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LER

Livros. Notícias. Rumores. Apontamentos.

«Haverá compras de editoras por valores quase insignificantes»

«Em primeiro lugar, creio que a concentração, que para muitos foi uma surpresa, era algo que devia esperar-se. Há demasiadas editoras e demasiados livros para o público leitor que temos. Creio também que a concentração vai trazer, ao contrário do que muitos esperam, uma redução dos títulos publicados. Os grandes grupos sabem fazer as contas e vão perceber melhor a realidade do mercado do que os pequenos projectos editoriais, muitas vezes quixotescos na sua gestão e análise de mercado.
Eu não esperava mais concentração editorial em 2009, antes de se entrar neste momento de crise. Agora acho que, se os grupos grandes agirem bem informados e de forma inteligente, haverá bastantes aquisições. A economia do mercado editorial português é, infelizmente, feita sempre no limite do sustentável e a crise vai abanar muito as pequenas editoras. Acho que haverá compras e por valores quase insignificantes. As pequenas editoras só com muita dificuldade vão sobreviver à junção das políticas de esmagamento dos grandes grupos (já alguém reparou que é raro encontrar um livro publicado por um grande grupo a mais de 16 euros?) e da crise que, tenho a certeza, vai agravar-se.
Aos grandes grupos surgirá a possibilidade de comprar marcas e catálogos de peso por quase nada – e as pequenas editoras terão de o aceitar ou falir. Penso, pois, que 2009 verá o final de muitos projectos interessantes, a não ser que os grandes grupos intervenham. Pessoalmente estou certo de que o que sobreviver a este momento vai ser, pela primeira vez, uma indústria cultural adequada ao mercado. Mas, durante esse processo, viveremos dias negros para a edição em Portugal.»

 

Excerto de um texto de Hugo Xavier, editor da Cavalo de Ferro, publicado na edição de Janeiro da LER, semanas antes da notícia da aquisição desta editora pela Fundação Agostinho Fernandes.


Conferência de imprensa «em que serão anunciados os moldes em que a Cavalo de Ferro passará a integrar o Grupo Editorial da Fundação Agostinho Fernandes» — segundo se pode ler no comunicado — hoje, às 18h30, na Buchholz, Largo Rafael Bordalo Pinheiro, 30, em Lisboa.

Lobo Antunes anuncia fim dos seus romances

«Vou publicar este livro que acabei agora e escrever um último livro para arredondar a obra. Essa é a minha ideia. Depois, nessa altura, quando sair esse livro que arredonda, que eu penso que me levará dois anos de trabalho - se conseguisse começá-lo este ano -, acabam os romances, acabam as crónicas, acaba tudo e não publico mais nada. A minha voz falada ou escrita já não se ouvirá mais.» António Lobo Antunes, entrevistado por João Céu e Silva, hoje no Diário de Notícias, a propósito do seu novo livro Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?.

Palavras das Correntes, 2.

Ruas, caminhos, labirintos, cruzamentos, viagens. A geografia literária (de cada leitor, de cada escritor) marcou o dia de ontem, nas Correntes. Antonio Orlando Rodriguez só sentiu que chegou a Alexandria quando conseguiu deitar-se na cama de Kavafis; José Mário Silva viajou até à Patagónia, com Chatwin, e a East Anglia, com Sebald, sem sair das páginas dos livros; Santiago Gamboa só percebeu que as ruas de Bogotá (onde nascera) não estavam orfãs de literatura quando foi estudar para Madrid, aos 19 anos; Eloy Santos falou sobre os escritores encallados (de calle) - «da impossibilidade do caminho nasce a possibilidade do relato, da narrativa»; e Gonçalo M. Tavares contou histórias, algumas dos seus livros, outras das suas viagens, e demorou-se propositadamente na palavra «reparar». (cont.)