amor.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;E tivemos a certeza absoluta disso no dia em que nos voltamos a encontrar. Cara a cara, olhos nos olhos. Foi num dia de Outono e as folhas cobriam o jardim de casa dos meus pais. Ele era agora um homem. Deixara crescer uma barba, que embora rala, lhe ficava bem. Os olhos azuis eram agora os olhos de um homem, o adolescente tinha ficado para trás no tempo. Eu própria estava diferente, mais mulher. Olhamos um para o outro longamente. Depois ele caminhou até mim em silêncio e abraçou-me carinhosamente. Foi como se o tempo não tivesse passado. Beijamo-nos e nesse beijo estava a certeza de que afinal iríamos ficar juntos. Para sempre…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Texto de ficção escrito para a fábrica das histórias por Cláudia Moreira&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2011-01-16T00:05:36</issued>
    <title>Raiva, uma amiga preciosa...</title>
    <published>2011-01-16T00:11:40Z</published>
    <updated>2011-01-16T00:11:40Z</updated>
    <category term="raiva"/>
    <category term="uma amiga preciosa"/>
    <category term="fabrica das histórias"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto; border: 0px none initial;" src="http://t3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQlU2c2fEx4AsL-TT9ot--w4WfzSeWs4dzLe2vuIT6vcPzlHIsO" alt="" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Já era a terceira vez em menos de dez minutos que aqueles fedelhos mimados me mandavam ir buscar a bola, que invariavelmente quando a chutavam com demasiada força, ia cair no meio das roseiras. Já tinha um belo arranhão na perna.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- Eh! Tu aí! Vai buscar a bola!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;E riam-se de mim…Respirei fundo. Não podia dizer que não. Os dois rapazes eram filhos dos patrões dos meus pais e não me convinha que fossem fazer queixa de mim. Larguei a enxada com que estava a preparar a terra para pôr umas flores novas no jardim e pela quarta vez fui buscar a bola.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- Oh fedelho! Vai-nos buscar água! Temos sede!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Os pequenos reizinhos suados e malcriados debitavam ordens atrás de ordens. A mim metiam-me nojo estes rapazes que mal sabiam ler e escrever mas agiam como se fosse os seres supremos do universo. A culpa era dos pais que os mimavam demais.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Com a água na mão, olhei o fundo do copo e apeteceu-me cuspir lá dentro. Nunca diziam por favor. Nunca diziam obrigado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- Cheiras a bosta de vaca! Que nojo! Não tens banheira em casa?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Não lhes respondi. Dentro de mim a raiva crescia. Tinha tanta, mas tanta vontade de lhes dar um estalo! Como podiam ser tão indelicados? Tão maldosos?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Quando eu nasci já os meus pais estavam empregados naquela casa. Eram pessoas humildes, sem estudos, sem recursos mas honestos. Tinham vindo viver para ali, logo que se casaram, como caseiros, há falta de melhor. Na aldeia onde viviam não havia lugar para eles e muito menos para os filhos que queriam ter. Os patrões eram velhos e com a sua morte sucedeu-lhes o filho mais velho como patrão da casa. Este filho, advogado, raramente estava em casa e deixava que todos os assuntos fossem tratados pela mulher. A mulher, uma alma diabólica, pessoa capaz de tudo para ser o centro das atenções, pisava todos os que tivessem a infelicidade de estar por perto. Os meus pais eram talvez os mais afectados. O meu pai menos, porque tinha a sorte de trabalhar nos jardins e nos pequenos arranjos e não tinha que dar de caras com ela muitas vezes, no entanto a minha mãe era o bombo da festa. Na cozinha era a pior cozinheira do mundo, nos quartos só fazia asneiras, nas roupas eram uma desmazelada. Tudo isto na boca da vil patroa, porque a minha mãe era uma funcionária eficiente, organizada, tranquila e humilde. E de tão humilde que era deixava-se sempre pisar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Eu cresci ali, a ver tudo isto. Também cresceram os filhos dos patrões. Eram apenas dois anos mais novos que eu, mas não nos era permitido brincar. Eles brincavam no quarto dos brinquedos, vestidos com as suas roupas de principezinhos e eu ajudava o meu pai no jardim. Cresci com a terra debaixo das unhas das mãos e o cheiro do estrume impregnado na roupa. Depois ia à escola mas nunca conseguia disfarçar os lanhos nas mãos, o cheiro da terra na pele. Eles chegavam de uniforme imaculado no carro com motorista e olhavam-me com desprezo. As minhas roupas não eram bonitas. Os meus sapatos eram sempre herdados de outros rapazes, às vezes um número acima. Eu não tinha brinquedos bonitos. Eu não tinha livros encadernados. Eu era pobre.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- Não ouviste? Além de cheirares a vaca também és surdo?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Olhei-os com desprezo. Nos olhos deles vi desprezo pela minha condição de pobre, nos meus eu sabia que havia desprezo pela sua condição de estúpidos. Senti a raiva crescer dentro do peito, avançar pelo meio dos músculos, levada na corrente sanguínea para todos os pontos do meu corpo, mesmo os mais pequenos ou afastados. Senti um calor insuportável na cara. Dentro de mim uma revolta demasiado grande para um miúdo suportar. E um gosto amargo de orgulho ferido. Eu sempre fui pobre, mas não burro. Era capaz de fazer tudo o que eles faziam! Era capaz de usar as mesmas roupas! Era capaz de estudar as mesmas coisas! A culpa de ter nascido pobre não era minha. Tinha sido o acaso.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Raiva. Era uma raiva muda que habitava agora dentro de mim. Todos os dias crescia. E crescia. E de cada vez que se cruzava com os pequenos déspotas ou com a sua viperina mãe sentia-a crescer ainda mais. Estava dentro de mim como um tumor maligno. E crescia. E crescia. E parecia-me a mim ser um mal incurável. Fiz juras de um dia me vingar! Fiz juras de um dia ser poderoso! Sonhei que um dia todos eles haveriam de precisar de mim! Construi histórias rocambolescas em que eles andavam andrajosos pelas ruas e ninguém os ajudava, como se fossem leprosos! Sentia a raiva muda comandar todos os meus pensamentos e sonhos! E então jurei que um dia haveria de ser tão poderoso como o patrão e achei que nada melhor do que a mesma profissão para conseguir alcançar esse objectivo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Hoje tenho quase cinquenta anos e sou efectivamente advogado. Não importa se sou poderoso, ou se sou tão poderoso como o meu antigo patrão. Importa apenas concluir a história. A raiva é uma coisa má porque nos corrói a alma e tenho a noção de que passei grande parte da minha vida a senti-la. Mas mesmo assim com uma carga tão negativa eu quero agradecer à raiva. Quero agradecer que tenha me servido de alavanca para estudar, para lutar por vida melhor. Não posso dizer como teria sido a minha vida se as coisas tivessem corrido de outra forma, mas era bem possível que hoje fosse jardineiro na mesma casa, que continuasse pobre e a passar necessidades. Quem sabe se continuaria a ser humilhado e maltratado, ou os meus filhos. Mas hoje, e graças à raiva que senti na minha infância e adolescência, tenho uma carreira de sucesso e faço o que gosto. Consegui melhorar efectivamente a minha vida e a dos meus pais. Quando entrei na faculdade deixei para trás a casa, os reizinhos e os pais. Deixei tudo para trás e a raiva deixou de fazer sentido, mas entretanto já tinha conseguido uma bolsa de mérito e estava a adorar o curso de Direito.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Por isso hoje sorrio quando penso na raiva que me queimava as entranhas e agradeço-lhe efusivamente! E, apesar de até poder ser divertido, já não sonho que os pequenos reizinhos se cobrem de bosta de vaca em praça pública para gáudio da população!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Texto de ficção escrito para a fábrica das histórias por Cláudia Moreira&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2011-01-05T00:43:34</issued>
    <title>O Lobo-do-mar</title>
    <published>2011-01-05T00:45:19Z</published>
    <updated>2011-01-05T00:45:19Z</updated>
    <category term="fabrica das histórias"/>
    <category term="o lobo-do-mar"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto; border: 0px none initial;" src="http://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/N1806cb78/7819143_BaGd6.jpeg" alt="" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Era noite e seria ainda durante muito tempo quando entrei no cais. Um nevoeiro cerrado, apenas interrompido pelas luzes da via pública, sepultava tudo. Era Janeiro e estava aquele frio que corta a pele deixando-a vermelha, gretada e dorida. O eco dos meus passos. As minhas botas a calcarem as pedras e a fazerem o barulho cadenciado dos passos. Com a mão livre ajustei a gola do casaco impermeável, na outra levava o saco do farnel que haveria de me sustentar durante a faina. Encolhi-me. Procurei com os olhos os outros mas estava sozinho. Era o primeiro. Parei por momentos e pousei o saco no chão. Ouvi o barulho característico da garrafa a tocar o chão através da lona. O prato, os talheres, a caixa de plástico hermeticamente fechada com o pão. A sopa na panela térmica. Acendi um cigarro e aspirei o fumo. Fechei os olhos, senti o prazer do fumo nos pulmões e expeli-o para o ar frio da noite. Uma nuvem clara de fumo desfez-se na minha frente. Tornei a arranjar a gola do casaco, aconchegando-a mais ao pescoço. Peguei no saco e retomei o caminho por entre as caixas de plástico empilhadas, as redes dobradas, as cordas de nylon e os colvos. Tudo à espera da madrugada para regressar à labuta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Foi só quando já estava perto, muito perto do Lobo-do-mar que vi. A beata tombou dos meus lábios, a minha mão abriu-se sem que desse por isso e o saco caiu, incólume, nas pedras gastas do chão. Deixei de ouvir o marulhar das ondas a bater no cais. Deixei de respirar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;O Lobo-do-mar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;O meu barco, meu ganha-pão, o Lobo-do-mar. O meu ganha-pão e o de mais cinco homens do mar, o sustento de seis famílias estava a afundar-se. Apenas a cabine restava fora da água. Tudo o resto estava submerso, perdido, destruído. O sonho de uma vida estava destruído. Irremediavelmente perdido na água escura do cais, entre as algas e os restos de redes, as tainhas e o lixo que flutuava por ali. Em breve não restaria nada. Apenas a corda grossa que segurava o Lobo-do-mar ao cais ficaria visível para o lembrar. Talvez nem isso. Talvez o peso do barco a ser puxado para o fundo a rebentasse e não restasse mais nada…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Corri até à borda do cais e deixei-me cair de joelhos. Levei as mãos à cara e tapei-a. Em desespero fechei os olhos com força esperando, esperançado, que quando os abrisse nada daquilo fosse verdade. Alguns segundos depois quando os abri nada tinha mudado. O Lobo-do-mar continuava a afundar-se lentamente. Os caixotes de plástico onde costumávamos guardar o peixe estavam agora a flutuar por ali em redor da cabine do Lobo-do-mar. Bóias vermelhas e pedaços de esferovite também.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Como teria sido aquilo possível? Deixei-me ficar ali muito tempo, sentado nos meus próprios pés, braços caídos ao longo do corpo, quase inanimado, a olhar o desastre a acontecer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Depois ouvi vozes aflitas e percebi que os outros estavam a chegar. Estavam a ver o que eu também estava a ver. Já não restava quase nada. Não havia mais nada que pudéssemos fazer para evitar a tragédia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Levei vinte anos da minha vida a poupar para comprar o Lobo-do-mar. Depois mais cinco para o restaurar. Trabalho árduo de sol a sol, muitas vezes noites, domingos e feriados. E agora o que restava desse sonho era um lugar vazio ligado a uma corda grossa presa ao cais.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Senti que me levavam em braços. Senti que me davam algo para beber. Senti que me abanavam a cara. Ouvi vozes a falar sobre como estava sem reacção. Ouvi uma sirene e pensei no nevoeiro e no perigo de ir para o mar assim. Vi luzes azuis intermitentes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Estava numa ambulância.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Abri os olhos e na minha frente apenas a imensidão do oceano. Eu estava novamente no Lobo-do-mar no mar alto. Eu a lançar as redes no imenso lençol azul e o sol a bater-me nos olhos, magoando-me. E eu a sorrir, feliz. As mãos magoadas das cordas e do nylon da rede, das horas na água e do sal na pele a doer. E eu a sorrir, feliz!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Ouvi vozes ao longe e quis abrir os olhos mas não consegui. Ao longe ouvi vozes difusas a dizer que o choque me tinha feito enlouquecer…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Texto de ficção escrito para a Fábrica de Histórias por Cláudia Moreira&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-10-24T23:30:24</issued>
