Manuel da Silva Ramos proporcionou um dos melhores e mais surpreendentes momentos das Correntes até agora. De capacete amarelo e laterna na cabeça, explicou com erudição o seu ofício de mineiro, dividido entre várias galerias e corredores. O seu texto será publicado na edição de Abril da LER.
Pouco passava da meia-noite quando a primeira tradução mundial do novo romance póstumo de Roberto Bolaño foi lançada no bar mais perto do hotel onde estão os participantes das Correntes d'Escritas. A música, garante quem participou na festa, teve os seus momentos idiossincráticos (chamemos-lhe assim).
Pedro Vieira continua «em cima do acontecimento» na Póvoa de Varzim, mesa por mesa, autor por autor.
Edições especiais: a primeira dedicada a Agustina Bessa-Luís; a segunda com vários textos de opinião sobre as Correntes (que pode ser «descarregada» a partir daqui).
A tradutora e blogger brasileira Denise Bottmann está a ser processada pela editora Landmark por ter denunciado que a tradução de Persuasão, de Jane Austen, com a assinatura de Fábio Cyrino, é praticamente «um xerox de uma antiga – e fraca – tradução portuguesa da lavra de Isabel Sequeira, até em seus numerosos erros». Toda a história aqui.
O júri constituído por Carlos Vaz Marques, Dulce Maria Cardoso, Fernando J. B. Martinho, Patrícia Reis e Vergílio Alberto Vieira decidiram, por maioria, atribuir à autora de Myra (Assírio & Alvim, 2008) a 7.ª edição do Prémio Literário Casino da Póvoa, anunciado hoje na abertura do Correntes d' Escritas.
Na cena de abertura deste romance, Myra encontra Rambo, um cão de combate ferido, numa praia atravessada por «carris desconjuntados», «chorões apodrecidos» e marcas das «marés vivas sujas de crude». O narrador assinala: «O céu estava baixo e muito escuro.» É uma caracterização meteorológica, claro, mas também metafórica. Durante o resto da narrativa – embora aqui e ali se assista a uma aberta – o horizonte das personagens permanecerá igual ao céu da primeira página: opressivo, de um violento negrume, sempre à beira da tempestade devastadora.
Myra é uma rapariga russa que deambula pelas paisagens tristes do Portugal contemporâneo, em fuga rumo ao Sul, mas com esperanças de voltar ao Leste de onde emigrou. Durante a longa jornada iniciática, sempre com o Pitbull Terrier por perto, ela revela um extraordinário instinto de sobrevivência, feito de «manha e força». Conforme as circunstâncias, ora cita Camões, ora fala como a lerdinha que não é. E assim vai avançando por entre «criaturas íngremes», através dos vários círculos do Mal, num mundo cheio de «dor e dano».
A primeira parte do romance é composta por uma sucessão de encontros on the road: com um camionista alemão, amante de uma pintora desbocada que faz lembrar Paula Rego; com um padre, heterodoxo ao ponto de dizer que «a castidade é porca» (enquanto transporta na sua carrinha uma mulher a morrer de SIDA); com um marinheiro cego e maneta chamado Alonso (como o herói do Quixote); entre outras personagens menores. Isto até descobrir Orlando/Rolando, um «rapaz pardo» que lhe aparece todo vestido de branco junto a um Land Rover também branco, «parado como um dócil corcel expectante». A partir daqui, a história como que estaca na esfera deste cabo-verdiano, a quem Myra se entrega num idílio amoroso, cortado cerce por uma cena de carjacking que precipita de vez a acção no mais sórdido sub-mundo do crime.
De certa forma, Maria Velho da Costa escolheu ficar com um pé no romance de aventuras picarescas do séc. XVIII e outro na exploração pós-moderna das possibilidades da linguagem. O seu principal mérito está justamente na forma como gere esta dicotomia, por um lado explorando e sabotando as regras romanescas clássicas, por outro abrindo o seu livro a vários idiomas (o inglês, o francês, o russo, o alemão, o italiano, o crioulo; além do português em muitos registos: do mais elevado ao calão e aos regionalismos), bem como à simples celebração da literatura, escondida em diversos envios e homenagens a outros escritores, como Herberto Helder, Manuel Gusmão, Jorge de Sena, Adília Lopes ou Helder Macedo.
[Texto de José Mário Silva publicado na revista LER nº 76]
A centésima sessão do ciclo poético «Quintas de Leitura» do Teatro do Campo Alegre acontece já na próxima quinta-feira (dia 25), às 22h, no Auditório do TCA, no Porto. Oito anos assinalados com uma cerimónia completa. Parabéns!
Segundo Elmore Leonard, Diana Athill, Margaret Atwood, Roddy Doyle, Geoff Dyer, Anne Enright, Jonathan Franzen, Esther Freud, Neil Gaiman, Richard Ford, entre outros escritores. Está tudo aqui.
