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LER

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Andréa del Fuego, por Eduardo Coelho (que bem avisara em Janeiro deste ano na LER)

Andréa del Fuego (São Paulo, 1975) é autora de uma trilogia de contos, composta pelos títulos Minto enquanto posso, de 2003; Nego tudo, de 2005, e Engano seu, de 2007. Destacam-se neles a linguagem concisa e ao mesmo tempo exuberante, norteada por uma construção lírica e rigorosa. De certa maneira, foi de sua experiência e experimentação com o conto que surgiu em Os Malaquias (Língua Geral 2010), seu romance de estreia, um estilo muito singular.

O único romance de Andréa revela o fôlego vigoroso dos grandes prosadores, mas também o impacto incisivo de quem parece criar frases como quem busca fazer um poema. Não há sobras nesse livro: ao contrário, tudo em sua narrativa tem função estrutural e sentido; nenhum fato, objeto ou sensação é deixado para trás. Os mínimos detalhes são calculados, bem dosados, sem, contudo, sugerir qualquer falseamento ou tentativa de exibicionismo estilístico: a técnica e o trabalho criativo, em Os Malaquias, não esteriliza o texto; ao contrário, estão a serviço da emoção e da vida.

Baseado em dados biográficos, relacionados à história da família da autora, seu romance é um épico moderno, que trata da carência e da força de três crianças que se tornam órfãs após um acidente natural. Cada qual ganha um destino. Cada qual, em função da separação que sofrem, tornam-se fraturados e buscam recuperar, com a valentia dos grandes heróis, a reconstituição do núcleo afetivo quebrado pelo acidente. A aventura, porém, não tem ares de enfrentamento naturalista/realista contra o mau-destino, como na maior parte dos romances brasileiros contemporâneos. Em meio ao desastre, surge uma outra força, sobrenatural, aproximando Os Malaquias do melhor romance fantástico latino-americano, como De amor e outros demônios, de Gabriel Garcia Marquez.

Não há, entretanto, apego aos mestres do realismo fantástico. Andréa del Fuego tem uma comprensão madura da tradição, suficientemente madura: a ponto de refazê-la, criando novas combinações, propondo novos formatos, incluindo de maneira nova problemas que fazem parte de todos os tempos: o amor, a morte, a vida, ou até mesmo a falta de uma política pública que não separe irmãos órfãos, fragilizando-os ainda mais e fazendo-os perder um fio importante da memória e da construção da subjetividade.

Por estas e outras razões, Os Malaquias, de Andréa del Fuego, foi apontado na coluna «A Voz do Brasil» (LER nº 98, Janeiro de 2011) como um dos melhores livros de 2010. Por estas e outras razões, Andréa del Fuego, indicada neste ano entre os finalistas do Prêmio Jabuti na categoria romance, agora recebe o prêmio José Saramago.

Prémio José Saramago para a brasileira Andréa del Fuego

Com o seu romance de estreia, Os Malaquias (Língua Geral, 2010), a paulistana Andréa del Fuego (n. 1975) conquista a edição de 2011 do Prémio Literário José Saramago. Depois de Adriana Lisboa (2003), é a segunda autora brasileira inscrever o seu nome numa galeria dominada por portugueses: Paulo José Miranda, José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe e João Tordo. Pode ler o primeiro capítulo do romance aqui.

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