    <title>Ser ou não ser</title>
    <published>2010-10-24T22:38:57Z</published>
    <updated>2010-10-24T22:38:57Z</updated>
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    <category term="fabrica das histórias"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img style="border: 0 none;" src="http://t1.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcSemw5aj35Urent3qa8y0IwzlSP8xn2WneX7KVQM8xOfabqAps&amp;amp;t=1&amp;amp;h=167&amp;amp;w=167&amp;amp;usg=__94MAPY4t5jJmcj7R4Hf-SaKekog=" alt="" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Ser verdade que tenho razão….ou não ser. Uma dúvida no coração, uma pergunta constante na boca. Penso que tenho. Tenho a certeza de que tenho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;O João quer um filho. Eu não quero. O João diz que sou egoísta. Eu digo que não. O João diz que é injusto e nisso até concordamos, porque o é, mas para mim.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Começamos a namorar há cerca de dois anos. Uma relação de brincadeira depressa se transformou numa relação concreta. Um mês depois de nos conhecermos o João mudou-se para minha casa. De filhos não falamos mas ele sabia de sobra a minha opinião. Eu tenho um filho a caminho dos vinte anos e o tempo de bebés e fraldas e papas já ficou para trás. Tenho praticamente quarenta anos e apesar de adorar o meu filho não me vejo novamente a passar pelos primeiros anos de vida de um filho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Para mim uma mulher quando tem um filho recebe uma dádiva, mas, para que o seja efectivamente é preciso que esteja pronta. É preciso que esteja preparada porque depois da notícia da gravidez a vida de uma mulher muda tanto como se fosse viver para outra galáxia e se não estiver, poderá ser o contrário de uma dádiva, poderá ser uma fonte angustias. Nesse momento a mulher ainda não sabe, apenas está feliz, mas mais tarde verá que um filho muda o mais profundo de nós, interno e externo. Nunca mais uma mãe tem um minuto de relaxamento puro porque aquele ser que depende de nós nos enche a mente completamente, amedronta-nos o coração, faz-nos viver em alerta constante. É uma vida que está ali por nossa causa e pela qual somos responsáveis. E que não fossemos, amámos essa vida mais do que a nossa e isso por si só é uma prisão eterna. Depois a parte externa também representa uma boa dose de preocupações. O choro do bebé, as incertezas de mãe, os hematomas na cabeça, as gripes e a varicela. As alergias, as mãos a procurar tudo no chão. As brincadeiras perigosas, os estudos, os amigos que nunca sabemos quem são, os perigos eminentes desta nova era. As primeiras paixões, as suas lágrimas, o futuro incerto, a falta de emprego. Nada disto é fácil de gerir por muito que amemos os filhos. Uma mãe nunca dorme, nunca relaxa. E se tiver dois filhos tudo isto duplica e se tiver três triplica e por aí adiante.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;E eu já não tenho condições para duplicar estas preocupações na minha vida. Anos e anos de luta deixaram-me esgotada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;O João diz que divide tudo comigo. Um homem nunca consegue dividir esta carga com a mulher. Pode ajudar, se for uma pessoa justa, se gostar dela e dos filhos, mas dividir a meio como ele faz crer não é possível. É a mãe que está sempre lá quando é preciso. É a mãe que carrega a criança, é a mãe que pare, é a mãe que amamenta, é a mãe. A mãe é a mãe, insubstituível.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;O João acha que por não ter filhos tem o direito de me obrigar a tê-los. Acha que lhe devo isso. Pergunto-lhe então se acha que devo ter um filho por obrigação. Diz o João que se nos amamos é por amor. Eu digo-lhe que por amor então ele também aceitaria não ter filhos, por amor a mim. Mas o João insiste que o estou a privar de ter um filho. Eu digo-lhe que o pode ter com outra qualquer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Raramente me sinto assim, indignada com ele. Mas agora sim, sinto-me indignada com ele. O corpo é meu, a vida é minha. Os homens podem permanecer ou não na vida das mulheres, os filhos ficam para sempre. Não me sinto com capacidade para pôr mais um filho no mundo. Não consigo abdicar da minha recente liberdade conquistada com o crescimento do meu filho. Não me sinto capaz de voltar a estar presa a um criança indefesa por mais dez ou quinze anos. Não me considero egoísta, apenas honesta com o meu eu. Custa-me pensar que este homem que diz amar-me me põe entre a espada e a parede. Custa-me pensar que alguém é capaz de achar egoísmo uma escolha de vida. Então também poderei considerar egoísmo alguém querer que eu passe nove meses grávida a agoniar, horas em trabalho de parto, noites e noites sem dormir, fraldas e biberões, galos e varicelas durante os anos que possivelmente serão os únicos que terei com saúde antes da velhice pura?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Não vamos conseguir concordar. Talvez tivesse sido bom falarmos nisso antes… Assim não haveriam desejos defraudados e lágrimas dolorosas. Talvez seja esta a nossa última discussão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Retiro disto tudo que não adianta amar muito o nosso companheiro. Os nossos desejos estarão sempre primeiro. E além disso, da próxima vez que alguém me convidar para um café pensarei sempre duas vezes ou levarei comigo um questionário completo para preencher com todas perguntas, tentando antever todos os cenários possíveis e imaginários!!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Texto de ficção escrito para a Fábrica de Histórias, Cláudia Moreira.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-10-17T23:26:08</issued>
    <title>Dia de Outono</title>
    <published>2010-10-17T22:31:56Z</published>
    <updated>2010-10-17T22:31:56Z</updated>
    <category term="dia de outono"/>
    <category term="fabrica das histórias"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/bZEbFSJPimvFvZcNKI8i"&gt;&lt;img style="border: 0 none;" src="http://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/bab059c6e/7365091_2Ztdg.jpeg" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;caminho de santiago out 2010- algures antes de Pontevedra&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Dia de Outono&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;O dia ainda não tinha nascido e já eu estava de mochila às costas no local marcado para o início do passeio. Tinhamos combinado uma caminhada, a ultima desse Verão. Na verdade já era mais Outono que Verão, mas os dias ainda estavam quentes e não haveria problema em fazer a caminhada, desde que se saísse bem cedo para depois não sermos apanhados pela noite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Por isso tínhamos combinado as sete da manhã. Estava fresca mas límpida a manhã. O vapor da respiração a sair da boca provava que o Verão já se tinha ido embora. Mais tarde, quando o sol ficasse bem lá em cima, já seria preciso tirar as camisolas e andar de t-shirt. E, se fosse como o costume, a transpiração seria abundante.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Depois de estarmos todos seriamos quatro. A Maria, a Joana e o Bruno e eu, é claro. Todos estávamos bastante habituados às caminhadas e por isso aquela seria pouco mais do que um passeio. Apenas vinte quilómetros e estaríamos lá em cima no ponto mais alto da montanha. Depois alguém nos iria buscar uma vez que não poderíamos pernoitar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Depois de alguns quilómetros praticamente em silencio o sol começou a brilhar e nós também. Já era quase uma tradição, depois de tiradas as primeiras peças de roupa começavam as conversas. Nem sempre muito fácil porque caminhar a subir e falar não é fácil. Mas a verdade é que nos dava tanto prazer as caminhadas que era impossível não partilharmos e não falarmos, rirmos, partilharmos os nossos pensamentos. O ar puro deve ser como um “abridor de corações” porque ali na natureza intocada conseguíamos falar de tudo, contar os nossos maiores segredos, pedir conselhos e sermos nós mesmos sem qualquer problema. Era uma das coisas boas das caminhadas. Eram momentos de descontracção, amizade sincera, entreajuda. No inverno iríamos todos sentir muita falta desses momentos, eu sem dúvida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Paramos para almoçar perto das duas da tarde. Paramos num lugar privilegiado. Dali podíamos ver o vale todo. As casas aqui e ali de aldeias perdidas, o rio a serpentear, preguiçoso. O verde exuberante dos pinhais. Onde estávamos era uma espécie de clareira na floresta verde. Mais para cima começaria a rarear. Sentamo-nos juntos e contemplamos a vista. Era absolutamente fabulosa e deslumbrante. Senti-me agradecida a Deus pela oportunidade de ver semelhante beleza. Sei que os outros também.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Depois subimos o resto da montanha até ao cume. Lá apreciamos a magnífica vista. Imaginei que fosse assim o paraíso. Verde em baixo e azul em cima. E sorri. Sorrimos uns para os outros, felizes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Sentamos a lanchar. Em breve seria hora de voltar. Mais uma hora e o todo-o-terreno do nosso amigo e impulsionador das caminhadas iria estar ali para nos levar montanha abaixo. Até lá era hora de aproveitar aqueles momentos especiais. Deitamo-nos na erva seca e olhamos o céu.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Adormecemos. Já não era a primeira vez que isso nos acontecia. O problema é que desta vez ninguém nos acordou. Quando abri os olhos os outros continuavam a dormir e ninguém estava ali para nos ir buscar. Era tardíssimo e não estava ali ninguém. Achei estranhíssimo e por isso acordei os outros bruscamente. Ficamos preocupados. Em breve seria de noite e não tínhamos tenda, nem comida. Olhamos uns para os outros preocupados. E agora?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Descer não era viável pois de noite era complicado achar os trilhos. Pela estrada era demasiado longe e estávamos cansados. Os telemóveis estavam mudos há muito tempo. Ali não havia rede. Não sabíamos o que tinha acontecido ao nosso amigo e pensamos no pior. Um acidente. Só podia ter sido um acidente. De outra forma ele teria mandado alguém.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Agora já era mesmo noite cerrada e estava a ficar frio deveras. Mais frio do que de manha pois em terras altas há sempre mais frio. Nas mochilas tínhamos apenas agasalhos para a chuva e umas barras energéticas além da água. E mesmo essa estava no fim.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Um de nos pensou numa fogueira mas era complicado arranjar a lenha para a fogueira. A situação era deveras complicada. Ficarmos ali debaixo do céu aberto ate de manha era uma pneumonia pela certa. Esperamos mais um pouco na esperança de que a nossa boleia estivesse apenas atrasada. Mas nada. Ninguém apareceu.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Desconsolados resolvemos andar. Fomos andando pela estrada, montanha abaixo, cansados e cheios de frio. As barras já tinham ido e os estômagos estavam a fazer ruídos desagradáveis. Cinco quilómetros a frente sentimos as luzes de um carro atrás de nós.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Era a nossa boleia! Ficamos tão contentes que desatamos todos aos pulos no meio da estrada esquecendo a fome e o cansaço.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- Estive três horas à vossa espera!!! Onde estavam?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Ficamos a olhar uns para os outros incrédulos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- No sitio que combinamos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- Eu estive lá ate agora.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- E nos também!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Não podíamos compreender o que se passara. Não era possível estarmos todos no mesmo sítio e não nos termos visto!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Mas naquele momento só importava ir para casa comer, tomar banho e dormir! Nada mais importava! Ninguém queria saber das explicações. O único que estava bastante aborrecido era o Jorge, o nosso amigo que tinha estado as três horas à espera sem saber de nós e que estava a caminho do posto da guarda para nos ir procurar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Mais tarde percebemos que alguém, e não fui, se tinha enganado a dizer qual o trilho que iríamos seguir. Posto isto foi fácil de perceber que tínhamos estado a espera uns dos outros a menos de um quilometro de distancia, cada um mais preocupado que o outro!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Mesmo assim ninguém ficou chateado. Era a última caminhada do Outono e estávamos bem e além de tudo agora tínhamos todos uma grande história para contar!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Texto de ficção escrito para a fábrica das histórias por Cláudia Moreira&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-09-25T12:25:29</issued>