As dez regras de Richard Ford
1 Marry somebody you love and who thinks you being a writer's a good idea.
2 Don't have children.
3 Don't read your reviews.
4 Don't write reviews. (Your judgment's always tainted.)
5 Don't have arguments with your wife in the morning, or late at night.
6 Don't drink and write at the same time.
7 Don't write letters to the editor. (No one cares.)
8 Don't wish ill on your colleagues.
9 Try to think of others' good luck as encouragement to yourself.
10 Don't take any shit if you can possibly help it.
«El conjunto es de una rara intensidad conmovida y parece próximo a grandes libros sobre ciudades, como Lisboa, de Cardoso Pires, o La forme d'une ville, de Julien Gracq. Al investigar dónde encontrar más obras del sabio turinés, he tropezado en las imágenes de Google con un Ceronetti que no me esperaba del todo: una mezcla de loco y de genio medieval. He decidido seguir leyéndolo, o investigándolo. Nacido en el 27, es poeta, filósofo, traductor, eterno articulista de La Stampa, dramaturgo, filólogo, marionetista.»
Enrique Vila-Matas, sobre o livro Pequeño infierno turinés, de Guido Ceronetti. Crónica publicada hoje no El País.
Aviso os mais distraídos: programa completo e outras informações sobretudo aqui.
Um curso livre de estudos avançados de Literatura, dividido em 8 sessões duplas, de Abril a Junho, é a primeira iniciativa pública do Laboratório de Estudos Literários Avançados, projectado por Abel Barros Baptista, Ana Paiva Morais, Fernando Cabral Martins e Gustavo Rubim, em fase de instalação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Programa completo e outras informações aqui.
«Quando nós professores não sabemos muito bem como fazer para despertar o interesse dos alunos pela literatura, recorremos a um método mecânico, que consiste em resumir o que foi elaborado por críticos e teóricos. É mais fácil fazer isso do que exigir a leitura dos livros, que possibilitaria uma compreensão própria das obras. Eu deploro essa atitude de ensinar teoria em vez de ir diretamente aos romances, por que penso que para amar a literatura - e acredito que a escola deveria ensinar os alunos a amar a literatura - o professor deve mostrar aos alunos a que ponto os livros podem ser esclarecedores para eles próprios, ajudando-os a compreender o mundo em que vivem.» Tzvetan Todorov, em entrevista à revista Bravo!.
Treze contos publicados por JD Salinger na New Yorker entre 1946 a 1965.
Mais uma razão para ler a Words Without Borders.
«El libro funciona; es una industria que destaca entre los sectores de nuestra economía que mejor han absorbido el tramo más duro de la crisis mundial», afirmou a ministra da Cultura, Ángeles González-Sinde.
No Bibliotecário de Babel, José Mário Silva destaca um post assinado por José Vegar.
Muitas coisas se podem fazer quando se completam 30 anos. A IKEA, por exemplo, decidiu colocar 30 modelos da sua mais famosa estante de livros (Billy) na praia de Bondi, em Sidney (Austrália). «As estantes, que permaneceram lá apenas por um dia, ofereciam milhares de livros que os frequentadores da praia podiam pegar emprestado, trocar por outros livros ou simplesmente fazer uma doação que seria revertida para a Fundação Literária da Austrália», lê-se no blogue Bibliotecários Sem Fronteiras, que divulga ainda um anúncio luminoso. [Via Blogtailors]
Na mais recente edição desta revista digital brasileira, Zaira Mahmud faz cinco perguntas ao poeta Gastão Cruz, Luis Maffei, poeta e professor de Literatura Portuguesa da Universidade Federal Fluminense, escreve sobre o último romance de José Saramago e Fábio Santana Pessanha entra em «diálogo com a casa de Maria Gabriela Llansol».
«Em detrimento de Deus, um argumento central de Caim é a pouca bondade do “senhor”. Num diálogo baseado nas tormentas impostas a Job, diz Caim: “O senhor não ouve, o senhor é surdo, por toda a parte se lhe levantam súplicas, são pobre, infelizes, desgraçados, todos a implorar o remédio que o mundo lhes negou, e o senhor vira-lhes as costas, começou por fazer uma aliança com os hebreus e agora fez um pacto com o diabo, para isso não valia e pena haver deus” (p. 136). O argumento antidivino baseado na indiferença ou no abandono não dá conta da simbologia de Deus, pois exige uma sua monocondição, e volto à pobreza dos debates que cercaram o lançamento desse romance: os que defenderam a liberdade de expressão de Saramago talvez não tenham notado que uma instância, hoje tão ou mais poderosa que a Igreja, o mercado, torna desnecessária qualquer defesa da liberdade de expressão de Saramago; os que atacaram o autor, especialmente os religiosos convictos, talvez não tenham notado que ele se esqueceu de algo que seria bastante mais problemático que uma inversão de papéis. A culpa pode ser do Herberto Helder porque, na poesia assinada por esse nome, Deus é muitas coisas, desde opressão até liberdade, chegando a ser, num poema recente, maravilha tecnológica: “o vídeo funciona,/ água para trás, crua, das minas,/ tu próprio crias pêso e leveza, luz própria,/ (…) / o mundo nasce do vídeo, o caos do mundo, beltà, jubilação, abalo,/ que Deus funciona em sua glória electrónica”. Aprendi com Herberto: Deus é digo de desobediência e escrita, de ataques e bate-bocas, portanto, ao contrário do que alguns gostam de pensar, Deus não é assim tão óbvio. Nem a literatura.»