    <title>Enredos...</title>
    <published>2010-09-25T11:25:48Z</published>
    <updated>2010-09-25T11:25:48Z</updated>
    <category term="fabrica das histórias"/>
    <category term="enredos"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/vOTwU2zbGku7w3n0M0mK"&gt;&lt;img style="border: 0 none;" src="http://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/ba6056a2d/7217526_5341O.jpeg" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;imagem retirada da net&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Continuação da história da &lt;a href="http://http//quarentamaisum.blogs.sapo.pt/16705.html"&gt;Marta &lt;/a&gt;para o desafio desta semana da &lt;a href="http://http//fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/"&gt;Fábrica das Histórias&lt;/a&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;E agora, para finalizar, conto-vos esta ultima parte da história, e isto para que não fiquem na ansiedade de saber o desfecho. Não tenho vontade nenhuma de a reviver. Sinto a vergonha de quem cometeu um pecado mortal.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Estavam a ler-lhe os direitos e eu por momentos senti que tinha que ficar e assumir a metade da culpa. Por momentos o meu coração ficou do tamanho de um berlinde e pareceu parar. Ficava ali e entregava-me ou ia embora? Pensei depressa. Tinha que sair dali. Era o combinado. Meti as mãos nos bolsos e dirigi-me para a saída, tentando parecer apenas incomodado. No entanto ao tentar sair um grupo de gente histérica barrou-me o caminho. Um polícia postou-se diante de mim e eu olhei-o nos olhos. Sustentei o olhar. Depois virei-me numa tentativa de sair dali por outro lado e foi então que a vi. Estava tranquila agora, toda a preocupação que lhe vi no olhar minutos antes tinha desaparecido. No seu olhar li uma interrogação muda:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- Que vais fazer?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;E eu hesitei um momento para a ver.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- Vai embora depressa! – Li nos seus olhos uma súplica.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Eu não queria deixá-la ali entregue aos leões mas também não queria ser apanhado. Olhei outra vez mas ela continuava de cabeça erguida, com pose de rainha. O seu vestido estava impecável assim como o cabelo. Era como se tivesse resolvido aceitar o inaceitável. As mãos atrás das costas e os dois gigantes fardados atrás dela eram os únicos indícios de que era ela quem estava na mó de baixo. Fez um gesto vago com o olhar e eu obedeci.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Virei as costas e juntei-me a uma pequena multidão que era escoltada pela polícia para fora do edifício. Deixei-me levar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Depois, quando a luz do sol me atingiu em cheio percebi que talvez ela nunca mais a visse. Por momentos eu, o durão, senti-me quebrar. Sentei-me no chão no jardim em frente ao edifício onde a deixara e escondi o rosto nas mãos. O pensamento que me assolava era terrível. E continuava com o coração apertadinho. Momentos depois o pensamento terrível passou pela minha cabeça outra vez.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;Gosto dela…&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Não podia acreditar nisso. Não podia ser. Éramos colegas de profissão e nesta profissão não há este tipo de sentimentos. No entanto a dor que sentia de a saber presa para sempre era tão grande que eu não podia pensar em mais nada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;Gosto dela…&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Estava perdido se este pensamento se materializasse. Estava absolutamente perdido. Sai dali a correr o mais que pude. Deixei para trás aquele cenário onde a multidão à porta dizia coisas como &lt;em&gt;Meu Deus!&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;malandros, deviam estar todos presos, estes gatunos!&lt;/em&gt;, e corri o mais que pude, para bem longe dali.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Quando já não aguentava mais o cansaço e o meu coração parecia querer explodir, estava perto do mar. Fui até à praia e descalcei-me. Enterrei os pés na areia fria e caminhei até mesmo à beira da água. Entrei na água de roupa e tudo e deixei-me envolver pela água gelada durante tanto tempo que quase morri de hipotermia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;A primeira vez que a visitei pareceu-me bem. Já tinham passado alguns meses e ela já tinha sido condenada mas parecia bem, animada. Não me acusou de nada naquele dia nem em nenhum outro dia em que a tenha visitado. Fui visitá-la muitas vezes porque a amava. Pelo menos era isto que eu me dizia em silêncio. Talvez fosse apenas para descarregar a minha consciência pesada. Falamos muitas vezes do que aconteceu. Discutimos o que correu mal e o que deveríamos ter feito. Como nos sentíamos aquele dia. Falamos do homem que a seguira e a deixara tão nervosa. Falamos de tudo. Só nunca lhe disse que tinha descoberto naquele dia que a amava. Nunca lho disse.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Em vez disso transformei a minha vida numa vida normal. Arranjei uma profissão séria. Casei e até tive filhos. Quando a visitava nunca falava disso. E a minha família não fazia ideia do meu passado nem da existência dela. As minhas visitas à prisão eram um segredo absoluto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;E mesmo assim nunca a deixei de amar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;E os anos passaram e mesmo assim eu nunca fui capaz de lho dizer, mesmo depois de a ter visto definhar vagarosamente entre as altas paredes daquela prisão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Aconteceu num dia em que ninguém a achou com boa cara. A depressão causada pela falta de liberdade e apoio da família tinha-se instalado definitivamente no seu corpo e alma. Estava muito magra e tinha cortado o cabelo tão curto como um rapaz. Já não a via sorrir há muitos meses mas nem assim fui capaz de lhe dizer que havia alguém que a amava profundamente e que estava arrependido de não me ter entregue também, dividido assim a culpa com ela. Telefonaram-me num dia de Novembro para avisar à falta de família a contactar. Tinha morrido de tristeza.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;O dia do funeral foi uma segunda-feira de Novembro. A chuva fina não tinha parado de cair desde madrugada. Ainda se viam nas campas de mármore negro os restos mortais das flores do dia dos fiéis defuntos. Avancei por entre as lápides e os anjos e os Cristos e as imagens da Virgem pareciam olhar acusadoramente. E eu fui baixando os olhos. Não fui à capela onde o padre deve ter dito meia dúzia de palavras da praxe porque nem sequer a conhecia. Depois de uns minutos de solidão em que não consegui tirar os olhos daquele buraco fundo feito na terra escura e molhada chegaram. Era apenas um velho carro funerário com o condutor e dois rapazes vestidos de negro. O padre estava mais preocupado com a lama nos sapatos mas tentava fazer um ar sério e condoído muito próprio dos funerais. Não tinha mais ninguém. Nenhum familiar, nenhum amigo, nenhum colega da escola. Ninguém. Apenas eu e o padre e os dois funcionários da funerária que pareciam aborrecidos com o peso extra que foram obrigados a carregar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Abriram o caixão para dizer uma breve oração. Não me parecia ela sequer. A roupa era grande demais e ela estava demasiadamente magra. O seu rosto estava pálido. Uma lágrima desceu pela minha cara mas ninguém viu porque ainda não tinha parado de chover. Desceram o caixão à terra e foram embora. O coveiro aproximou-se começou a tapar o caixão com pázadas de terra com a indiferença necessária à profissão. Depois que fiquei só sentei-me ali num banco de pedra e chorei. Não sei o tempo que fiquei ali, sei apenas que o cheiro a cedro era intenso e a minha culpa insuportável.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Os dias passaram e a dor começava lentamente a diminuir. Mas um dia tinha um embrulho estranho na caixa do correio. Era dela. Ela tinha deixado esse embrulho com uma colega da prisão. As instruções eram fazer-mo chegar às mãos se algo lhe acontecesse. Estava tudo explicado numa carta escrita por um punho cheio de tremuras. Todos os sentimentos escondidos desde anos antes de ter sido presa. Ela sempre me tinha amado. Sempre. E nenhum de nós tinha sido capaz de o dizer. O nosso amor perdera-se entre outros sentimentos menos valorosos mas definitivamente mais altos, a vergonha, a culpa, a ambição, o medo e muitos outros que não vale a pena listar. Junto com a carta o vestido. Toquei-lhe ao de leve e um arrepio percorreu todo o meu corpo. Lembrei-me então daquele dia em que ela o trazia vestido e senti uma saudade imensa. Abracei o vestido como se a abraçasse a ela. Depois guardei-o numa caixa juntamente com a carta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Desde esse dia que visito a campa dela religiosamente todos os sábados de manhã, faça sol ou faça chuva. Converso com ela e digo-lhe em voz alta tudo o que nunca lhe disse em vida. Continuo a amá-la em segredo e sei que vou continuar a amá-la para sempre. A culpa de ter sido covarde nunca irá desaparecer mas ainda tenho esperanças que ela, esteja onde estiver, me tenha perdoado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Já se passaram muitos anos e já sou um velho, mas ainda sinto falta dela. Estou sentado num banco de jardim e penso em todos os momentos que tivemos. Tenho saudades. Tenho muitas saudades. Infelizmente já não há como a trazer de volta. Resta-me pois agarrar-me à lembrança do seu sorriso bonito e sonhar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Texto de ficção escrito por mim para a &lt;a href="http://http//fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/"&gt;Fábrica das Histórias&lt;/a&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <id>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:clubedospoetasmortos:15422</id>
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    <issued>2010-09-12T23:55:09</issued>
    <title>Apenas uma canção</title>
    <published>2010-09-12T23:00:32Z</published>
    <updated>2010-09-12T23:00:32Z</updated>
    <category term="fabrica das histórias"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Quando entrei naquela sala não sabia o que me esperava. Não sabia como seria, nem quem lá estaria, nem o que se passaria. Não sabia que iria ser uma noite muito diferente de todas as outras noites dos últimos aniversários da minha vida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Era o trigésimo sexto aniversário da minha vida e obriguei-me a ir à minha própria festa de aniversário. Estava sozinha e de coração partido. Uma festa era tudo o que não me apetecia, mas quando amigos de sempre nos fazem uma festa de aniversário não podemos deixar de ir. Por isso tentei dar-me um ar mais ou menos decente, pus um vestido bonito e forcei um sorriso na hora de entrar na sala.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Não esperava que a sala estivesse tão bonita e isso aqueceu-me um pouco o coração. A sala estava toda decorada ao estilo dos anos loucos do jazz, como se tivessem transportado uma sala directamente de Nova York para aqui. Um belíssimo piano de cauda ocupava um dos cantos. O banco atrás dele estava vazio esperando ansioso o pianista. Ao lado um homem tocava um solo maravilhoso no violoncelo, pouco mais do que um longo queixume. Apesar da semi-obscuridade da sala pude ver que as paredes tinham quadros com os mais famosos do jazz.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- Parabéns querida!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;A minha melhor amiga estava ali para mim, fazendo uso do seu mais belo sorriso, oferecendo-mo sem pedir nada em troca. Ou talvez sim: um sorriso meu. Apenas um sorriso meu. E tudo porque nos últimos tempos esses sorrisos eram escassos. Ela sabia como estava a ser penoso suportar o fim de um breve casamento com um homem que supostamente era maravilhoso mas que se tinha revelado um canalha. Madalena era uma amiga como não havia outra.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Abracei-a e contive uma lágrima. Tinha o coração apertado. Depois todos vieram dar-me os parabéns. Família e amigos vieram abraçar-me e desejar as maiores felicidades e eu já não acreditava nessa felicidade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- Vais ver que em breve essa dor será passado. Verás amiga…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;E sorria.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Depois todos os meus amigos se envolveram em conversas animadas, bebendo champanhe e rindo alegremente. E eu sentia o meu coração prestes a explodir de tristeza. Estava já na segunda metade dos trintas e não tinha conseguido manter a minha relação. Em menos de nada estaria velha e já não teria quem me quisesse….Acabaria sozinha num lar de terceira idade…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- Sara? Sara? Acorda amiga! Estás longe…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Madalena sorria-me. E eu sorri de volta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- Tenho aqui uma pessoa para te apresentar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- Madalena, não é uma boa hora…- balbuciei.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Mas tarde demais. Ela já tinha chamado a pessoa em causa. Um homem bonito, jovem ainda, caminhou na nossa direcção e apertou-me a mão suave e firmemente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- Muito prazer Sara de Almeida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Eu nem fui capaz de responder porque por breves momentos só consegui olhar para aqueles olhos fabulosamente azuis. Creio que fiz figura de idiota porque dei por mim a vê-los trocar olhares risonhos como se dissessem que eu tinha aberto as asas e voado para muito longe sem os ter levado comigo!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- O prazer é meu…senhor?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- Apenas Gabriel.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;E sorriu, mostrando um sorriso sincero e…deslumbrante!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- E já agora muitos parabéns.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- Obrigada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;A madalena tinha desaparecido e eu não sabia bem o que fazer a seguir.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- Eu sou o pianista.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- Ah! Muito prazer! E…não vai tocar?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- Estava apenas à sua espera… Hoje vou tocar apenas para si…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Mesmo sabendo que ele queria apenas dizer que tinha sido contratado para tocar na minha festa de aniversário, a verdade é que me apeteceu acreditar que ele queria mesmo dizer que só ia tocar para mim. Uns segundos depois ele agarrou-me na mão e arrastou-me até perto do piano. Pousou o seu copo e eu deixei-me estar encostada ao piano para não se notar o nervoso. Gabriel começou a tocar e dois segundos depois eu não me lembrava mesmo que estavam ali mais pessoas e achei que ele estava mesmo a tocar só para mim. Depois, mais tarde, bem mais tarde, quando já todos estavam nas suas casas dormindo o sono dos justos, nós continuávamos na sala da festa. Gabriel continuava a tocar para mim e eu continuava a ouvi-lo deliciada. Gabriel não me tinha deixado ir embora, pedindo para ouvir mais uma canção e depois mais outra e mais outra, até que todos já se tinham ido embora vencidos pelo cansaço.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Foi então que ele me puxou para o lado dele, fazendo-me sentar no minúsculo banco de pianista. Agarrou-me na mão e levou-a às teclas do piano, a mão dele sempre por cima da minha. Tocamos algumas notas ao acaso…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- Sabias que és linda Sara de Almeida?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Escondi os olhos envergonhada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- És mesmo! E vou tocar uma canção para ti e só para ti.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;E tocou e eu gostei tanto. E depois não fui capaz de sair dali. E por isso quando Gabriel tocou as ultimas notas e tirou as mãos do piano eu ainda estava ali. E por isso ele pôde beijar-me porque eu estava tão perto. E por isso é que nem fomos para casa naquela noite e em vez disso fomos ver o nascer do sol no telhado do prédio. E depois fomos tomar o pequeno-almoço e depois ficamos juntos para o resto das nossas vidas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;Madalena, uns dias depois da festa perguntou o que me tinha acontecido. E respondi tão prontamente que ela não duvidou da sinceridade da minha resposta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium;"&gt;- Apenas uma canção…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;
&lt;div class="saportecontainer" style="text-align: center;"&gt;
&lt;object width="425" height="344"&gt;
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&lt;/object&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class="saportecontainer" style="text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="saportecontainer" style="text-align: center;"&gt;Texto de ficção escrito para a fábrica de Histórias&lt;/div&gt;
&lt;div class="saportecontainer" style="text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;
&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-08-26T20:53:40</issued>
    <title>O espelho</title>
    <published>2010-08-26T20:10:47Z</published>
    <updated>2010-08-26T20:10:47Z</updated>
    <category term="pensamentos"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;img style="border: 0 none;" src="http://t1.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcS71QJyiG51Q0MaQolo5tNqe_DB0KG_zHL2NJ7oHjTnDpQZvgU&amp;amp;t=1&amp;amp;usg=__sK1e_e9gUB_ecNgjtV-493kvSOI=" alt="" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;imagem retirada da net&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;#39;book antiqua&amp;#39;, palatino; font-size: large;"&gt;O espelho reflectia uma mulher que de inicio não reconheci. Os cabelos negros e rebeldes emolduravam um rosto bonito de traços quase perfeitos. A boca entreaberta deixava ver uns dentes brancos e o nariz perfeito. Mas não foi a boca, nem os dentes nem o nariz, foram os olhos daquela mulher no espelho, tão límpidos e azuis que me hipnotizaram. O brilho intenso e quase eléctrico não deixava qualquer dúvida sobre a intensidade da alma que aquele corpo guardava lá dentro. A mulher desapertou um pouco o quimono leve que a envolvia e deixou antever a pele bronzeada e sorriu. Depois, como se fosse uma cena em câmara lenta de um filme antigo ela afastou o quimono dos ombros e deixou-o deslizar pelas costas nuas indo cair no chão inanimado. O corpo nu no espelho era ainda jovem e bonito. Formas voluptuosas mas firmes. Ancas largas e cintura fina e o peito cheio que oscilava com a respiração. Um segundo elemento entrou na imagem do espelho deixando ver o cabelo ondulado e ligeiramente comprido, os olhos grandes e o rosto forte de homem. Depois o espelho reflectiu apenas a mão que pousou suavemente no baixo-ventre da mulher. Depois o rosto sorriu por cima do ombro direito e olhou directamente nos olhos da mulher de boca carnuda e foi essa boca que retribuiu o sorriso oferecendo esse sorriso como se fosse um beijo. A boca desse rosto beijou o pescoço nu da mulher e muito suavemente envolveu-a nos seus braços finos, apertando-a na medida certa. Fiquei a olhar a imagem no espelho. As mãos que se tocaram, os dedos dele que se entrelaçaram nos dela para logo se afastarem deixando-os livres para tocarem outras partes do corpo da mulher. Estava quente como se fosse Agosto e pela janela reflectida no espelho atrás dos dois corpos podia ver-se uma noite clara e cheia de estrelas. Uma música suave parecia sair de dentro dos corpos nus enchendo o quarto. Uns dedos ansiosos tocaram o peito bonito da mulher do espelho e ela fechou os olhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;#39;book antiqua&amp;#39;, palatino; font-size: large;"&gt;Demorei apenas um segundo, breve e longo como o tempo corre veloz mas que no fundo se arrasta até sermos capazes de o enfrentar que percebi.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;#39;book antiqua&amp;#39;, palatino; font-size: large;"&gt;Não queria abrir os olhos. Cerrei-os ainda com mais força. Senti o frio do Inverno nos ossos e um arrepio percorreu-me a pele gasta dos braços e das pernas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;#39;book antiqua&amp;#39;, palatino; font-size: large;"&gt;Abri os olhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;#39;book antiqua&amp;#39;, palatino; font-size: large;"&gt;No espelho eu estava sozinha. Ninguém me amava a pele através de dedos macios. O grosso roupão tapava um corpo que se adivinhava gasto. O rosto, outrora belo, era agora rugoso e sem brilho. Os olhos azuis estavam mortiços e os lábios cerrados num esgar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;#39;book antiqua&amp;#39;, palatino; font-size: large;"&gt;Desapertei o roupão e entreabri apenas um pouco. Não me apetecia ver aquele corpo destruído pela idade. Os peitos sem vida, o estômago proeminente, a barriga flácida. O triângulo mais escuro no baixo-ventre já não era apetecível e as coxas agora mais fortes eram brancas como a neve.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;#39;book antiqua&amp;#39;, palatino; font-size: large;"&gt;Tapei-me rapidamente e olhei para trás de mim através do espelho. Estava escuro lá fora e a janela estava semi-aberta. As cortinas baloiçavam com o vento agreste de Novembro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;#39;book antiqua&amp;#39;, palatino; font-size: large;"&gt;Tinha sido apenas uma ilusão momentânea. A juventude tinha sido apenas uma ilusão momentânea. Um sonho bonito que passou num pestanejar de olhos…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;#39;book antiqua&amp;#39;, palatino; font-size: large;"&gt;Uma lágrima solitária tombou pelo meu rosto e foi cair no chão, silenciosa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;#39;book antiqua&amp;#39;, palatino; font-size: large;"&gt;Voltei-me e fui ao armário onde encontrei um grande lençol branco cujas traças tinham feitos alguns estragos ao longo dos anos. Tapei com ele o espelho. Não precisava de ver reflectidos todos os dias os destroços de mim mesma. Não precisava que um espelho gritasse sem compaixão a minha decrepitude.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;#39;book antiqua&amp;#39;, palatino; font-size: large;"&gt;Deixo-o estar assim coberto tanto tempo que um dia já nem me lembrava que tinha um espelho. Deixei-o estar assim coberto tanto tempo que um dia já nem me lembrava que um dia tinha sido jovem e bonita.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;#39;book antiqua&amp;#39;, palatino; font-size: large;"&gt;Cláudia Moreira&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;#39;book antiqua&amp;#39;, palatino; font-size: large;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-04-18T23:27:25</issued>
    <title>O Sexto Sentido</title>
    <published>2010-04-18T22:29:28Z</published>
    <updated>2010-04-18T22:29:28Z</updated>
    <category term="fabrica das histórias"/>