[Luis Maffei, poeta e professor de Literatura Portuguesa da Universidade Federal Fluminense]
Como uma ficção enganou o filósofo francês Bernard-Henry Levy.
Notícias, rumores, invenções e impropérios para ler@circuloleitores.pt
1. Os 50 autores mais influentes do século XX.
2. Dez cidades para visitar com livros debaixo do braço.
3. Charles Darwin, 200 anos depois.
4. «O Magalhães é o maior assassino da leitura em Portugal.»
5. Última entrevista de António Barahona.
6. Inéditos de Fernando Pessoa.
7. John Milton por João Pereira Coutinho.
8. «O meu mal é ter uma curiosidade de puta.»
9. Entrevista Luis Sepúlveda.
10. «Já quase pareço um escritor.»
11. Entrevista Eduardo Lourenço.
12. Breve Introdução à Teoria Literária.
13. Agustina, a indomável.
14. Trinta livros do PNL.
15. Entrevista A. M. Pires Cabral.
16. Dinis Machado: «Só quis escrever um livro».
17. Retratos de um Nobel.
18. Os últimos e-mails de Stieg Larsson.
19. Os 200 anos de Edgar Allan Poe.
20. Knoxville, o território de McCarthy.
21. O bibliotecário ambulante.
22. Dez escritores europeus que (já) mereciam ser traduzidos em Portugal.
23. Entrevista Mia Couto.
24. Entrevista Vasco Pulido Valente.
25. Inéditos Vinicius de Moraes.
26. Os heterónimos de Eduardo Lourenço
Outras leituras
«Volviendo a John le Carré» (Antonio Muñoz Molina)
«A Country Without Libraries» (Charles Simic)
«The Translation Gap: Why More Foreign Writers Aren’t Published in America» (Emily Williams)
«The Godfather of the E-Reader» (Jennifer Schuessler)
«The Philosophical Novel» (James Ryerson)
«The Case of the First Mystery Novelist» (Paul Collins)
«The lost art of handwriting» (Umberto Eco)
«Our Boredom, Ourselves» (Jennifer Schuessler)
«Scandinavian Crime Wave» (Nathaniel Rich)
«When Bad Covers Happen to Good Books» (Joe Queenan)
«Tintinabulation» (Bruce Handy)
«Inside the Secret World of Literary Scouts» (Emily Williams)
«Advantage Google» (Lewis Hyde)
«Texts Without Context» (Michiko Kakutani)
«Bookmarkism: The New Ideology» (Robert Nagle)
«The Autobiography of J.G.B.» (J. G. Ballard)
«J. G. Ballard, Poet of Desolate Landscapes»
«When Writers Speak» (Arthur Krystal)
«Reading by the Numbers» (Susan Straight)
«What I heard at J.D. Salinger’s doorstep» (Tom Leonard)
«Why hasn't there been a science fiction Booker winner?» (Adam Roberts)
«Freyre, Euclides e o Brasil» (Daniel Piza)
«Las cartas íntimas de Beckett» (J. M. Coetzee)
«Entrevista Günter Grass» (Juan Cruz)
«Eudora Welty's centenary» (Paul Binding)
«Juan Benet: en un tiempo de silencio» (Manuel Vicent)
«Richard Poirier: A Man of Good Reading» (Alexander Star)
«Sumergirse en Benet» (Álvaro Colomer)
«Interview with Seamus Heaney» (Sameer Rahim)
«Robert Capa - La muerte y el azar» (Guillermo Altares)
«Why do Pynchon, Ballard and Wallace provoke such online loyalty?»
«Richard Poirier: A Man of Good Reading» (Alexander Star)
«Philip Larkin Letters» (John Shakespeare)
«Una vida absolutamente maravillosa» (Enrique Vila-Matas)
«Poética de los escaparates» (Antonio Muñoz Molina)
«In the South» (Salman Rushdie)
«Our George Steiner Problem – and Mine» (Lee Siegel)
«Poets, Academia: A Couplet in Conflict» (David Orr)