    <category term="o sexto sentido"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img style="border: 0 none;" src="http://www.documentarios.org/images/series/os_sentidos_humanos.jpg" alt="" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium; font-family: verdana, geneva;"&gt;Ouvia-se perfeitamente o som alto da música que saia do carro. De resto o silêncio era absoluto e nem sequer os dois ocupantes do carro virado ao contrário davam sinais de vida. As rodas tinham parado de rodar no ar. A porta estava aberta e dela saia um braço inerte. Do outro lado um rosto ensanguentado estava colado ao vidro fechado que não partira. O acidente tinha sido aparatoso e fatal. Havia óleo na estrada e o condutor não tinha conseguido segurar o carro na curva. O resultado tinha sido uma violenta queda pela ravina de cerca de vinte metros. Primeiro ouviu-se os gritos dos dois jovens ocupantes do carro, depois o primeiro embate nas rochas, depois outro e por fim a queda final no fundo da ravina. Depois, silêncio.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: medium; font-family: verdana, geneva;"&gt;****&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium; font-family: verdana, geneva;"&gt;Ela estava na cozinha entretida a cortar os legumes para a sopa. Na televisão um absurdo programa de entretenimento debitava gritinhos estridentes de alguma aborrecida apresentadora da moda, mas ela não estava a prestar atenção. Creio mesmo que trauteava uma das musiquinhas de momento que tinha vindo a ouvir na rádio local. Estava cansada, ma agora aliviada. Finalmente estava livre de um trabalho que a oprimia. Tinha sido capaz de dizer basta. E já deveria ter sido capaz disso há muito tempo, mas o seu feitio cândido nunca lhe tinha dado coragem para tal. Depois disso pegara no carro com a intenção de voltar para casa. Conduziu até perto do inicio da montanha que atravessava todos os dias e parou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium; font-family: verdana, geneva;"&gt;“ E se hoje não fosse por aqui? E se hoje fosse pela beira-mar?”&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium; font-family: verdana, geneva;"&gt;Todos os dias durante dez anos tinha feito aquela estrada para voltar para casa depois do trabalho. Conhecia-a como a palma da sua mão. Ir pela beira-mar era muito mais longe.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium; font-family: verdana, geneva;"&gt;“Não. Tenho tanto que fazer em casa e o carro tem pouca gasolina. Vou pelo sítio do costume.”&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium; font-family: verdana, geneva;"&gt;Mas apetecia-lhe tanto ver o mar. Imaginou a estrada quilómetro a quilometro ate casa pela montanha e torceu o nariz. Não queria ir por ali hoje. Não queria. Por muito que a razão lhe dissesse para ir pelo sitio de sempre a verdade é que algo lhe dizia para não ir.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium; font-family: verdana, geneva;"&gt;“Micas Maria, ganha juízo! Que coisa. Que vais agora fazer pela beira-mar? E logo hoje que ficas sem emprego e vai ser preciso poupar muito!”&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium; font-family: verdana, geneva;"&gt;Pôs o carro a trabalhar e começou a subir a estrada. O arvoredo deixava passar um ou outro raio de sol, mas em breve iria estar escuro porque já passava das seis da tarde. Um quilómetro à frente fez inversão de marcha e voltou para trás. Sentiu-se aliviada por ter tomado aquela decisão e nem percebeu porquê. Riu-se de si própria e achou-se uma perfeita idiota.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium; font-family: verdana, geneva;"&gt;“Estou a ficar tonta com a idade é o que é!”&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium; font-family: verdana, geneva;"&gt;Depois em casa, tirou os sapatos calmamente, verificou a caixa de emails que mais uma vez estava cheia de porcaria e spam. Depois pôs o avental e dispôs-se a fazer o jantar. Teria visitas nessa noite. Um casal de amigos viria jantar com ela. Ligou a televisão para lhe fazer companhia e nem se importou qual era o programa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium; font-family: verdana, geneva;"&gt;A água já fervia na panela quando ouviu o locutor do jornal falar numa notícia de última da hora. Olhou para a televisão e algo lhe chamou a atenção. Pegou no pano da louça e ainda a limpar as mãos encostou-se à mesa da cozinha, atenta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium; font-family: verdana, geneva;"&gt;“… Temos um repórter no local que nos vai dar agora conta de como tudo se passou. Posso no entanto adiantar que os dois ocupantes da viatura acidentada faleceram a caminho do hospital.”&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium; font-family: verdana, geneva;"&gt;A imagem mostrava uma parte da estrada por onde tinha passado todos os dias nos últimos dez anos. Ela precisou de se sentar para não cair enquanto ouvia descrever o acidente e a hora a que se deu. Uma ideia passava-lhe pela cabeça de forma brutal. Ela deveria ter passado ali. Ela deveria ter passado ali naquela hora. Podia ter sido ela. Podia ter sido ela a cair naquela ravina. A ideia fez com que todo o seu corpo perdesse as forças. Se não estivesse sentada teria caído. Lembrou-se de não saber a razão de não ter querido ir por ali. Algo a tinha feito voltar para trás quando já estava a caminho. O que teria sido? Não sabia. Intuição? O sexto sentido de que todos falam? Não sabia. Sabia que aquela vontade repentina de ir pela beira-mar a tinha salvado de uma possível morte. Sabia que algo a impelira a voltar. E isso tinha feito toda a diferença. Por muito que pensasse não conseguia entender, mas não importava. Não importava. Importava que não tinha ido por lá. Tinha pena do casal que tivera a má sorte de passar ali aquela hora, mas não podia deixar de sentir um grande alívio por não ter sido ela. De uma coisa ela estava certa: a próxima vez que algo dentro de si lhe dissesse não vás, ela não iria.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: medium; font-family: verdana, geneva;"&gt;Texto de ficção escrito para a fábrica das histórias por Cláudia Moreira&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-04-11T23:49:44</issued>
    <title>Recomeçar do nada</title>
    <published>2010-04-11T22:51:23Z</published>
    <updated>2010-04-11T22:51:23Z</updated>
    <category term="recomeçar do nada"/>
    <category term="fabrica das histórias"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img style="border: 0 none;" src="http://www.slowdown.com.br/janela[1].JPG" alt="" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: helvetica; font-size: large;"&gt;Não foi fácil. Não foi mesmo nada fácil. As lágrimas corriam-me ligeiras pela cara sem que as conseguisse deter. No peito o aperto de uma tenaz. Mesmo assim tive que o dizer. Era preciso escapar daquela vida de cheiro fétido e começar tudo de novo. Era preciso ganhar coragem para um novo recomeço onde o sol fosse capaz de brilhar. Estava farta daquela vida de medo e angústia. Os últimos anos tinham sido passados a sofrer por causa daquele homem. Tudo tinha começado alguns dias depois do casamento. O homem por quem me apaixonei era um homem de má índole. De inicio eu não queria acreditar que me tinha enganado tão redondamente sobre o homem que escolhi para marido. Eu amava-o muito e sofri como nunca esperei sofrer no dia em que me bateu pela primeira vez. Foi como se me tivesse arrancado o coração do peito a sangue frio. Foi como se me tivessem arrancado a pele, centímetro a centímetro sem qualquer piedade. Depois atirou as culpas para os dias difíceis e para o álcool a mais e passou. Mas em breve a historia se repetiria. E repetiu-se muitas e muitas vezes. E nem eram precisas desculpas. Eu vivia aterrorizada e não sabia o que fazer. Queria libertar-me mas ao mesmo tempo não queria. Tinha medo dele e de não saber viver uma vida sozinha. Nunca tinha vivido sozinha. Tinha saído de casa dos meus pais menina directamente para a casa do meu marido. Durante o casamento ele nunca me tinha deixado tomar conta da minha própria vida. Hoje sei que ele o fazia para não me dar armas para lutar contra ele. Não queria que eu soubesse ser independente. Depois, um dia, comecei a pensar que talvez eu fosse capaz de viver sozinha, de tomar conta da minha própria vida. Pensei muito e ganhei coragem. Só faltava dizer-lhe. Só faltava encarar aquele rosto maldoso e dizer-lhe que queria o divórcio. Tive esperanças que talvez fosse possível divorciar-me e recomeçar uma vida ali, perto dos meus pais. Mas ele não aceitou bem o facto tal como eu já previa. Esbracejou como um afogado, depois vociferou como um condenado e por fim, ao ver-se encurralado pela situação e sem conseguir obrigar-me a mudar de ideias fez de mim um saco de pancada, mais uma vez. Foi então que admiti que não haveria qualquer hipótese de começar uma nova vida ali, perto daquele ex marido agressivo e possessivo. Teria que recomeçar uma vida do zero, longe, o mais longe onde fosse possível chegar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: helvetica; font-size: large;"&gt;De madrugada fiz um saco com roupa e alguns objectos pessoais. Depois olhei em volta para a casa que eu construi e decorei com as minhas próprias mãos e despedi-me. Não levava saudades no peito. Tinha passado ali, entre aquelas paredes, algumas das piores horas da minha vida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: helvetica; font-size: large;"&gt;Já na rua respirei fundo. Certifiquei-me que não era seguida e avancei calmamente para o carro.   Depois o barulho do motor do carro foi uma libertação. Estava pronta para recomeçar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: helvetica; font-size: large;"&gt;Depois, quando já o sol ia alto, comecei a pensar no que fazer. Não tinha nada planeado e era preciso um plano. Não um plano complicado, nada a longo prazo, apenas um esboço do que iria começar por fazer numa vida completamente nova. Era preciso saber por onde começar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: helvetica; font-size: large;"&gt;Continuei a fazer quilómetros até me sentir longe o suficiente, segura o suficiente, serena o suficiente. Precisava de reaprender a capacidade de respirar normalmente. Depois o pôr-do-sol estava tão bonito que o segui. Sai da auto-estrada e conduzi por estradas secundárias até avistar o mar. Uma pequena vila piscatória aparecia ao meu lado direito emoldurada pelo mar e pelo céu ardente de um fim de tarde de verão. Tudo estava perfeitamente tranquilo. Sai do carro e caminhei até à areia. Descalcei-me e fui molhar os pés cansados. A água fria provocou-me um arrepio na pele mas soube imensamente bem. Já não estava quase ninguém na praia. O sol estava quase a chegar à linha do horizonte e em breve desapareceria. O céu parecia uma pintura e no ar ainda podia sentir o cheiro a bronzeador. Senti-me em paz pela primeira vez em muitos anos. Senti-me renovada. Sabia que tinha um longo e difícil caminho pela frente. Sabia que não tinha dinheiro nem emprego. Sabia que seria preciso muita força para levar avante aquele recomeço sem sucumbir. Mas tive esperança e acreditei que seria possível. Pela primeira vez respirei profundamente e sorri. Desejei viver. Desejei ser feliz. E seria ali. Tinha a certeza que seria ali. Já me conseguia imaginar a viver por ali numa pequena casa caiada de branco que teria uma janela com cortinas brancas e que quando uma brisa as fizesse voar elas me deixaram ver um mar azul e imenso. Sim, tinha a certeza disso. Seria feliz ali.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: helvetica; font-size: large;"&gt;Texto de ficção escrito para a fábrica das histórias por Cláudia Moreira&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-04-04T19:53:23</issued>
    <title>A esplendorosa flor amarela</title>
    <published>2010-04-04T18:56:04Z</published>
    <updated>2010-04-04T18:56:04Z</updated>
    <category term="a esplendorosa flor amarela"/>
    <category term="fabrica das histórias"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/stnwpzPQMrWEVBUsmnA5"&gt;&lt;img style="border: 0 none;" src="http://c4.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/bf00110fc/6104173_kTSpu.jpeg" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: large;"&gt;A cidade era caos. Apenas caos e nada mais. Os prédios destruídos pela guerra estavam ali silenciosos, lembrando aos que ainda restavam os dias de dor. Dias que ainda pareciam recentes nas suas memorias. Todos eles, sem excepção, estavam ainda cobertos de fuligem do fogo que os havia consumido. As poucas paredes ainda de pé ameaçavam ruir ao mínimo sopro de vento. Nas janelas nem um único vidro tinha sobrado inteiro depois daqueles dias. Tinham sido tempos de destruição e terror. Eles tinham avançado pela cidade trajados em tons de verde, montados nas suas máquinas maquiavélicas feitas de aço e tinham destruído tudo. As suas armas haviam conseguido dizimar logo no primeiro dia metade de toda a população da cidade. Mais tarde muitos mais os tinham seguido, abatidos pela doença e pela fome. Durante dias eles permaneceram na cidade fazendo um barulho infernal com as metralhadoras, as bazucas, os tanques de guerra, as vozes de comando, zangadas com o mundo e com eles próprios. Tinham saqueado as lojas de conveniência, matado quem se atrevia a fazer-lhes frente. Tinham destruído as árvores, espezinhado as flores dos canteiros. Tinham morto os animais de estimação, os gatos vadios, os vira-latas. Tinham esventrado selvaticamente os sem-abrigo, os pedintes de rua, os cegos e os estropiados. Tinham violado sem pudor nenhum as mulheres de todas as idades. E, depois de tudo isto, nem mesmo as crianças conseguiram escapar da malvadez dos homens armados, porque eles encontravam satisfação em vê-los perecer indefesos nas suas mãos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: large;"&gt;Depois, sem aviso, e tal como tinham chegado partiram. Nenhum aviso, nenhuma palavra. Atrás, deixaram o caos absoluto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: large;"&gt;Aos poucos o cheiro da putrefacção invadiu a cidade inteira. O lixo estava por todo o lado nas ruas levado pelo vento agreste que se fazia sentir. A doença que apodrecia os corpos cheirava ainda pior. Alguns tinham sido enterrados em jardins destruídos e pequenos quintais dizimados. Depois já não havia quem enterrasse os que iam morrendo. E esses, os últimos, ficavam por ali estendidos nos passeios e nas ruas, encostados aos muros ou postes de iluminação tombados onde exalavam o ultimo suspiro. Seria essa a sua última morada. Depois, dos corpos em decomposição começava a sair o cheiro nauseabundo da morte.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: large;"&gt;Para os que ainda restavam já não havia qualquer esperança. Sabiam o que os esperava. As crianças vagueavam sujas e tristes por todo o lado, apanhando do chão lixo para enganar o estômago vazio. Os adultos deixaram-se abater pelo desânimo e não se mexiam e deixavam-se estar caídos por todo o lado, derrotados. O silêncio era absoluto, apenas aligeirado pelo soprar do vento que por vezes soprava mais forte e zunia nas ruas desertas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: large;"&gt;Muito tempo passou e nenhuma esperança morava ali. Depois, um dia, o sol despertou e inundou as ruínas de uma cor suave. Alguns meninos famintos olharam o céu e não compreenderam. Já não se lembravam do que era o sol. Tentaram levantar-se e não conseguiram mas olharam em volta tentado compreender. Parecia tudo igual com uma ligeira diferença de cor. Depois uma das mulheres mais jovens deu um grito e arrastou-se alguns metros. Tinha visto uma coisa que a tinha feito sorrir. A custo arrancou algo do chão e trouxe nas suas mãos encardidas para os outros verem. Era uma flor amarela que tinha conseguido furar aquele solo destruído e conspurcado pela violência dos homens. Todos tentaram sorrir. Custou muito de principio porque já não o faziam há muito tempo e os cantos da boca não queriam subir. Por fim conseguiram. A flor amarela ali estava na mão daquela rapariga. Todos se aproximaram da pequena flor amarela, tão simples, tão singela, mas absolutamente esplendorosa para eles. Era sinal de vida. Ainda havia vida a crescer naquele lugar por muito estranho que parecesse. Olharam uns para os outros e pensaram todos ao mesmo tempo na palavra ESPERANÇA. Talvez ainda fosse possível…talvez… Num momento todos se ergueram e foram à procura de mais flores amarelas. Com as unhas afastaram as folhas velhas e os ramos partidos e esgaravataram na terra à procura de rebentos verdes, de sementes, de qualquer coisas que revelasse vida. E encontraram. Encontraram vida! Encontraram vida e isso significava que era possível voltarem ser o que eram antes: humanos. Não foi preciso dizerem nada, cada um sabia o que tinha a fazer. Tinham apenas que o fazer depressa. Era urgente a vida. Demasiado urgente. Podiam não ter muito tempo mais.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: large;"&gt;Texto de ficção escrito para a fábrica das histórias por Cláudia Moreira&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-03-28T23:35:17</issued>
    <title>Saudades</title>
    <published>2010-03-28T22:38:03Z</published>
    <updated>2010-03-28T22:38:03Z</updated>
    <category term="fabrica das histórias"/>
    <category term="saudades"/>
    <content type="html">&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;img style="border: 0 none;" src="http://api.ning.com/files/6izZ8GN0vLOa1qGwwNT4Iq44Nv5uATu0iJsSIEE4USv6t8AVkxDM0LUSYEqUu2MVpzp0LKCpv8Epf-kx4t8V1MWmVQ9c1MjZ/Saudades____by_xlovesuicidex.jpg" alt="" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style="font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;Querido,&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style="font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt; &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style="font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;Esta noite sofri como não me lembro nunca de ter sofrido... Esta noite foi das noites mais difíceis da minha vida, das mais negras... Querido, foste embora e eu fiquei sozinha na noite, perdida entre os fantasmas do passado. As horas sucederam-se e eu sem conciliar o sono. As saudades fizeram doer cada centímetro da minha pele, cada fio do meu cabelo... Não conseguia tirar da cabeça a imagem dos teus olhos profundamente verdes procurando os meus numa ansiedade imensa, do teu rosto inteiro e perfeito tão perto do meu. Não conseguia deixar de imaginar-te perto de mim como em tantas e tantas noites que passamos juntos, noites em que querias estar tão perto de mim quanto era humanamente possível. Doeu sentir saudades dos teus lábios pousados nos meus, desejando sofregamente mais e mais. Os teus lábios na minha pele dourada pelo sol. Ah, meu querido, é insuportável pensar que jamais sentirei i sabor da tua boca, da tua pele ligeiramente salgada depois de horas de paixão. O meu peito que não sentiu o teu toda a noite e quase sufocou. Lembrei cada detalhe dos teus dedos quando de forma suave querias sentir a minha pele do pescoço e dos ombros e delicadamente ias descendo até seres dono de todo o meu corpo. Preciso tanto que voltes para atenuar esta dor feita de uma saudade imensa. Preciso de voltar a sentir o amor imenso das noites que passamos em claro, descobrindo o corpo um do outro, entregando-nos um ao outro sem pudor mas com uma paixão desmedida… Lembras-te de cada vez que pensávamos ir dormir e nos tocávamos inocentemente? Lembras-te como isso era suficiente para nos despertar para mais uma noite de loucura e paixão? Tenho saudades, querido…repito-me bem sei, mas tenho tantas saudades…quero beijar-te, beijar-te tanto até perder a respiração….quero amar-te tanto que não sejas capaz jamais de me deixar….&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style="font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;Foste embora e eu fiquei só. A noite toda a pensar na tua ausência, a senti-la como uma faca espetada no peito... Na madrugada a dor física foi-se desvanecendo e a dor da alma atacou em força. Não há nada capaz de atenuar esta dor…nenhuma lembrança, o teu cheiro na minha almofada, na minha camisola que não tenho coragem de lavar…Nada, nada é capaz de apagar esta saudade…. Não consigo deixar de lembrar as tuas mãos brancas e macias enlaçadas nas minhas. A tua barba quase sempre por fazer a roçar o meu rosto, fazendo sempre com que eu solte um risinho de adolescente. Dá-te um bom ar a barba, um ar de desprendimento pela vaidade e coisas materiais que eu tanto aprecio…. Já to disse antes, penso, mas repito-to agora mais uma vez meu querido…és tão belo, és tão perfeito… não saberei agora viver sem ti… Nem nunca…&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style="font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;Querido, quem me virá agora dizer bom dia no ouvido? Um bom dia murmurado mas que no meu coração soava como a voz mais belamente timbrada do mundo? Quem me dirá agora palavras de amor? Quem me fará rir? Quem agora me segurará na mão em dias de tempestade? Quem me virá beijar a testa com um sorriso capaz de derreter a maior montanha de gelo do mundo? Adoro esse gesto…Não serei capaz de viver assim….Sem ti…&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style="font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;Ainda não me levantei da cama…Não me apetece. Estou aqui apenas a tentar que nenhuma das memórias que guardo de ti se consiga escapulir pela janela. Não a irei abrir mais, a janela. Não quero. Quero continuar a sentir as tuas mãos no meu corpo, a tua boca na minha boca. Quero continuar a sentir o teu cheiro deliciosamente inconfundível. Quero continuar a sentir-te, inteiro.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style="font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;Sabes? A vida perdeu a cor. A saudade dói. E sei que nenhum dia jamais será dia porque a escuridão tomou agora conta da minha vida… como pode voltar a ser claro sem ti? Não poderá jamais… Nunca… Será noite para sempre…&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style="font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt; &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style="font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;Amo-te daqui até à lua e depois da lua até aqui.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style="font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;Saudades de ti&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style="font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: medium;"&gt;&lt;em&gt;M.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Texto de ficção escrito para a fábrica das histórias por Cláudia Moreira&lt;/p&gt;</content>
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    <id>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:clubedospoetasmortos:13983</id>
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    <issued>2010-03-21T23:28:58</issued>
    <title>Ajudar e ajudar</title>
    <published>2010-03-21T23:36:51Z</published>
    <updated>2010-03-22T00:50:49Z</updated>
    <category term="ajudar e ajudar"/>
    <category term="fabrica das histórias"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify; "&gt;&lt;img border="0" style="border-color:black;" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_9AgCaXMcCto/Sp9SdzBMHCI/AAAAAAAAADg/ZwgBwRAhdUg/s400/maos.bmp" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify; "&gt;imagem retirada da net&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify; "&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify; "&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify; "&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;No computador a imagem parada de uma folha de Word ainda em branco. Na secretária roída pelo bicho da madeira uma imensidão de papéis por arrumar, que faziam duvidar de eficiência do sujeito sentado na grande cadeira preta já muito gasta e rota. No cinzeiro um cigarro a consumir-se sozinho. A lâmpada no tecto iluminava mal. Apenas o suficiente para que se visse o sitio das coisas. A janela ainda aberta mostrava a cidade iluminada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Miguel vestia uma camisola de manga curta branca que já tinha visto lixívia &amp;hellip;. Em tempos idos. O ar estava impregnado de cheiro a tabaco, perfume barato odores corporais. Miguel tinha as mãos apertadas uma na outra atrás da nuca e olhava pensativamente para a folha em branco. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Nenhuma ideia lhe ocorria. Nada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;&lt;i&gt;&amp;ldquo;Maldito consultório sentimental.&amp;rdquo; Tantas choronas a pedir conselhos idiotas com pensamento idiotas&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Mais uma vez tentou imaginar uma resposta politicamente correcta para dar aquela mulher que perguntava se poderia engravidar porque beijou o namorado. Também poderia ser gozo. Miguel achava impossível que alguém pensasse isso verdadeiramente. No entanto tinha que responder, não importava nada a sua opinião. Todos os dias lhe chegavam histórias fabulosas incríveis de tão parvas que eram. Todos os dias os emails lhe entupiam a caixa de entrada e a caixa do correio estava atafulhada de cartas cobertas de caligrafia quase analfabeta. Era triste. Sentia-se frustrado. Era um trabalho que não servia para nada. Nem ajudava ninguém, gozavam com ele e ganhava uma porcaria. Estava tudo mal. Sentia-se mal. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Pegou no casaco e saiu para a rua. Precisava de arejar. Estava escuro e não conseguia encontrar nenhum café aberto para comprar cigarros. Pelo menos o ar da rua ajudou-o a clarear as ideias&amp;hellip;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;&lt;i&gt;&amp;ldquo;Que trabalho estúpido o meu&amp;hellip;.&amp;rdquo;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Miguel era boa pessoa. Aceitara aquele trabalho &lt;i&gt;jornalístico&lt;/i&gt; porque tinha contas para pagar. Mas não era de todo o que gostaria de fazer. Nunca, em tanto tempo de faculdade, lhe tinha passado pela cabeça utilizar os seus conhecimentos de escrita para aquilo. Era quando uma desonra. Chutou uma pedra e doeu-lhe o dedo grande do pé. Um palavrão saiu-lhe entre-dentes. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;&lt;i&gt;&amp;ldquo;Se ao menos no meio de todos estes parvalhões alguém precisasse MESMO de ajuda&amp;hellip;&amp;rdquo; &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Dias depois teve uma surpresa quando chegou ao escritório. Uma rapariga esperava-o. Não teria mais de dezoito anos mas estava muito pintada e aparentava mais. Quando abriu a boca para dizer a primeira frase percebi que era uma pessoa pura da aldeia. Aquela capa de maquilhagem e roupas extravagantes era para enganar o primeiro olhar dos mirones.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;- Preciso de ajuda senhor&amp;hellip;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Miguel ficou sem saber o que dizer. Era a primeira vez que alguém o abordava. Era a primeira vez que tinha frente a frente alguém a quem respondera no consultório sentimental. Olhava para a rapariga e não dizia anda. Estava mudo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;- Preciso de ajuda&amp;hellip;.disse-me que deveria dizer ao pai do meu filho e agora ele escorraçou-me de casa e disse que nunca mais me queria ver&amp;hellip;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;As lágrimas corriam-lhe pela cara e Miguel teve uma vontade imensa de a abraçar, de a confortar. No entanto não se mexeu. Não fazia a mínima ideia de quem fosse a rapariga. Mesmo!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;- Agora não tenho para onde ir, nem o que comer. Não sei o que fazer. Ajude-me senhor&amp;hellip;.eu confiei em si&amp;hellip;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Miguel sentou-se e acendeu um cigarro. A rapariga mantinha-se de pé. Miguel olhou-a mais uma vez e fez sinal para que se sentasse na cadeira em frente à sua. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;- Diga-me em primeiro lugar como se chama menina&amp;hellip;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Uma expressão de surpresa atravessou-lhe o rosto. Miguel percebeu imediatamente que ela não estava à espera que ele não se lembrasse dela. Era ainda mais inocente do que tinha pensado. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;- Margarida. O meu nome é margarida. Escrevi-lhe em tempos quando descobri que estava grávida. Não tenho pais, morreram. Também não tenho amigos porque vim da terra e não conheci ninguém ainda. Tenho estado quase escondida em casa&amp;hellip; Quando lhe escrevi, imaginei que me fosse ajudar. Em vez disso correu tudo ao contrário. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;A jovem mulher escondeu o rosto nas mãos e soluçou alto. Miguel não sabia como fazer, não sabia o que pensar sequer&amp;hellip;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;- Em que posso ajudá-la? Eu também não sei muito bem como fazer&amp;hellip;.diga-me o que posso fazer&amp;hellip;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;- Não sei&amp;hellip;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Miguel olhou-a mais uma vez e sentiu uma pena infinita da rapariga. Ela estava sozinha, grávida, sem dinheiro, sem família. Desconfiava que se não a ajudasse agora ela se perderia no mundo e quem sabe que futuro seria o dela. Negro, disso não duvidava. Mas não sabia como ajudar&amp;hellip; sentia-se impotente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Levou -a para sua casa e deu-lhe de jantar. Fez a cama de lavado e cedeu-lha. Quando ela adormeceu ele ficou a olha-la durante muito tempo, depois deitou-se no sofá e passou a noite em claro sem conseguir conciliar o sono.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;De manhã aconselhou-a a abortar. A esquecer o homem que a abandonara e a recomeçar tudo de novo. Margarida bateu a porta a chorar e Miguel não conseguiu deixar de a ouvir durante muito tempo na sua cabeça. Já tinham passado alguns minutos, ele não sabia bem quantos, quando se arrependeu do conselho. Tinha sido estúpido, muito estúpido. Miguel começou a correr sem parar, andou por muitas ruas, bateu a portas, perguntou a muita gente se a tinham visto e estava quase a entrar em desespero quando a viu. Margarida estava sentada no paredão da praia. Olhava o mar com uma expressão vaga de desalento.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;- Margarida&amp;hellip;desculpa&amp;hellip;.não faças o aborto. Não o faças&amp;hellip;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Ela olhou-o como uma expressão interrogativa. Estava confusa e ele estava com um aspecto estranho. O suor corria-lhe pelo rosto cansado e o cabelo estava desgrenhado e as roupas coladas ao corpo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;- Margarida&amp;hellip;.vamos para minha casa. Podes lá ficar algum tempo. Vou ajudar-te. Tratas de ti e do bebé. Vais conseguir resolver a tua vida mesmo sem um pai para essa criança. Verás que sim. Vou ajudar-te no que puder. Não te vou desiludir.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Miguel não a desiludiu. Ajudou-a a encontrar uma casa de acolhimento, um trabalho. Ajudou-a com a amizade, com o carinho e a dedicação de amigo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Depois, Miguel não conseguiu voltar a escrever para aquele absurdo consultório sentimental. Aproveitou os seus conhecimentos jornalísticos para escrever pequenos artigos para revistas sobre a maternidade, a parentalidade, as crianças órfãs, o aborto e muitos outros temas pertinentes, tentando sempre ajudar as pessoas a compreender e a encontrar a melhor forma de agir nos casos como o da margarida. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Miguel veste uma camisa branca, tão branca que fere a vista. Na sua frente uma secretária desarrumada e uma folha de Word em branco espera por ele.  Pela janela aberta o sol entra morno acompanhado do riso fácil de duas crianças. Uma mulher pede silêncio para não importunar o trabalho do pai. Miguel sabe que ajudou muitas mulheres e homens desde aquela noite em que conheceu a Margarida e isso fá-lo sentir felicidade pura. Miguel ouve as crianças e sente uma alegria monstruosa. Um sorriso abre-se-lhe no rosto. Já sabe o que vai escrever!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Texto de ficção escrito para a fábrica das histórias por Cláudia Moreira&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-03-14T22:12:08</issued>
    <title>O elogio das mulheres</title>
    <published>2010-03-14T22:13:48Z</published>
    <updated>2010-03-14T22:13:48Z</updated>
    <category term="o elogio das mulheres"/>
    <category term="fabrica das histórias"/>
    <content type="html">&lt;p&gt; &lt;img border="0" style="border-color:black;" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_aKF0rsoVSfg/SbQj3iuSa_I/AAAAAAAACcc/h6WUkmZ91SE/s400/MulherFlor.jpg" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;imagem retirada da net&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Simão era um homem que tinha crescido no meio dos homens. Simão era um homem que tinha aprendido que os homens é que devem mandar porque elas não tinham sido feitas para pensar. Simão era um homem que tinha aprendido que ser mulher é ser inferior. Simão era um homem que não conhecia as mulheres.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Depois, um dia, embarcou numa viagem sem retorno. Uma viagem de conhecimento, de revelações. Simão perdeu o pai com quem sempre vivera e com quem tinha sido sempre educado e vagueou sozinho pelo mundo. Ele era um homem muito observador e inteligente e por isso muito rapidamente absorveu muita informação. Simão estava estupefacto com as coisas que via. Simão queria entender.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Viu então muitas mulheres, viu-as verdadeiramente com os olhos ansiosos por aprender. Viu mulheres a trabalhar no campo, de mãos calejadas e costas dobradas. Viu mulheres nos hospitais salvando pessoas das garras da morte. Também viu mulheres salvando crianças das mãos de pedófilos e assassinos. Vou mulheres polícias e viu mulheres nas ruas vendendo o seu corpo para sustentar pais doentes e filhos pequenos. Viu mulheres sozinhas a cuidar das casas e dos filhos. Também viu mulheres que mesmo na adversidade não deixavam nunca de sorrir. Também viu mulheres enfermeiras que não saiam da cabeceira da cama dos doentes no último sopro de vida. Viu-as nas escolas a ensinar com uma paciência infinita, viu-as no laboratórios a descobrirem curas e vacinas para doenças raras. Viu mulheres que comandavam tropas e governavam países. Viu tantas e tantas e tantas mulheres que nunca deixavam de sorrir mesmo na adversidade dos dias mais difíceis. Viu mulheres no momento do parto. Viu mulheres a fazer um mimo na cara dos filhos. Viu mulheres na guerra e viu mulheres a amamentar. Viu mulheres que nunca desistiam por mais difícil que fosse o caminho a percorrer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Tudo isto o alegrou. Tudo isto o espantou. Alem de tudo, espantou-o a capacidade maravilhosa de nunca deixarem de serem meigas e pensarem nos seus filhos ou mesmo nos seus companheiros homens. Ganhou uma profunda admiração pelas mulheres. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Um dia descobriu que se festejava o dia da mulher. Descobriu que nesse dia se compravam presentes e se faziam jantares. Que nesse dia se falava muito nas mulheres e que nos outros dias eram maltratadas e ignoradas. Nos outros dias os maridos gritavam-lhes e exigiam-lhe coisas absurdas. Nos outros dias eram apenas aqueles quem se esperava o trabalho, a meiguice, os sorrisos, o nunca barafustar ou dizer não. Nos outros dias dava-se como adquirido que a mulher não precisava de sorrisos ou obrigadas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Simão não percebeu e recolheu-se um pouco. Precisava de pensar. Precisava de perceber no porque destas atitudes. Não era preciso haver um dia dedicado às mulheres porque o deveram ser todos. Não deveria haver um dia dedicado às mulheres porque não deveria se necessário lembrar todo o trabalho e que exercem todo o esforço que fazem. Deveria ser um dado adquirido que as coisas que as mulheres fazem são coisas normais mas que merecem reconhecimento e gratidão na mesma pela boa vontade com que são feitas. E isto não deveria ser por ser mulher ou homem mas por ser intrínseco a ser-se humano. Quem da tanto de si deve ser reconhecido e agraciado por isso. Assim, era como se dessem uma migalha de pão a um esfomeado. Era como se dissessem às mulheres: toma lá este dia e contenta-te. No resto dos dias nem vamos notar que existes. Simão não percebeu e doeu-lhe na alma. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Meteu então os pés ao caminho numa viagem longa de reflexão. Precisava de pensar em tudo isto. Percorreu muitos quilómetros. Conheceu muitas culturas. Dormiu com muitas mulheres. Amou-as todas. Precisava de perceber e mesmo assim não conseguiu. Quando voltou fechou-se em casa a escrever. Depois de muitos dias, muitas semanas, meses e anos, finalmente terminou, tudo o que precisava de dizer sobre a beleza exterior e interior das mulheres estava naquele livro. Era o elogio das mulheres. Simão estava velho. As barbas longas estavam brancas e o cabelo durante anos sem cortar caia-lhe pelas costas. Pegou no manuscrito debaixo do braço e deixou-o ficar nas mãos de uma mulher jovem e muita bela que por ele passou. Depois voltou asa costas e nunca mais ninguém ouviu falar dele.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;O livro, esse, foi publicado e tornou-se a maior homenagem de todos os tempos às mulheres de todos os tempos, idade e classes sociais. Como não há autor, os direitos das vendas revertem a favor de casas para ajudar mulheres cujos homens costumam maltratar. Também se usa uma parte do dinheiro para descobrir a cura para doenças que são apenas das mulheres. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Muita gente lê o livro e, creio, não há ninguém que fique indiferente. Nem mulheres e nem homens. Creio que foi cumprido o objectivo de Simão, pelo menos um bocadinho em cada homem que o lê e muda a sua maneira de ver as mulheres. Agora só nos resta esperar que a humanidade se torne toda tão sábia como o Simão, lendo ou não a sua obra. Importa é que dentro do coração dos homens o mundo comece a ser mais justo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Texto de ficção escrito para a fábrica das histórias por Cláudia Moreira&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-03-07T22:40:05</issued>
    <title>O espelho</title>
    <published>2010-03-07T22:47:15Z</published>
    <updated>2010-03-07T22:47:55Z</updated>
    <category term="fabrica das histórias"/>
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    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt; &lt;img border="0" style="border-color:black;" alt="" src="http://img46.imageshack.us/img46/2286/oespelho.jpg" /&gt;Ele ia por ali pelo corredor coberto de retratos de gente famosa e espelhos, sem pressa aparente. Pensava em coisas sem nexo e nem reparava no que via. No entanto, ali entre o retrato do bisavô que tinha sido governador e o da sua tetravó marquesa, algo lhe chamou a atenção. Voltou para trás e postou-se em frente ao espelho. Abriu a boca como se fosse falar mas fechou-a novamente sem sequer ter emitido um único som. Algo estava ali muito errado. O espelho devolvia-lhe uma imagem errada, absolutamente errada. Em vez de ver o seu rosto, via a parte de trás de si próprio. Como era aquilo possível. Ainda pensou que estava a ter alucinações, que algo que comera lhe tinha feito mal. Beliscou-se e não conseguiu evitar um gritinho de dor. Não estava a ver mal. Efectivamente o espelho devolvia-lhe a o reflexo das suas costas. Mas como era isso possível se estava de frente? Olhou para trás de si, tentando perceber se haveria ali algum truque. Mas não, nada. Tudo tranquilo, igual a todos os dias. Os retratos cobertos de um pó fino, as paredes cobertas de papel de parede amarelecido pelo tempo. Os espelhos com as molduras douradas já de outro século estavam a ficar sem prata por trás e alguns até já nem conseguiam devolver a imagem como deveria ser. Mesmo assim nada fora do normal. Olhou-se ao espelho novamente e confirmou o que já tinha visto antes: a sua nuca, o cabelo grisalho, as costas estreitas&amp;hellip; sentiu medo por não saber explicar o que via. Sentiu medo do desconhecido.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Um livro. Estava ali um livro pousado no móvel por baixo do espelho. Não o reconheceu. Talvez estivesse ali a resposta&amp;hellip; abriu-o a medo e não entendeu nada do que lá estava escrito. Estava escrito em caracteres estranhos que nunca tinha visto, podia ser uma linguagem antiga, não sabia. Mesmo que ali estivesse a resposta não servia de nada porque não conseguia ler aquilo&amp;hellip;. Fitou-se mais uma vez à espera de ver um rosto desanimado mas só conseguiu ver-se de costas. Saiu dali a correr o mais que pode. Precisava de ar. Ar fresco e puro. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Percorreu o jardim onde dezenas de magnólias raras mostravam ao mundo a sua beleza. Enquanto isso respirava fundo para tentar perceber se tudo não passara de uma alucinação. Talvez tivesse sido apenas isso, uma alucinação. Estava cansado, a mente talvez lhe estivesse a pregar partidas. Mais calmo voltou para dentro. Depois de um momento de hesitação voltou ao espelho e forçou-se a olhar novamente. Um frémito de desilusão percorreu todo o seu corpo. Lá estava a mesma imagem reflectida: as suas costas. As pernas tornaram-se mais fracas e ele encostou-se a uma parede e fechou os olhos. Depois, recorrendo a uma grande força interior, voltou a pegar no livro. Sentou-se no chão perto do espelho e abriu o livro. Depois de ver com mais atenção percebeu que aquilo não era uma linguagem estranha mas sim um código. Estava ali uma mensagem encriptada, tinha agora a certeza. Era só tentar perceber o que era. Durante duas horas esteve ali sentado, a tentar decifrar a mensagem. Já lhe doíam as costas e a noite caíra por completo. Lembrou-se que tinha que comer mas não deixou o livro nem por um momento. Comeu com ele e depois foi para o quarto com ele. Deitou-se mas não conseguiu dormir. E dois dias depois ainda não tinha dormido. Estava obcecado por entender. Estava febril. Por fim conseguiu perceber como estava escondido o texto e num instante toda a informação se tornou clara e penetrou na sua mente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;&lt;i&gt;Em meados do século XVIII um homem que vivia numa terra longínqua fez um espelho. Dizia-se que esse homem tinha poderes sobre todas as coisas da natureza: as vivas e as mortas. E esse homem de nome Galic, tinha em tempos sofrido horrores por perder a sua jovem filha. Uma filha que era muito bela mas muito vaidosa e que se perdeu para sempre nas trevas da loucura por tanto se admirar e adorar ao espelho e por isso num dia de desespero ele lançou uma maldição em todos os espelhos que a sua ira alcançou. Quem se olhasse num desses espelhos não veria nunca os seus próprios olhos, seu próprio rosto, a sua própria beleza, para que a vaidade jamais pudesse cegar as suas almas corruptíveis. Depois, com o passar dos anos os espelhos foram-se perdendo pela terra e o mundo esqueceu esta maldição.&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Ele compreendeu então que o seu coração estava tomado pela vaidade e não se tinha dado conta disso. Reviu os últimos dias da sua vida, os últimos meses e percebeu que se tinha transformado numa pessoa diferente, pior e que isto tinha sido uma chamada de atenção. Tinha que mudar. Precisava de mudar. De ora em diante aquele espelho seria o seu vigilante, seu guia que não deixaria desviar-se do bom caminho&amp;hellip;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;&lt;br type="_moz" /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;texto de ficção escrito para a Fábrica de Histórias por Cláudia Moreira&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <id>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:clubedospoetasmortos:13129</id>
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    <issued>2010-02-28T23:46:16</issued>
    <title>Pecados Capitais</title>
    <published>2010-02-28T23:54:37Z</published>
    <updated>2010-02-28T23:54:37Z</updated>
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    <content type="html">&lt;p style="text-align: center; "&gt;&lt;img border="0" style="border-color:black;" alt="" src="http://fanfiction.nyah.com.br/fanfics/7814/images/7_pecados_capitais.gif" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify; "&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify; "&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify; "&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify; "&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;&lt;br type="_moz" /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify; "&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;O choque seria impossível de evitar. O carro aproximava-se de mim a uma velocidade vertiginosa. Eu sabia que tinha que me desviar mas as minhas mãos estavas quietas de pavor. Estava petrificado. Apenas numa fracção de segundos a minha mente viajou à velocidade da luz. Sabia que iria morrer em menos de um minuto, sabia que não estava pronto. Sabia que era demasiado jovem, mas também sabia que tinha demasiadas contas a prestar a Deus. Se houvesse Deus. Agora já não tinha a certeza de nada. E se houvesse Deus e eu tivesse passado a vida toda a não acreditar? Como poderia agora enfrentá-lo? Como seria entrar na porta dos céus e sentir o peso do juízo de Deus nos ombros? Seria um peso demasiado grande para poder suportar. Todas as imagens que me ensinaram a temer na infância e que a tanto custo me tinha conseguido livrar voltaram em catadupa. Umas em cima das outras voltavam uma vez e outra, uma vez e outra. E o carro não parava de se aproximar. Eu sabia que tinha de fazer alguma coisa, mas estava imobilizado pelo medo. Os faróis do outro carro cada vez mais próximos, cada vez mais próximos, encandeando-me os olhos. Fechei os olhos e desisti. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;O som de uma buzina a tocar furiosamente, um vento estranho que me empurrou o carro para a berma. Senti raspar nos rails até que o carro parou e ficou silencioso. Abri os olhos e nada. Nada a não ser a escuridão da noite. Deixei-me estar, incapaz que estava de me mexer. Depois senti as calças quentes e húmidas e percebi que tinha urinado no momento aterrador em que pensei que seria o momento de morrer. Como um autómato liguei o carro novamente, fui para casa, deixei-me estar debaixo do chuveiro mesmo com roupa e tudo. Estava perdido. Abri os olhos por entre a água que me corria morna pela cara e corpo dorido e envergonhado e pensei que tinha que me ir confessar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;- Sr. padre. Eu quero confessar-me, mas não o quero fazer ali no confessionário à vista de todos. Tenho tanto que contar&amp;hellip;.posso fazê-lo como se conversássemos?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;- Claro que sim&amp;hellip; vamos para ali... Estamos mais à vontade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;- Tenho que limpar a alma&amp;hellip;.quero estar pronto para morrer quando chegar a hora. Não me tenho portado bem&amp;hellip; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;- Estamos sempre a tempo de nos arrepender meu filho&amp;hellip;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;&lt;i&gt;Um dia desejei a mulher de outro homem. Ela era absolutamente deslumbrante. Ela não me queria como homem mas como amigo. No entanto isso não me chegava. Estava louco por ela. Por isso fiz-me amigo do marido dela para poder se convidado para a sua casa, para puder olhar para aquela mulher fabulosa. Para poder tê-la no meu campo de visão sempre que quisesse. Depois, aos poucos, convencia-a que o marido a enganava e enquanto isso fui-me aproveitando da proximidade e da sua fraqueza momentânea para me insinuar no seu coração. Não demorou muito até conseguir fazer amor com ela. Levei-a à loucura. Sempre soube como fazer isso. Na própria cama deles fazíamos amor loucamente. Ela convencida que o marido a enganava e eu sem remorsos pela mentira. Mas ela tinha remorsos. Ela tinha muitos remorsos por ser fraca nas minhas mãos. Eu estava loucamente perdido de amores por ela. E ela por mim, também o sei. No entanto sei que não faria nada que prejudicasse aquele homem. Nessa altura, cerca de dois meses depois de termos feito amor a primeira vez, eu já não suportava a ideia dela a dormir com outro homem. Comecei a beber demais. Todos os dias ia para casa e para não pensar no que ela fazia na cama com o marido eu bebia. Primeiro um, depois dois e algum tempo depois era capaz de beber uma garrafa inteira de whisky. Um dia fui lá com a intenção de lhe pedir que saísse de casa para vir comigo. A porta estava aberta e fui até ao quarto de casal onde eu já tinha estado com ela antes. Pela porta aberta vi-a em cima dele, nua, os peitos a oscilar com a respiração ofegante. Faziam amor e gemiam os dois. Encostei-me a parede do quarto pelo lado de fora sem fazer barulho mas mal podendo suportar o coração a bater dentro do peito. Tinha que matá-lo. Foi só isto que pensei. Tinha que matá-lo. Não poderia ser de outra maneira. Aquela visão era uma tortura na minha cabeça. Só com ele morto poderia sossegar. Comecei a pensar num plano. Todos os dias pela noite dentro de copo na não imaginava-o a morrer de várias maneiras. Por fim achei que tinha encontrado a forma mais fácil e que ninguém saberia que tinha sido eu. Nem mesmo ela saberia. Depois tê-la-ia nos meus braços Esta noite fui a casa deles. Esperei que ele saísse para o convidar para um passeio a pé. Quando por fim ele aparecei e eu fiz de conta que tinha acabado de chegar. Fomos andando, ele falando alegremente e eu ansioso que aquele momento terminasse. Deixei-me ficar para trás. A arma queimava a minha mão. Estava pronto a tirar-lhe o relógio e a carteira para compor a história do crime que sairia nos jornais. Por fim, no último momento fraquejei. Fraquejei mas não desisti. Fraquejei por achar que seria descoberto. Mas não desisti. Era apenas um adiamento por precaução. &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;&lt;i&gt;Depois peguei no carro e fui para casa. Mas no caminho algo aconteceu. Estive perto da morte e arrependi-me. Não sei como mas dentro de mim algo mudou. Algo se quebrou dentro da minha alma. Como se de repente tudo aquilo tivesse deixado de fazer sentido. Como se os todos meus sentimentos e emoções se tivessem baralhado e voltado a uma determinada ordem diferente da anterior. Foi um renascer&amp;hellip;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;&lt;i&gt;Preciso de perdão padre. Preciso de voltar a sentir que a vida faz sentido. Preciso de perdão porque pequei. Cometi vários pecados mortais, preciso mesmo de perdão&amp;hellip;.&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;&lt;i&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size: medium; "&gt;Texto de ficção escrito por Cláudia Moreira para a Fábrica de Histórias&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify; "&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify; "&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify; "&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify; "&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify; "&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify; "&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify; "&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt; &lt;/p&gt;</content>
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